Crônicas

Uma pequena ajuda para os amigos de Joe Cocker

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Todos conhecem – se não corram e procurem conhecer! – a versão clássica do Joe Cocker para With a Litlle Help From My Friends, no Festival de Woodstock. Ele, como todos sabem, e, se não souberem devem correr e procurar saber também, para não ficar naquela monotonia de uma samba de uma nota só fez muitas outras. E boas. Nenhuma, porém, tão emocionante como aquela.

Eu não assisti ao Festival de Woodstock, mas, como num passe de mágica, consegui sentir tudo o que aconteceu naquele chocante – chocou muita gente mesmo – ano de 1966, assistindo ao documentário de Michael Wadleigh, lançado no ano de 1970, e ganhador do Oscar de melhor documentário de 1971.

Nessa época, menino buchudo, braços finos e pernas bambas, porém mais fortes que a da grana que ergue tantas coisas feias e destroem outras belas, havia deixando o meu bairro de Jaguaribe e se mudado – e como mudei – para o vizinho bairro da Torre. Foi ali que conhecendo do inglês apenas as palavras hot-dog, coca-cola e flash light fui apresentado ao fabuloso mundo Sgt Peper Lonely Hearts Club Band.

A casa de Dona Rita, mãe de Ronaldo, fã incondicional dos Meninos de Liverpool, vivia cheia de gente. E, como deixar e ser não poderia, da música dos Beatles. Os garotos, todos como eu, amavam os Beatles – muito mais – e os Rolling Stones. Tudo para eles, com exceção desse caçula, vindo dos Beatles era divino e maravilhoso. Mas, depois de ouvir Joe Cocker “estraçalhando” With a Litlle…, descobri que os Beatles não estavam sozinhos naquela casa.

Lembro que a sua mais famosa “leitura” beatleniana, trazia a guitarra mágica do Jimmy Page. Eu ouvia aquele lamento – lembrava um cão raivoso olhando para uma lua prateada – e ficava esperando o solo rasgado e comprido e sofrido de uma guitarra que seguia colada a voz cortante. A minha primeira visão/audição era de um sujeito vomitando os seus demônios. Muitos gestos. Esforços físicos. O palco parecia uma academia de ginástica.

Depois, ainda embalado, ajudado pelos amigos do bairro da Torre, fui descobrir Joe Cocker cantando outro quase clássico dos cabeludos de Liverpool. Era She Came Through the Bathroom, que, brincando, costumava dizer que ela somente saiu depois que ele esvaziou a bexiga e trocar o modess, aquele com abas, que não deixa escorrer pela virilha. Mas, por mais que me esforçasse, não conseguia ouvir o Joe Cocker que descobri com aquela “pequena ajuda dos meus amigos”.

Hoje, passados os anos, com a partida de Walter para outra cidade, essa muito longe, lá onde a vista não alcança nem avião a jato chega; Ronaldo com as capas do Sgt. Peper na cabeça e as fotografias dos quatro rapazes, agora não mais meninos, que acompanharam o famoso Álbum Branco, na parede da memória, e Flávio, esse que sem quaisquer explicações queimou a sua coleção do Pasquim e presenteou o catador de papel que passou em sua porta com as suas cuidadas revista de Tex Willer, nunca mais ouvi falar no Joe Cocker.

Hoje,  morando noutra cidade, depois da necessária troca de roupa em 2014, derrubado pelas drogas e o álcool, Joe  nunca soube que por aqui, mas especificamente no bairro da Torre,  viveu um garoto como este que amava os Beatles e os Roling Stones, e  aprendera a amar a sua inesquecível interpretação de With a Litlle Help From My Friends.

Ah, mas chega de saudade!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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