Crônicas

Vaselinas semânticas

Marcio Paschoal
Escrito por Marcio Paschoal

Há várias maneiras de se dizer a mesma coisa tantas vezes dita. Com um pouco de K-Y e jeito, já se dizia, vai-se ao âmago do sujeito. Esqueça o cu e insista no âmago que é mais nobre e menos ofensivo. Em Portugal o cu soa menos grave que bunda. Enfim, você escolhe, dependendo da situação ou da geografia.

O fato é que cada vez mais nos vemos obrigados a uma certa douração de pílula no nosso dia-a-dia de selvas de pedras perdidas.

Por exemplo, no escritório quando você ouvir o calmo “não vejo razão para maiores preocupações”, entenda como “estou defecando e andando com o que vai acontecer”. Ou no compenetrado “não tenho certeza se vai ser possível”, a verdade como “nem fodendo!”.

Tente controlar esse seu lado perverso e preconceituoso quando se dirigir a sua colega de trabalho “querida, finalmente reconheceram sua competência”, pensando, no seu mais íntimo e cafajeste, que ela deu para o chefe.

A verdade é que canalhas sempre se deram muito bem com eufemismos e metáforas. Podem-se dizer atrocidades, se houver delicadeza e certa ironia no bom uso das palavras.

Tudo também dependerá da ótica. Estamos indo para o brejo deve ser visto com júbilo para os sapos e alguns lírios. Como lembraria um certo poeta da MPB: cantar nunca foi só de alegria, com tempo ruim muita gente também dá bom dia. Ou para se ficar só nos sapos, “nunca antes nesse país…”.

Cuide para não confundir o estilo eufêmico com a odiosa onda do politicamente correto. Figuras de retórica idiotas transformam as putas em mulheres de vida fácil; domésticas são promovidas a secretárias; anões viram pessoas de mínima estatura, cegos, deficientes visuais, e mendigos, cidadãos em situação de rua.

Preto nem pensar; o indicado é afro-brasileiro. Imaginemos que a coisa esteja ficando afro-brasileira para o nosso lado.

Voltemos às figuras de estilo empregadas para suavizar uma expressão. A morte aqui é a grande campeã. É um tal de: “ir para a terra dos pés juntos”, “entregar a alma a Deus”, “abotoar o paletó” e “passar dessa para a outra”. Entende-se aqui a tentativa de amenizar, mas morte é morte, e fim.

Faltar com a verdade é mais brando que mentir; roubar não se compara a subtrair os bens de uma pessoa, assim como “infelizmente não posso te ajudar” é mais elegante que “se vira”.

Já alguns eufemismos clássicos devem ser evitados a todo custo. Desconfie sempre quando uma mulher achar você simpático. Feio à beça pode, estranho, sujo, irresponsável, calhorda, tudo, menos simpático.

Outro acinte é ouvir que o que você fez é interessante. Melhor “uma boa merda” que interessante, com certeza. E se, após um tempo, qualquer mulher desejável classificar você de “meu irmãozinho”, corte os pulsos.

Melhor terminar por aqui, antes que alguém se aborreça e ainda me mande tomar …, ou melhor dizendo, ser o agente passivo em uma relação homossexual sem K-Y e jeito.

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Sobre o Autor

Marcio Paschoal

Marcio Paschoal

Escritor, economista (nem ele mesmo sabe por quê), letrista (com Ruy Maurity), crítico e pesquisador musical (autor da biografia João do Vale), é carioca, escreve em sites, jornais e publicou romances, contos, crônicas e ensaios.

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