Crônicas

Visitando o passado

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Não me considero louca (esta afirmativa, vinda da própria pessoa, não é confiável) e o assunto está no imaginário de muita gente (que também não se considera louca, é claro), mas não custa sonhar: posso encontrar um gênio da lâmpada, algum cientista descobrir como viajar no tempo, os espíritos de Natal do Dickens aparecerem de surpresa, as viagens no mundo astral se tornarem accessíveis a todo mundo.

A pergunta é: se pudesse passar um dia comigo mesma no passado, o que escolheria?

Um dia de infância, subindo em mangueiras, revendo os pais jovens (que em qualquer época da minha vida sempre me pareceram velhos), lembrando a criança que fui?

O primeiro dia de aula no ginásio, que nem se chama mais ginásio, quando conheci outra menina que se tornaria uma fiel companheira durante quatro anos? Não sei por que me recordo tão bem desse dia, aliás, não existe explicação para que algumas lembranças, às vezes banais como uma cor ou um cheiro, sejam tão vívidas, enquanto outras, quiçá mais importantes, esmaecem.

Uma noite de baile no Hotel Glória, todo mundo vestido a rigor, os rapazes avaliando as moças e vice-versa, incluindo a volta de ônibus de madrugada, porque pouca gente tinha acesso a automóvel e a cidade não inspirava o medo atual?

Um dia com um namorado que não virou marido? Escolheria um que houvesse me decepcionado, e com quem eu tivesse aprendido a não cometer certos erros, experiência sem a qual talvez eu acabasse me metendo em alguma enrascada pior. É bom reforçar as lições da vida, nunca se sabe quando, e quanto, ainda precisaremos delas.

Um dia com a minha avó, que praticamente não cheguei a conhecer? A outra faleceu antes que eu nascesse e as duas me fizeram bastante falta.

Um dia de superação, onde o ego estava no auge, ou um dia de luto que me faria apreciar melhor os dias comuns, tão bons, e às vezes tão pouco valorizados?

E se fosse ao contrário: o antigo eu visitasse o meu presente? Acho que na maioria das circunstâncias se assustaria. Não casei com o tal namorado por quem fui apaixonada, e se soubesse que gosto de comer peixe cru, e em uma eleição votei num determinado jogador de futebol, é provável que me internasse preventivamente em qualquer manicômio. Somos sempre a mesma pessoa, mas o acaso nos molda e o resultado é imprevisível. Fica difícil explicar ao eu antigo algumas atitudes do eu atual.

Certamente muitos prefeririam visitar o seu futuro, mas eu não estou interessada: não há garantia de que tudo seja maravilhoso até o fim da minha vida e tomar conhecimento das dificuldades a enfrentar estragaria completamente o meu presente. O futuro que me aguarda pode ser fascinante, porém não quero saber detalhes até chegar lá, melhor continuar vivendo na paz da ignorância.

Ah, mas se houver um jeito de visitar o futuro distante, tipo daqui a cem anos quando é certo que não vou encontrar a mim mesma, estou nessa! Mal posso esperar que me convidem! Vou adorar!

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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