Crônicas

Um feirante

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Tenho o hábito de ir à feira quando arranjo tempo para isso. Quase sempre compro frutas com o mesmo feirante, não só porque as frutas são de boa qualidade e a entrega está incluída, mas também porque a barraca é divertida.

Esse fruteiro presta um serviço à cidade que deveria ser reconhecido oficialmente. Assim que avista um gringo, ele o intercepta, e oferece uma prova das frutas. Na maioria das vezes segura um facão enorme com o qual vai cortando melão, mamão, pera, goiaba, morango gigante. Se são uvas ou jabuticabas ele enche a mão da pessoa com a amostra

Já o vi chamar a guia de grupos de estrangeiros “Traz esse povo pra cá!” e servir todo mundo. Os turistas ficam encantados, não duvido que esse gesto simples figure entre as melhores recordações de muitos deles. É uma demonstração genuína do espírito carioca que pode fazer toda a diferença numa cidade em que nem todas as experiências são boas.

Perdi a conta de quantas vezes presenciei gente tirando fotografias com ele. Uma ocasião confessou-me, todo orgulhoso, que essas fotos já foram parar até na Noruega. Devem mesmo fazer sucesso as fotografias daquele homem grande e sorridente, de camisa branca sem mangas e sandálias havaianas, na frente de uma barraca multicolorida.

Com essa distribuição toda é lógico que as frutas que vende são mais caras. Os turistas raramente compram alguma coisa, quem sustenta tudo isso são os fregueses habituais. Como consumidora, para conservar o equilíbrio econômico entre as partes e coibir os exageros, sempre dou uma olhada no preço dos concorrentes antes de chegar à barraca dele. É claro que você está comprando a grife, mas estabeleço alguns limites. Uma vez ele me disse:

– As frutas aqui são de graça, você só paga o serviço.

Pago de bom grado.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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