Crônicas

Você Já Veio à Tambaba? Então Não Venha!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Por Humberto de Almeida*

Você já veio à Tambaba, a primeira – segundo os entendidos – praia nordestina liberada oficialmente para o nudismo? Se ainda não foi e resolver vir, prepare-se: tudo ali custa os olhos da cara e, mesmo assim, todos são obrigados a pagar a vista!  E se o sujeito não tiver cuidado perde até a roupa do corpo. Eu fui e, logo na entrada daquela área onde a nudez é proibida e a roupa obrigatória – ó contra-senso! -, tive que desembolsar um dinheirinho (?) para uma tal de Sonata, sociedade lá dos homens e mulheres nuas, que nunca vi tão gorda. E nua.  

A placa de contramão (acho contramão o cerceamento da liberdade do sujeito, nu ou vestido, adentrar, como diria um técnico de futebol, uma área pública) está logo na entrada: carros,  R$ 3 reais; moto,  R$ 2. Se não decorei o resto, por exemplo, o preço da entrada de um caminhão ou ônibus, foi porque os preços das motos e carros já foram suficientes para me sentir explorado. Ora, o que Tambaba tem que as outras não têm?  Se for para ver mulher nua, prefiro a Vera Fischer, mesmo caindo aos pedaços, posando para Playboy e mostrando a sua “mata atlântica”. Em Tambaba, não se engane, não, é baranga aos montes!

Mesmo sem a intenção de denunciar, vou contar. Vi várias motos entrando de mato adentro, cortando atalhos e caminhos,  e desaguando bem na beirinha da área de nudismo. Um motoqueiro, para ter acesso a uma praia que é sua, pagar quase o preço de um litro de gasolina que lhe dá autonomia, dependendo da moto, pra mais de 40 quilômetros de estrada?! Tão brincado! Pois fizeram bem. Se o caminho permitisse, também teria feito o mesmo com o meu corsa sedan, som ambiente, onde passeio da bossa-nova ao tropicalismo, esse velhinho, que, por mais que tentem negar, morreu há muito e ninguém, até agora, reclamou corpo. Conto mais.

Os porteiros da Praia de Tambaba – praia com porteiros é o cúmulo da falta de respeito aquele direito do qual falei no segundo parágrafo!  -, todos bem vestidos para uma praia de nudismo, pois, se presidente eu fosse dessa tal Sonata, determinaria que no máximo vestissem uma cueca samba-canção, ao entregar-me os “ingressos para entrar na praia” – fui com a Morena – e notando o meu mal-estar em ter que pagar para tomar um simples banho de mar a quantia de R$ 3, foram sinceros e solidários: “Nós também achamos uma exploração!”. E concluíram, em seguida, com o famoso “Fazer o quê, se eles são os donos da praia?”.

Não disse aos porteiros (não agüento!) da Praia de Tambaba que estavam equivocados, porque, com certeza, se conhecessem a situação da Praia da Penha – outra histórica e bela praia nossa – que não é de nudismo, mas em virtude do baixo poder aquisitivo da maior parte de seus  freqüentadores pode ser considerada  “quase”,   até que eles teriam panos para as mangas.   Assistindo aquela vergonhosa privatização – por aqui têm dessas coisas: privatização de praias! – de uma área à beira-mar, quase do tamanho de um campo de futebol, com certeza sorririam das nossas caras.  E mais: eles estavam sendo pagos para isso, explorar aqueles incautos vestidos e sem intenção de mostrar os seus documentos em praia pública, mesmo estando a dita cuja privatizada.  E olhem que não tenho nada contra quem acha uma boa mostrar a sua  – dele – bunda e adereços cabeludos ou pelados.

Mas fui à Tambaba, voltei vestido, e com os meus documentos naturais. Não os expus. Confesso até que ainda pensei. Mas depois que vi o desfile de um “índio” com a cara mais sacana do mundo vestido com um minúsculo tapa-sexo feito de rede de pescar (ou coisa parecida), um fio dental, minúsculo fio dental entrando lá na bunda dele do começo da regada à parede dos testículos, pensei mais ainda. Achei  mesmo que tudo ali era carnaval e éramos todos de uma só tribo.

Mas, com a permissão da Sonata, vou terminar deixando a minha sugestão: com o valor que está sendo cobrado – e pago! –  por um ingresso ali, o sujeito ao visitar a Praia de Tambaba, além do banho com os seus documentos expostos ao sol, deveria também ter direito a um “bacalhauzinho” molhado.

P. S: dessa vez, esqueci a poesia, a música – volto com um papo com o melódico Vital Farias – e literatura, explorado que fui e continuo, ferida aberta, lembrando da exploração, não deu para segurar. Pausa. E se eu não fosse da terra?

*Publicado originalmente me 27/09/2007.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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