Crônicas

“Você… sabia?”

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Há alguns anos a Rádio Relógio era ouvida por todos os cariocas. Durante pouco tempo, é claro, coisa de um minuto ou dois, apenas o suficiente para saber a hora oficial correta. A emissora estava diretamente conectada ao Observatório Nacional e seu único objetivo era informar o horário a cada minuto.

Os segundos eram marcados por bips. Os três últimos segundos de cada minuto tinham um som diferenciado, ligeiramente mais forte, ao final dos quais uma voz feminina recitava a hora. Esse último bip-bip-bip servia para que o ouvinte acertasse com precisão o próprio relógio. Todo o tempo, com exceção do informe das horas, era preenchido por uma voz masculina que se sobrepunha ao som dos bips.

Creio que a Rádio Relógio vivia dos anúncios publicitários que os locutores liam, minuto após minuto, vinte e quatro horas por dia. Não sei se por falta de anunciantes, ou por decisão dos dirigentes, a propaganda era entremeada por pequenas citações de enciclopédia. Tanto podia ser uma pérola sobre a vida sexual das moscas, quanto podia ser a distância entre duas cidades que dificilmente alguém conheceria. Tudo seguido pela vinheta “Você… sabia?”, entoada com ênfase na interrogação. A Rádio Relógio era kitsch e divertida. Faz parte, até hoje, da memória afetiva de muitos moradores do Rio.

Fui ao Google para saber que fim levou. Ainda existe, mas é completamente diferente. Afinal, hoje em dia, quem precisa sintonizar uma emissora de rádio para obter a hora certa, se qualquer celular fornece isso automaticamente?

Nessa pesquisa básica, encontrei, inclusive, pequenos trechos gravados da antiga programação da Rádio Relógio. A única coisa que a minha busca não encontrou foi um gaiato que conheci e que imitava essa emissora. Ele dizia coisas absurdas do tipo: “Se todos os cabos da Light no Rio de Janeiro fossem emendados, eles dariam a volta ao mundo oito vezes… e todo o Rio de Janeiro ficaria sem energia elétrica.” O cara pontuava a conversa com os bips e, ao final, acrescentava o indispensável “Você… sabia?

Era pândego, o rapaz. Não duvido nada que, se tivesse aprofundado um pouco mais a investigação, eu encontrasse o próprio ou alguém equivalente. Mas preferi driblar a frustrante sensação de que, não raro, a internet nos rouba o assunto e nos condena a escrever mais do mesmo. “Você… sabia?

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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