Crônicas

Verdadeiro ou falso?

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Há relatos na internet semelhantes ao que vou descrever. Leiam primeiro, julguem depois.

A senhora, já de certa idade, foi abordada na rua por um homem de aspecto humilde. Ele parecia pouco à vontade, e trazia na mão um papel onde se lia um endereço na rua Palmeira. Entregou o papel à senhora, perguntando-lhe se sabia onde era aquela rua.

Ela respondeu que conhecia a rua das Palmeiras, num bairro próximo, e que provavelmente seria essa. O homem explicou que já tinha estado lá e, apesar do nome quase igual, não existia o número que ele buscava. Viera até ali por indicação de um rapaz, que achava que a rua Palmeira ficava naqueles arredores.

A senhora fez menção de devolver-lhe o papel, mas o homem pediu-lhe que lesse nas costas o nome que estava anotado. Talvez ela soubesse de alguém com o mesmo nome, ou um sobrenome parecido. Não sabia.

Aparentando desespero, ele disse que vinha de longe, não conhecia ninguém no Rio, não dispunha de recursos, e precisava ir para o local do endereço, porque era seu único contato na cidade.

Nesse ponto da conversa, uma mulher que ia passando, vendo a senhora tentando desvencilhar-se do homem, aproximou-se e perguntou se ela precisava de auxílio. Ele repetiu a história, a mulher concordou que provavelmente tratava-se mesmo da rua das Palmeiras, talvez faltasse algum algarismo, ou o número estivesse trocado. O melhor seria voltar lá e pesquisar na vizinhança se alguém conhecia a pessoa que ele buscava. A rua das Palmeiras era relativamente perto e ela, que estava de carro e ia naquela direção, ofereceu-se para levá-lo. O homem aceitou, esperançoso.

A mulher chamou de lado a senhora e pediu-lhe que a acompanhasse na empreitada. Afinal, tratava-se de um forasteiro desconhecido, havia se precipitado em oferecer a carona, e, pensando bem, estava com medo de ir sozinha. Perguntou à senhora onde ela morava, era quase na esquina, prometeu que a traria de volta em menos de meia hora. A senhora achou razoável e concordou.

Também achou razoável quando a mulher sugeriu, já que se encontrava tão perto de casa, que a senhora apanhasse algo para dar ao homem, que obviamente precisaria de ajuda se não encontrasse quem tão ansiosamente procurava.

Enquanto os dois a aguardavam na calçada, a senhora foi até seu apartamento, reuniu algumas coisas e voltou. Quando entraram no carro, entregou tudo ao homem, que lhe pediu também algum dinheiro. Para isso a senhora disse que precisaria passar na sua agência do banco, que, por coincidência, ficava no caminho. A mulher parou na porta da agência, a senhora saltou, e eles permaneceram dentro do veículo, esperando que ela voltasse com o dinheiro.

Agora vem a parte mais estranha. A senhora foi direto ao gerente e pediu para sacar trinta e cinco mil reais para ajudar uma pessoa em dificuldades. O gerente, obviamente, estranhou o pedido, e achou que ela tinha surtado. Reteve-a no banco, com a desculpa de que uma quantia dessas dependeria de uma entrega especial de carro forte, o que levaria cerca de duas horas. Instalou-a numa poltrona, serviu-lhe água, café, outra água, outro café.

Passada uma hora e meia, o gerente, que nada providenciara, indagou-lhe como queria o dinheiro. Ela admirou-se, como se tivesse acordado de um sonho. Acordara mesmo. Tinha sido vítima de um golpe.

O homem e a mulher eram cúmplices e, claro, quando a senhora saiu do banco, há muito haviam debandado levando apenas as coisas que ela lhes entregara antes. Do que se tratava? Simplesmente de todas as joias que ela possuía. Não lhe restou nada, nem uma joia de família, nem uma única lembrança de sua mãe.

Talvez a senhora seja facilmente sugestionável, mas ela está convencida de que o papel com o endereço da “rua Palmeira” continha um produto químico que, dizem, faz com que a vítima obedeça ordens cegamente. Lembra-se claramente do homem ter esfregado o papel em sua mão. Lembra-se que tentou devolvê-lo várias vezes, mas o homem não o pegava de volta, insistindo para que ela lesse tudo novamente. Lembra-se de ter entrado em casa, pedido para ninguém falar com ela, e pegar as joias, incluindo as peças de valor estimativo.

Difícil acreditar, já que a internet está cheia de pegadinhas desse tipo. Mas, inverossímil ou não, porque essa senhora, sem nenhum tipo de violência explícita, entregou aos larápios tudo que arrebanhou em seu apartamento? Só não entregou o dinheiro do banco porque o gerente interviu.

Isto é um fato. Eu conheço essa senhora. O assunto escapou-lhe por acaso numa pequena roda de conversa. Ela quis interromper a narrativa, mas não conseguiu porque as pessoas começaram a fazer-lhe muitas perguntas. Queriam fazer-lhe muitas mais, porém quando os olhos da senhora encheram-se de lágrimas, o tema foi dado por encerrado.

Surpreendentemente, outra senhora acrescentou que uma amiga viveu algo parecido, envolvendo a mesma “rua Palmeira”! Esta não chegou a ter prejuízo, mas foi igualmente ao banco fazer um saque elevado. O gerente, com quem ela conversara sobre suas finanças na semana anterior, desconfiou, e salvou-a do golpe. Comecei a ficar fã de gerentes espertos.

Parece mentira, mas é verdade. Meninos, eu vi, ou melhor, ouvi. E confio em quem contou. Achei oportuno divulgar.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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