Crônicas

Vitor Belfort: crônica de uma derrota anunciada

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota” – Jean-Paul Sartre

Não assisti a luta entre Vitor Belfort e Kelvin Gastelum, realizada na capital cearense, nesse último sábado. Se nunca assisti a uma luta de boxe – essa é arte, dizem – nessa minha ainda curta vida, não seria agora que iria pagar para assistir a essa violência quase gratuita. Ah, por que “quase”? Simples: eles ganham pra isso.

Assistir a uma “briga” – isso mesmo, não passa disso – entre duas espécies de “homo” que bem poderiam ser mais “sapiens” é se confessar discípulo de Donatien Alphonse François de Sade. Sádico. Não sou. Mas, pelo pouco que vi, via TV, se confirmou o que desde o início estava previsto: a idade pesou.

Victor, porém, aos 39 anos nega que não foi “apenas” isso.  Mas que seu adversário na flor da idade dos vinte e cinco anos, apenas, era realmente melhor. Victor tem um metro e oitenta e três. O seu adversário, Kelvin Gastelum, um metro e setenta e cinco. A altura não fugiu a regra: não foi documento.

Mesmo antes de a luta começar, repito, sabia que o corpo de Victor não aguentaria.  E a sua cabeça, mesmo pensante, embora pouco, não pensaria o suficiente para fazer com que o corpo velho e cansado se esquecesse de que assim estava.

No primeiro soco do adversário, senti que dessa vez a experiência perderia para a juventude.  Um soco = uma queda. Dois socos – duas quedas. Era o fim da luta. Não aguentaria uma terceira queda. Não houve. Mas era o contrato. A sorte fora lançada antes mesmo de a luta começar.

Apesar de mais músculos que cérebro, fato comum entre os lutadores dessa coisa chamada de MMA, sigla essa por aqui muito pouco conhecida, o “velho” Victor parecia ter esquecido o colega derrotado por duas vezes consecutivas, nessa mesma espécie de “briga”.  Se na primeira quase perdia a perna, na segunda perdeu para a droga. Era um “Aranha” enrolado na própria teia.

O tempo é um adversário que não e fácil ser derrotado. Melhor: nunca vai à lona, seja dia ou noite. Por isso mesmo, apesar do avanço da ciência, o tempo nunca é derrotado. Nunca estar parado. Ninguém consegue pará-lo.

Senti pena. Confesso. Esse foi o sentimento que me pegou logo depois da primeira queda do “velho” lutador. Pena. Era o fim. A despedida. Victor pediu para encerrar a sua – dele – carreira no Rio de Janeiro, sua terra natal.

E pediu mais: desculpas pela derrota ainda no primeiro round, aos 3m52s. Foi desculpado pelos presentes. Acho. Se presente estivesse, desculpado ele seria. Victor não teve culpa. A idade, porém, mesmo dizendo que a culpa não foi “apenas” dela, foi decisiva para a sua – dele – derrota. A idade pesou. Pesa. Sempre.

Sei que Victor nunca ouviu falar em Charles Péguy. Nem ele nem muitos lutadores dessa coisa e não lutadores de coisa alguma. Mas aos quase 40 anos pegaria muito bem se alguém lesse para ele o que escrevera um dia esse pensador: “Os 40 anos são uma idade terrível. É a idade em que nos tornamos naquilo que somos”.

Em síntese: Victor desconhece que não é aquilo que pensa, mas o que realmente é. Um velho lutador que há muito deveria estar aposentado. Uma pena. Confesso que senti.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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