Crônicas

Velhice

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Quanto mais a minha hora se aproxima, mais tenho consciência da finitude humana. E temo. Só não sei se temo a morte em si ou apenas o sofrimento que o processo de morrer pode acarretar. Também não desprezo a hipótese de que esse medo seja unicamente uma manifestação do instinto de sobrevivência.

Por outro lado, a perspectiva da finitude também traz uma sensação de alívio. A repetição torna a vida difícil ao longo dos anos. Dia após dia a mesma coisa. E a constatação de que, aos poucos, se esvaem as ilusões e as perspectivas de grandes realizações ou descobertas gratificantes. Os gregos antigos, a quem a nossa civilização tanto deve, tinham o mito de Sísifo, condenado pelos deuses a rolar uma pedra montanha acima, a qual despencava montanha abaixo tão logo atingia o cume. A punição era repetir ad aeternum a tarefa. A punição estava no ad aeternum.

Claro que os jovens não entendem, nisso consiste a juventude. E por pensarem assim serão os autores das grandes realizações e descobertas idem. Óbvio que o fato deles não estarem tão vulneráveis às dores nas juntas e à vista cansada também ajuda bastante.

Apesar das desvantagens físicas, e das perdas afetivas, somos mais livres na velhice. É uma vantagem e tanto. Mas é preciso lutar para não perder a curiosidade e a alegria, porque quem perde a curiosidade e a alegria está morrendo antes da hora. É fundamental rir, conviver, sair de casa, atualizar-se, participar da vida.

A velhice não é coisa que acontece de um dia para o outro, a gente acorda de manhã e, voilà!, está velho. Ela é traiçoeira e insidiosa, instala-se devagarinho, sem pedir licença. Começam a nos chamar de senhores, algumas músicas da nossa adolescência são consideradas dos “anos dourados” ou lance parecido, descobrimos que vivenciamos fatos que já viraram matéria escolar. Outro dia alguém mencionou Tancredo Neves numa roda de amigos. Houve quem não entendesse, mas logo se lembrou de ter estudado o assunto no colégio. Para mim era uma observação normal, para ele era História. Não posso culpá-lo: também sinto dificuldade em lembrar-me dos presidentes anteriores a Getúlio Vargas. Mudam os fatos e os nomes, mas tudo se repete. Os jovens de hoje serão os velhos de amanhã, só ainda não perceberam.

Não interpretem meus comentários como um desejo de volta à juventude, muito pelo contrário: dela só me interessaria atualmente o vigor físico. Existe um conto de Machado de Assis chamado “A segunda vida” onde, através de um homem tido por louco, ele explora o tema de como a vida seria terrível se pudéssemos renascer num novo corpo, mas conservando tudo que aprendemos ao longo da vida anterior. Em se tratando de Machado, nem preciso dizer que recomendo a leitura, embora o conto seja apenas uma brincadeira séria do autor.

Eis-me assim dividida entre considerar a juventude eterna uma dádiva ou uma condenação. Mas, leitor, para que serve toda esta conversa? Só se for para provar mais uma vez que nós, pobres humanos, estamos sempre nos debatendo inutilmente. Esqueça. Melhor deixar a vida nos levar, como na canção.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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