Crônicas

Uma sandália sem pé e ela sem cabeça…

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Ela contou entre um soluço e outro. Foi assim mesmo que a encontrou. Uma sandália. Apenas. O filho?! Não sabe por onde andava com um pé apenas, aquele acostumado com o outro, que vivia a costurar os becos da favela onde nasceu. Mas, agora, somente com um pé, por onde o filho andará? O rosto era somente interrogação. Se estiver ainda morando por aqui, diz sem demonstrar qualquer emoção, estará se equilibrando pela vida.

Tudo aconteceu por causa de uma briguinha de nada, uma briga besta. Tudo por uma dívida de apenas vinte ou trinta reais. Por aí. Não declarou o valor exato, porque dessa vez ele não lhe dissera. Mas sabia que não era lá essas coisas, e o pai pagaria. Sempre assim. Não trabalhava. E o pai, apesar de pobre, sempre reservava um dinheirinho para a maconhazinha dele.

Tudo estava no seu lugar, graças a Deus. Tudo tranquilo. Nunca o seu “menino” causara qualquer problema. Todos gostavam dele. Não era viciado em “droga pesada” como – cheira – cocaína, heroína ou uma “Iná” dessas que é “tiro e queda”.

O seu “menino” usava nada disso, disse com os olhos mortos de esperança. E não era por não gostar, dissera-lhe um dia, era o dinheiro que não tinha para comprar. Sabia que se fosse se “aviciar” com um produto – disse assim, “produto” – que o pai não podia pagar, morreria louco. A abstinência é uma queda no poço sem fundo.

O seu “menino” nunca conseguira um emprego. Passou um tempão procurando, mas não conseguiu. Era testemunha. E o pai também. O motivo? Relutou em contar, mas acabou confessando. Suspeitava das muitas tatuagens que faziam do jovem corpo filho, quando estava sem camisa, um outdoor ambulante de coisas feias. O fato é que não confiavam nele. Ponto final. Ou quase. Tinha essa certeza.

Os olhos fixos na sandália do filho, a única, agora sem o seu “para de nascença”, falava como se ela, a solitária sandália, pudesse lhe ouvir. Ora, quem confiaria numa pessoa com tatuagem dos pés a cabeça e os dedos queimados com o quê ninguém sabia?

Tinha notado que nos últimos dias as ponta dos dedos do filho, esses que tremiam tanto que quase não lhe permitiam segurar o seu cigarrinho, pareciam pontas de charuto apagadas. Feios. Mas nunca lhe perguntara como as queimou. No fundo, lá no fundo, embora tudo fizesse para que os olhos não a denunciassem, sabia de que se tratava. Sabia.

E as tatuagens? Perguntei assim como quem não queria, mas querendo perguntar. Só coisa feia. Descreveu-as. Tinha uma caveira de olhos de fogo entre duas espadas; a outra, uma caveira também, estava tatuada em cima do cabo de uma espingarda calibre doze. Doze?! Tinha uma em casa, pendurada na parede. Sabia. Agora, olhando aquela sandália sem pé, não tinha cabeça para imaginar por onde, com um pé apenas, caminhava o seu filho. Uma sandália. Foi tudo o que restou do filho que o “mundo” engoliu.

Fiquei a olhar a sandália vazia do pé do seu filho. Seria mesmo dele aquela sandália? Nenhuma dúvida. Nenhum outro pé, disse como se não falasse para mim, a calçaria melhor que o pé dele. Tinha mais, nesse momento os olhos estavam fixos na sandália que não mais lhe serviria, ela era a outra do único par que o filho possuía. Nada mais perguntei, porque não foi preciso. A sandália dizia tudo o que ele não queria dizer. Tudo o que não lhe perguntei.

Em tempo: o fato é real, aconteceu num bairro vizinho ao meu, Jaguaribe, onde quase todo dia aparece uma sandália solitária pedindo um pé para passear.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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