Novelas

NOVELA: “Leite Moço” – Capítulo 1: THE HOLLY MEN

“Talvez nunca possamos derrotar esses porcos, mas não precisamos nos juntar a eles”
Murilo Castro (um brasiguaio)

CAPÍTULO 1: THE HOLLY MEN

– Olhe, meu caro Valdir… Eu só vim para São Paulo pela necessidade pessoal que tinha de apagar o meu passado. Precisava de um período de anonimato completo. Aqui há milhões de humanos com problemas bizarros. O excesso populacional dessa cidade veio a ser um empecilho mais tarde, quando comecei a buscar algum conforto, privacidade e qualidade de vida. Mas no começo esse pandemônio foi de grande utilidade. Eu era só mais um forasteiro por aqui e o modo como era ignorado por todos me deu certa liberdade para que me ajeitasse de maneira conveniente. Os envolvimentos pessoais seriam inevitáveis e eu sabia que isso me custaria caro. O fato é que aqui não se tem escolha. – foi o que disse Murilo Castro para Valdir da Chave enquanto fumavam um cigarro ao lado da porta da garagem do prédio onde Valdir trabalhava como porteiro na Rua 7 de Abril, no centro de São Paulo. Havia chovido forte pouco antes e a rua estava molhada e imunda, o que acentuava a desolação do cenário. O calor era excessivo e o forte cheiro de urina se misturava ao da fritura que saía da cozinha de um bar próximo.

(Observações: Valdir era um colecionador compulsivo de discos, livros, revistas e gibis e por algum tempo foi o mentor intelectual de Castro. valdir poderia tranquilamente ocupar algum cargo administrativo em alguma corporação, mas gostava de ser porteiro noturno, pois esse era um trabalho que lhe proporcionava momentos inspiradores para apreciar sua estimada solidão e a possibilidade de conhecer de perto novos personagens para as histórias que escrevia para alimentar seus vários projetos literários. Foi o idealizador e editor da revista FREAK POWER GENERATION, um pasquim contracultural de publicação irregular, geralmente quinzenal e politicamente incorreta até o tutano. Valdir publicava críticas musicais, literárias e cinematográficas. Excêntrico e ranzinza, também publicava contos de sua autoria, nos quais colocava os nomes reais de pessoas que conhecia, misturando fatos reais com a sua imaginação fértil e suja. Castro teve acesso a alguns velhos e raros exemplares cedidos por Valdir, e convencionou chamá-los de ‘sagradas escrituras’. Mais tarde surgiu uma nova publicação idealizada por Valdir, o TABLÓIDE BRASIGUAIO, que existe até hoje e também tem publicação irregular. Esse pasquim alternativo é a razão pela qual Castro – um brasiguaio esgotado emcionalmente pela vida na cidade grande – procurou estabelecer contato com Valdir, quando se deparou ao acaso com um exemplar antigo que tinha um telefone de contato que já não existia mais. O contato entre os dois acabou sendo estabelecido quando o dono de um sebo do centro de São Paulo, amigo de ambos, os apresentou tempos depois. Valdir havia sido sócio desse sebo durante um certo tempo, e Castro o frequentava desde que mudou para São Paulo. Numa ocasião em que mencionou o fanzine para o então dono do sebo, este os apresentou.

Entre 1982 e 1984 Valdir teve uma banda de rock chamada Banco de Sêmem, que unia psicodelia garageira dos anos 60 com lendas indígenas. Criavam seus próprios instrumentos. Chegaram a lançar um compacto em 83. Aliás, este foi o último ano em que se lançou compactos no mercado fonográfico brasileiro. A partir de então tivemos que aguentar o lançamento de muitos álbuns com dez ou doze músicas onde apenas duas delas prestavam. Em 1987 escreveu um livro chamandp BASEADO NELES, amplamente ignorado pelo mercado editorial. Isso não o magoou, porque àquela altura Valdir já sabia que os ídolos de verdade se tornariam cada vez mais escassos. Os famosos causariam cada vez mais embaraços e constrangimentos à espécie humana, porque a fama não tinha nada a ver com mérito. Tornar-se famoso parecia infame para ele. Ídolos de verdade, aqueles que uniam talento, inteligência e arrogância sincera faziam falta em todos os ramos de atividade humana, não apenas nas artes. Além do mais, o conteúdo do livro era atemporal. Um dia seria descoberto ao acaso e nesse dia o livro estaria mais atual do que na época em que foi escrito.

Foi Valdir da Chave quem atirou um pirulito no olho do David Bowie num show na Noruega em 2004. Essa conjunção não tão comum de ações em sua trajetória, unida a uma personalidade mal humorada fascinava o até então matuto e primitivo Castro. Valdir era um homem baixo, barrigudo, com um cabelo preto grosso e crespo, grisalho nas têmporas, com uma perene expressão ressentida. À primeira vista você não diria que ele era fã de rock alternativo, mas voltemos à conversa de ambos naquela noite…)

_ Eu entendo o sentido da sua busca. ‘Mudar a vizinhança para renovar a esperança’, já dizia o velho Gastoni. Realmente se faz necessário mudar de ares vez ou outra. Não há noite em que eu não sonhe com mílícias anarquistas devastando São Paulo, desossando a estrutura social como a conhecemos, e começando pelo centro da cidade, causando histeria em massa numa terça pela manhã. Para esse acontecimento, uma terça seria melhor que uma segunda, porque o povo já teria retomado o ritmo da semana, estaria mais conformado, mais anestesiado, e então o baque seria mais brutal. Se isso acontecesse numa segunda, muita gente se sentiria feliz com o distúrbio, ou pensaria estar sonhando.- disse Valdir.

_ Então por que diabo de razão você ainda mora em São Paulo? – perguntou Castro.

_ Tem a ver com o que você disse antes. Não há muita escolha. Sou como um viciado. Do ponto de vista da qualidade de vida seria viável mudar pro meio do mato, onde viveria mais momentos de tranquilidade. Não optei pela solidão rural porque isso é uma meta para quem ainda tem ego. O ódio que desenvolvi da espécie humana me mantém perto da massa, por mais que isso soe contraditório. Isso acontece porque meu ego praticamente já não existe e gosto de ver o caminho que as coisas estão tomando, principalmente nas cidades grandes. É como se eu não tivesse o que convencionamos chamar de vida. As outras pessoas também não tem uma vida, e a desvantagem delas é pensar o contrário. A felicidade do niilista existe, meu amigo. Ela apenas custa mais caro e vem em doses homeopáticas. Ela existe sim, mas é quase clandestina. A felicidade do niilista é imoral, e imoral é tudo o que vale a pena. – disse Valdir.

_ Valdir, o macabro é muito engraçado no palco e nas telas, mas é duro de ser vivido… – disse Castro.

_Eu já nasci póstumo. Jamais aceitaria ser um escravo feliz. Ao invés disso tentei me tornar um homem livre. Mas depois de adulto comecei a ver conspiração em tudo o que me cercava. Leis elaboradas por banqueiros e não por legislativos. O grande rebanho humano deslocando-se passivamente para o abate. Há pânico criado cientificamente. Descobri que sou um embuste porque a inteligência, na minha opinião, tem a ver com a adaptação individual a esse pandemônio que é isso que chamam de sociedade. Cheguei a cogitar uma mudança para o Nordeste para descobrir músicos locais e montar um selo e ganhar uma grana depois vendendo tudo para o David Byrne, mas ainda não levei o projeto adiante.- disse Valdir.

_ Isso não me parece certo, Valdir… David Byrne, Sting, Paul Simon… Como você faria pra lidar com essa gente da World Music? – perguntou Castro.

_ O que não é certo pode ser necessário! Até mesmo para viver fora da lei é preciso ser honesto. Aliás, eu diria que principalmente os fora da lei precisam ser honestos. Quantas vezes por dia você vê alguém fazer alguma coisa certa? Quantas vezes na vida você viu alguém agir com classe? Quase tudo o que vejo as pessoas fazerem ou falarem me causa um constrangimento muito grande, em nome de toda a humanidade.Só conheço dois tipos de pessoas: as que são capazes de tudo e as que não são capazes de nada. A maioria delas, no entanto, são verdadeiras mutações aberrantes. Então, ao invés de focar meus esforços liderando uma campanha ateísta ou com qualquer outro direcionamento, prefiro ver o povo se afogar em culpa cristã e no medo que resulta dela. É a maneira mais íntegra que encontrei de tentar fazer oposição ao contexto. Uma vingança passiva, por assim dizer. O que tenho em mente agora é fazer cinema sujo de velho pervertido. – disse Valdir.

_ Valdir, você é um sujeito rude e inflexível, um pensador cético… Isso é tudo o que se precisa para se converter num nobre, ainda tardiamente, para os padrões burgueses… – disse Castro.

_ Eu já disse que nasci póstumo, e nasci na grande camada indigente da sociedade, igual a qualquer humano que tenhamos conhecido ou que venhamos a conhecer… Você vai lembrar de mim quando estiver naquelas festas promovidas por gente engajada e faltar cerveja. – disse Valdir.

_ Detesto gente engajada, não frequento as festas dessa gente, são verdadeiras ciladas. A militância mala é algo que eu repudio com toda a veemência da minha força interior. Essa desgraça tinha tudo pra ter morrido há tempos. – disse Castro.

_ Mas logo você estará em alguma dessas festas, por mais torpe que seja a razão da sua presença, e vai faltar cerveja e você vai detestar ainda mais as pessoas engajadas! Assim que um hippie anunciar que a cerveja acabou, outro hippie vai pegar o violão e vai cantar uma do Geraldo Vandré e aquela maldita rodinha de violão vai ser formada. Os golpes virão ao mesmo tempo, e serão golpes duros, pode apostar. São perdedores. É gente azarada. Você pode ser um otimista que pensa que o contato com um sujeito de sorte pode inverter momentaneamente a sina negativa do azarado, mas o fato é que o azar contagia mais que a sorte. Muito mais! – disse Valdir.

_ O que realmente me chateia é a burrice dos engajados, que se recusam a entender que não há nada pelo que lutar hoje em dia… Tudo é forjado por algumas poucas pessoas, as que realmente dão as cartas e que se escondem atrás desses fantoches bizarros, como são os presidentes das nações ditas soberanas.. Prefiro pensar no que realmente me diz respeito, no que faz parte da minha verdade triste. Não sei… De uma certa forma me sinto protegido disso porque tenho uma tendência a me sentir mal nas manhãs de São Paulo e isso faz com que minha cabeça fique ocupada com a inevitabilidade dos pesadelos cotidianos. Não é simplesmente tédio. Sonho frequentemente com grandes explosões e outras coisas relacionadas às destruição em massa e quando acordo sinto uma depressão terrível pelo fato de ter sido tudo somente sonho. Tento debilmente voltar ao sonho e em seguida me vem a vontade matinal de chorar de agonia por mais um amanhecer. Todas as pessoas que eu vejo nas manhãs dos dias de semana me parecem destroçadas pela vida, derrotadas, desesperadas, mas ainda assim incapazes de se rebelar. São apenas zumbis movidos por uma última fagulha de orgulho, ou seja lá do que for. Divertem-se com entretenimentos de massa, baratos. Conseguem acordar cedo todos os dias, em manhãs em que tudo parece amarrado, moroso e difícil. Mobilizam-se pra mover um mundo cujos objetivos eu jamais compartilhei e jamais me identifiquei. Tento fazer com que nessas horas meu contato com as pessoas fique o mais limitado possível. À medida que vamos carpinando as ervas daninhas do nosso caminho, vemos que não sobra nada. É triste, mas ao menos que se tenha dinheiro e nada sério ou urgente ou perigoso pra se fazer, as manhãs são uma parte tenebrosa do dia nessa cidade… Muitas vezes eu acordo sobressaltado de pavor. Manhãs existem pra ser agradáveis, como o são em lugares bucólicos. Aqui tudo parece não apenas triste, mas desumano mesmo… Os tormentos matutinos estão fervendo nas repartições públicas, nos apartamentos em faxina… Sendo assim, eu penso que dependendo das circunstâncias incertas e instáveis, e até mesmo numa festa de gente engajada eu ainda teria alguma saída… Analisando mais friamente, a vida anda desgraçada pra imensa maioria das pessoas. Pouquíssima gente escapa desse sentimento de tristeza perene. – disse Castro.

_ Você não pode aceitar seu próprio fracasso assim tão facilmente. É preciso antes disso acreditar que a extinção da espécie humana chegará antes de sua derrota individual definitiva. Ou esperar para ser abduzido. A abdução é uma benção. Se isso não acontecer nunca, é preciso que ao menos você não se esqueça de que no fim das contas nossos reais anseios se resumem a ter bom sexo e a ter dinheiro suficiente para o resto. O meu desejo por ver esse planeta ser pulverizado, mesmo que seja comigo a bordo, se equivale ao meu desejo por sexo e por dinheiro. – disse Valdir.

_ Valdir, eu devo dizer que Frank Zappa e Captain Beefheart são apenas esforçados. Você sim é um gênio de verdade. – disse Castro.

_ Não sei… Se eu também fosse esforçado como eles talvez conseguisse maior satisfação na vida. Não sei dizer qual tipo de satisfação exatamente, talvez porque eu já não tenha mais tantos anseios. Eu tenho uma dislexia voluntária. Simplesmente me desconecto do mundo quando as coisas ao meu redor não me agradam. Eu deixo que as coisas fluam do jeito que a maioria das pessoas prefere. Apenas tento não ser vítima das consequências bizarras das ações humanas. Não há como fugir realmente disso, mas é possível viver sem atribuir aos outros a culpa pelas nossas desgraças. A maioria das pessoas não prima pela inteligência, nem pela classe e nem pelo bom gosto. Eu penso que sendo assim a humanidade vai ruir mais rapidamente. Eu só não gosto de ser um agente ativo desse processo. Não é só pra me livrar da culpa. Minha maior força e minha maior fraqueza talvez seja ter um compromisso genético com meus princípios.

A partir daí a chuva voltou a cair em torrentes e o aspecto que a Rua 7 de abril tomou depois de poucos segundos ao ficar realmente molhada parecia algo saído de um filme independente de produção barata. De um bar próximo ouvia-se a programação da Rádio América. Dali saía um forte cheiro de fritura que misturado ao de urina e frutas estragadas espalhadas pela rua deixavam o ar carregado, apesar da chuva.

A conversa entre Castro e Valdir da Chave seguiu de modo que a palavra ‘conspiração’ foi repetida 54 vezes. A palavra ‘desumanização’ foi dita 29 vezes. A palavra ‘colapso’, 22 vezes. Nos dias seguintes o pior aconteceu. O mundo não acabou.

 

*Fim do Capítulo 1 – **Continua no próximo Capitulo…

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Sobre o Autor

Fernando de Abreu Barreto

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