Crônicas

Uma lenda da criação do mundo

André Lucidi
Escrito por André Lucidi

23 que quando Deus estava criando o mundo com seus anjos, lá bem no início, pela primeira vez surgiu o termo inteiração. Deus pensou em quantos mundos ele já havia criado antes e que todos tiveram o mesmo fim, de uma maneira ou de outra. Optou então, por botar a criatura que ele tanto desejava ver evoluir junto a seus anjos, para que tendo noção do trabalho que era construir um mundo e assim, passasse a valorizar o planeta que habitava.

Assim surgiu o primeiro homem. Muitos dizem que deveria ter sido a primeira mulher, pois mulher entende destas coisas melhor do que homem, mas o fato é que surgiu então, aquele que foi batizado carinhosamente de mundinho.

Mundinho, olhando aquele voa pra lá e voa pra cá de anjos, levando luz pra um lugar, provocando fenômenos que mais adiante resultariam em belos lugares em outros cantos do mundo, resolveu, se sentindo o tal, afinal o mundo estava sendo feito pra ele, dar seus palpites. Logo na primeira semana, Mundinho teve uma discussão sobre o número de frutas que deviam haver em cada árvore. Para ele, cada árvore deveria dar 12 frutos diferentes, ao invés de somente várias de uma mesma fruta. A água que corria nos rios, deveria ser mineral, assim pedindo aos anjos que carregassem ou fizessem rolar pedras de mais de cem mil toneladas com os minérios certos até as nascentes de cada rio existente no mundo. O sol deveria manter a temperatura máxima de 26 graus, o ano inteiro e, não deveria haver noite, apenas uma leve diminuição da luz, ao longo do dia. Para que ele se locomovesse, todo animal deveria ser manso e ter as costas reforçadas. Insetos, nem pensar. Somente as borboletas e abelhas, fazendo mel.

De início, os anjos foram tolerantes com ele, mas com o passar dos dias, Mundinho estava começando a encher o saco, sempre dando palpites que resultavam em mais de seis dias de empreitadas. Com tantos pedidos, resolveram que Mundinho deveria, ele também, trabalhar na criação do mundo. No quinto dia de criação, O arcanjo maior se reuniu com deus e disse:

– Deus, assim não dá. Com o Mundinho dando palpites, sentado nas nuvens sem fazer nada, isto aqui só vai acabar em mil anos…

Então Deus, concordou com o arcanjo maior e resolveu que Mundinho deveria acompanhar a criação de dentro do mundo. Pediu aos seus anjos que o descessem a terra e o deixassem lá, uma vez que até asas haviam dado asas a ele mas ele não conseguia voar. O que Mundinho não saiba, era que havia enchido tanto o saco de todos que estavam empenhados na criação, que cada vez que Mundinho ia falar com os anjos, eles criavam uma luz especial para o que ele havia pedido. Assim sendo, quando ele pediu prazer, deus criou os peixes para pescar e junto os tubarões, para que mundinho provasse a sua força e valentia. Quando mundinho pediu que pudesse ter mais pessoas junto a ele, Deus fez a mulher e junto com a mulher, a sogra, o cachorro e o tigre dentes de sabre.

Mundinho percebeu então, que era melhor ficar calado. Aos poucos, foi sumindo pelo meio da criação e viu o mundo ser povoado. Por séculos, desapareceu. Os Anjos, preocupados com o sumiço de Mundinho, que literalmente havia caído no mundo, só sabiam o que estava acontecendo aqui embaixo, através de relatos de alguns que subiam e narravam os fatos. Com sua noção de criação, Mundinho criara os Estados, para que os homens se organizassem. As armas, para que se defendessem e a medicina ilegal, para que todos pudessem exercer seu livre-arbítrio. Mundinho também foi o precursor da criação da bebida e das drogas, para que o ser humano suportasse coisas que não esperava ter que suportar. Mundinho era cultuado no mundo como sendo um deus. E Deus não estava gostando nada daquilo.

Mais séculos se passaram e o mundo virou um inferno. Com ele por acabar e ter que iniciar um novo ciclo, Deus resolveu chamar mundinho às falas. O arrebatou da terra e cara a cara com ele, perguntou:

– Mundinho, te coloquei no mundo e você para seu próprio conforto só fez destruir e não se preocupou com a preservação e continuação das outras formas de vida? Você criou organização social, que não melhora a vida de quem está no mundo, criou o dinheiro para facilitar as relações de troca, mas nem todo mundo o tem. Com pena dos animais, criou veículos de transporte e de carga que estragam o mundo e ceifam vidas. O que você tem a dizer sobre tudo isto, antes de tudo ter um fim e um novo começo?…

Mundinho então, perante as barbas do criador, respondeu de pronto:

– Eu tentei falar contigo lá no começo, mas achei melhor não dizer. Foi quando quiseram criar os temperos, e criaram a pimenta cayena, que logo depois eu achei por bem criar a política para que tudo isto fosse solucionado.

E deu no que deu.

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Sobre o Autor

André Lucidi

André Lucidi

Um cara de bem com a vida. Nada mais. Artista multimídia, que faz cinema e animação e literatura. Colaborador de Greenpeace e me considero eco-anarquista.

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