Crônicas

#ViajoSozinha

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Sou mulher, tenho 27 anos e, como toda boa sagitariana, uma das minhas grandes paixões é viajar. Viajar, para mim, tem uma conotação muito além de um passeio. É descoberta, transformação, conhecimento interior. Uma viagem pode trazer à claridade ideias que não fazíamos de nós mesmos. Colocar o pé na estrada, sair do conforto, se aventurar ao novo; viajar é tudo de bom.

Sou a primogênita dos meus pais, tendo uma irmã mais nova. Também sou a neta mais velha por parte de pai. Pela família da minha mãe, são outros quinhentos (tenho que parar para fazer as contas, tamanho é o número de primos). Aos dezoito anos sai de casa para estudar na Federal da capital, tendo alcançado um dos primeiros lugares na classificação do Curso de Arquitetura e Urbanismo. Ganhei bolsa para estudar duas vezes na Italia e voltei a pisar em solo europeu para receber meu primeiro prêmio internacional. Me esforcei a vida toda para atingir meus objetivos. Sempre tive responsabilidades que me fizeram – e fazem – crescer e ser independente.

Depois desse breve resumo, há de se presumir quão natural é a minha iniciativa de viajar sozinha. E é aqui que a crônica deste domingo se inicia.

***

Segunda-feira, 29 de fevereiro. Um dia atípico, que ocorre somente a cada quatro anos. As argentinas Marina e Maria José, 21 e 22 anos, desbravavam Montañita, uma das praias mais conhecidas do Equador, com suas mochilas. Estavam de passagem, a caminho do Peru. O local, famoso pelas suas ondas e festas, atrai muitos turistas. Férias, paisagens deslumbrantes, amigas vivendo uma experiência única. Entretanto… são “mulheres”… estão “sozinhas”… são “vítimas facilitadoras”, por terem “mexido com fogo”. Eis que, pelo único motivo de serem mulheres, em um número reduzido, uma viagem em dupla pela América Latina acaba em assassinato. As argentinas transformam-se em estimativa demográfica, alvo de muitas contestações. Então para viajar é preciso não estar sozinha? Mas se um homem está sozinho, o peso é diferente. Temos sempre que ter um homem por perto? Somos uma civilização ocidental ou oriental?

É preciso ter muita coragem para viajar sozinha. Mas isso não quer dizer que uma mulher viajante é uma vítima, nem tão pouco que esteja “dando sopa por aí”. Caso particular: estava eu em Budapeste e amigos me disseram para não deixar de ir a pelo menos uma Terma. Eu fui. Lá dentro, fui seguida por um homem que não falava inglês e teimava em puxar assunto na sua língua madre. Por mais que eu cortasse e me distanciasse, ele se avizinhava. Eu tive medo, aproveitei muito pouco das águas termais e fui embora quase em pânico. Mas isso não tirou de mim a convicção de que eu tenho o mesmo direito de todo mundo: ser livre. Fazendo um link com um texto sobre o assunto que eu curti e compartilhei no Facebook, eu quero e vou existir sozinha, desacompanhada e sem que isso seja um risco. Me solidarizo com as famílias das duas jovens aventureiras e me junto a luta:

#ViajoSozinha

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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