Crônicas

Universo Meu

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Herdei de um amigo, falecido há muito, mas com quem mantenho dentro da minha cabeça um monólogo que insisto em chamar de diálogo, a ideia de universo psicológico.

Pense em conhecidos ou parentes que você raramente encontra, de gostar deles. Às vezes passam-se meses, até anos, sem qualquer comunicação. Se alguma coisa lhes acontece isso afeta você diretamente, embora na prática sua vida continue a mesma, sem sofrer nenhuma mudança brusca ou importante. Essas pessoas fazem parte do seu universo psicológico: saber que estão bem é reconfortante, saber que estão mal é entristecedor.

O universo psicológico de cada um costuma incluir também figuras públicas ou virtuais com as quais nos identificamos. Ainda que nunca as tenhamos conhecido pessoalmente, quando elas desaparecem o vazio é inevitável.

Imagine um amigo próximo que resolve fazer uma viagem longa. Se ele permanecesse no local de costume é provável que vocês nem se falassem durante o período que essa ausência vai durar. Saber que, mesmo temporariamente, não existe a possibilidade de um encontro, se reflete no seu universo psicológico: você se sente mais só.

Os indivíduos de carne e osso que fazem parte do nosso universo psicológico são em sua maioria pessoas das quais gostamos, porque as outras a gente tenta ao máximo eliminar da nossa vida. Para essas costumamos usar a teoria dosnúmeros psicológicos

Funciona assim: alguém que você adora vai à sua casa e fica das três às quatro da tarde. Quando anuncia que precisa ir embora, você se admira: “Mas, já? Não passou quase tempo nenhum comigo!”.

Agora, repita a mesma situação com alguém que você detesta ou acha chato ou burro. Provavelmente até tentou impedir a visita, não conseguiu e teve que recebê-la. Tão logo a criatura sai, a queixa é inevitável: “Ufa, até que enfim! Passou a tarde inteirinha aqui, achei que nunca mais ia se levantar do sofá!”.

Não tem lógica, mas é desse jeito: quando se trata de relacionamento humano a verdade afetiva fala mais alto. Para a maioria de nós o universo psicológico e outras invenções de nossa mente são muito mais poderosos que a realidade. Se é que esse negócio de verdade e realidade existe mesmo do modo que imaginamos.

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: