Crônicas

Visagens e Vislumbres: Atitudes Políticas X Ações Estéticas

Tchello d'Barros
Escrito por Tchello d'Barros

Quando se fala sobre exposições de Artes Visuais no Rio de Janeiro, muito raramente comenta-se sobre mostras de Poesia Visual, muito menos se estas ocorrem fora do circuito das grandes galerias e espaços culturais oficiais mais badalados. Mas elas existem. E, pelo que se vê, não vão parar tão cedo, já que é um segmento que vem crescendo internacionalmente e se sofisticando. Exemplo é a itinerante exposição de Poesia Visual intitulada Visagens, que já foi exibida tanto na Facha quanto na UFRJ, além de uma versão em projeção em Campos dos Goytacazes.

Muito mais que uma modalidade de expressão híbrida, de aproximação, justaposição ou aglutinação entre a Literatura e as Artes Visuais, a chamada Poesia Visual tem expandido tanto seu arco temático quanto a diversidade de suportes, flertando cada vez mais com as novas tecnologias e a diversidade de linguagens contemporâneas, como Instalação, Videoarte, Infogravura, Animação, Performance, Web Art e Site Specific, entre outras. Ainda assim, observa-se como recorte curatorial para esta mostra, um diálogo com a tradição deste segmento, aludindo aos seus autores inaugurais, em trabalhos predominantemente gráficos, com ênfase em desenho, colagem, fotografia e assemblage.

O aparentemente rarefeito universo da Poesia Visual, de origens diversas e indefinidas, continua dilatando seus contornos, ao absorver novos meios e principalmente novas mensagens, ou mesmo abordagens inovadoras para temas recorrentes, como a Paz, assunto central desta exposição Visagens, termo utilizado na fala popular dos interiores do Brasil para designar aparições sobrenaturais e alguns assombros de ocasião. Numa sociedade globalizada que paga o ônus pelos diversos conflitos bélicos e desequilíbrios socioeconômicos que ainda assombram a harmonia entre os povos, para muitos a Paz ainda é uma utopia distante e uma aparição desejada, porém ainda intangível.

Sem a pretensão de eventuais engajamentos panfletários ou de questionar a função social da arte (e portanto, da poesia), os poetas visuais integrantes desta mostra fazem, mediados por suas criações, seu comentário sobre esse debate sempre tão atual e necessário, ora por um viés mais estético, ora por uma via mais política. São instigantes leituras de mundo sobre uma possível Paz como elemento agregador na contemporaneidade, sendo a própria poesia, por sua dimensão social, agente de participação sociopolítica numa comunidade internacional cada vez mais interativa e conectada.

A mostra, de viés internacional, apresenta 50 criações de autores de 16 países, sendo que a representação brasileira conta com nomes como os cariocas Fernando Gerheim, Regina Pouchain e Ricardo Alfaya. Essa diversidade de origens aponta para uma questão no mínimo curiosa, pois se o tema é o mesmo para todos, chama a atenção exatamente a pluralidade de abordagens que se percebe no conjunto das imagens.

O poeta visual catalão Joan Brossa (1919-1998), um dos principais precursores do gênero, dizia que “a poesia visual não é desenho nem pintura, mas um serviço à comunicação”. Nesse sentido, Visagens compartilha mensagens de poetas visuais de hoje com um possível público que vê na temática da Paz um assunto sempre contemporâneo e cada vez mais urgente.

 

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Sobre o Autor

Tchello d'Barros

Tchello d'Barros

Escritor e Curador de Artes Visuais. Realiza editorias independentes e curadorias em diversas instituições culturais.

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