Crônicas

Um paraibano de berço que a Pernambuco idolatra

Adalberto dos Santos

Com estima e sem modéstia: amo o Nordeste como um todo, embora uma parte mais sensível seja da Paraíba, e a outra, por herança paterna, de Pernambuco, de que também me brio. Esta última me faz sentir vez ou outra o boa ilusão de pertencer à estirpe dos Melo, sem ser Melo, ou a dos Bandeira (idem), só porque essas duas famílias (que eram parentes) nos deram dois dos maiores poetas de nossa língua (sem falar na sociologia poética de Gilberto Freyre). Não tem nada a ver, eu sei, mas, digamos, é bom ter pai pernambucano só por isso. Desse modo posso afirmar às vezes que sou lá das velhas Cajazeiras do professor de Padim Cícero, Padre Rolim, e outras da terra onde não corre nem leite nem mel, mas as águas dormentes do Capibaribe. Rompante.

Uma vez, unicamente esta, fui ao Pernambuco. Fui é modo de dizer. Na verdade, levado fui; não tinha eu nem um ano de idade. Numa noite menos quente do que estas de agora, em pleno veraneio da ditadura, minha doce mãe organizou a prole (somos em três) para a visita oficial à avó paterna, após o meu nascimento. É, já, como se vê, um tempo remoto de que sequer tenho lembranças. Nem mesmo posso dizer que conheço a terra onde o meu pai nasceu.

Mas ficou uma saudade dessa viagem de que só soube o destino anos depois. Serrita é um pequeno município em algum lugar do estado pernambucano metido em meio a uma caatinga rala cercada de carnaubeiras imensas e onde brotam as famosas macaúbas de minha infância. Desse lugar não guardo nenhuma foto na parede; nem da avó que nunca conheci, nem de um avô ainda mais desconhecido. Deles ficaram apenas os nomes: Jovita e Inocêncio. E um pouco de uns dizeres familiares de que eram donos de uma pequena propriedade rural, através da qual tiravam o sustento para eles e pouco mais de uma dezena de filhos. Para o meu fracasso, contudo, nunca foram latifundiários. Jamais soube que eram como os riquíssimos senhores de engenho que ilustravam minha fantasia nas muitas histórias que li nos anos entusiastas da primeira escola. Esse fato sempre me impediu de contar aos outros de façanhas acontecidas naquelas terras, já que de verdade lá nunca estive.

Não faz pouco, tive a sensação de ter estado em Serrita, de ter amado Serrita longamente, por muitos anos. Foi na ocasião de uma das famosas aulas espetáculo do Ariano Suassuna. Nesse dia vi no Ariano o menino pernambucano que eu nunca fui. Suas histórias que fazem rir sem parar me levaram a imaginar com facilidade minha infância perdida na terra de Bandeira e João Cabral. Falava ele do rio Capibaribe, dos violeiros e cantadores, do linguajar da terra, de causos e histórias do povo sertanejo, por fim, de coisas afins ao pernambucano que em mim ficara escondido há tantos invernos. Garanto que me emocionei como em raras vezes. Principalmente porque ouvi Ariano falar com ternura das duas terras a quem tanto amo: nossa natal, a Paraíba, e nosso Pernambuco, tão velho quanto o estado de João Pessoa.

Ariano, no alto de seus oitenta e tantos anos, suspirou passionalmente pelas duas terras, mas não deixou que soubessem sua predileção por esta ou aquela. Durante a palestra, dedicou-se mais a Pernambuco, mas apenas para ser coerente ao tema da noite. No mais, refletiu a cultura brasileira como poucos. Só que em nenhum momento se mostrou dividido, como eu, perdido, como eu, que ainda hoje não sei que raios de mistérios me fazem ser um paraibano de berço que a Pernambuco idolatra. Duas metades que ou não me unem de verdade ou não me desunem em nome de nada. É o que tento dizer ao cearense Flauber toda vez que ele me chama de Paraibano: na verdade, devo ser algo entre o Paraibuco, ou o Pernaibano. Nem mais nem menos. Aliás, não sei se já lembrei, mas minha mãe é da Paraíba, o meu pai é de Pernambuco, e eu, não sei bem, muitas vezes minto um pouco para fazer parecer que pertenço à estirpe dos Melo, sem ser Melo, ou a dos Bandeira (idem), só porque essas duas famílias (que não eram meus parentes) nos deram dois dos maiores poetas de nossa língua (sem falar na sociologia poética de Gilberto Freyre)…

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Sobre o Autor

Adalberto dos Santos

Adalberto dos Santos

Cajazeirense, vive em Fortaleza, é ficcionista e cronista.

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