Poesias

Poesias de André L. Soares*

André L. Soares
Escrito por André L. Soares

Verbos, por ti
Revelar-me somente ante teu beijo,
dócil ato que espero, em desespero,
pois meu corpo te aguarda, novamente,
na distância de alguma madrugada,
para tomar-te em meus braços,
linda amante…
sem limites, sem tempo, sem ressalvas.

Dominar-te suave, cravando dentes
nessa pele em que já eriçam pêlos,…
e se as mãos limitam teus movimentos
liberdade te chega por entre orgasmos…
para fazer de ti, a minha mulher,
loucamente…
a andar sobre os meus rastros.

Saciar-te os desejos mais ousados,
batizar novas loucuras com teu nome,
de tua carne jamais sentir-me farto,
aos teus olhos ser rei, teu deus e homem…
tendo sempre em teu amor
meu horizonte…
fonte eterna de augusta felicidade.
[fim]

Bem-te-vi
Bem te vejo
Bem te digo
Bem te quero
Benfazejo
Sempre aqui
Bendito ao fruto
Deus te guarde
Nas florestas
Onde, entre réstias
Bem-te-vi.
[fim]


Humano
Queria te falar sobre estrelas,
porém, desconheço as alturas.
Pensei em te ofertar minha pureza,
mas quem sou eu…
se cresci livre pelas ruas.

Pudera eu te contar boas histórias,
descrever uma vida sem agruras.
Sonhei em te cobrir de jóias,
mas, sou plebeu…
nunca tive ou quis alguma.

Bom se eu coubesse em teus sonhos
na exatidão da ordenada com abssissa.
Tentei ser só alma e coração,
juro, não deu…
sou de aço, pedra e fúrias.

Quisera eu não fosse assim, só erros
e a verdade brotasse em meus lábios.
Talvez, eu possa te salvar do tédio,
mas, se nem nisso…
faz um esforço e me perdoa.

É que sou tão muito humano
– bem-dotado… de defeitos –
minha perfeição é sempre
ser complexo imperfeito.
E apesar desse jeito insensato
só uma coisa não aceito…
– ah isso não! –
é que duvides que te amo.
[fim]


Ao amor
…após vencidas turbulências e procelas,
sobre as feridas os remédios do dia-a-dia,
nas cicatrizes, quinze doses de poesia,
santo remédio, sempre os deixou mais fortes…
…nem mesmo a morte com eles poderia,
posto que o amor não encontra limites,
ainda mais esse que unia ele a ela:
tão complexo que se encaixava numa estrofe
e ao mesmo tempo, o Universo não continha.
[fim]


Milagre Campestre
(Moda de Viola)
Havia pessoas numa roça,
morando em casas de taipa,
tirando sustendo da enxada,
rostos repletos de marcas,
ganhando menos que pouco.

A lida lhes trouxe sufoco.
Privações, doenças, calos,
dor, exploração, descaso,
carência, esquecimento,…
eram os prêmios do caboclo.

No entanto, a Natureza,
dócil, sábia, generosa,…
testemunhando o tormento
dos que labutavam ao sol
– fiéis relutantes heróis –
enviou,…
aos galhos do ‘pé-de-rosa’,
na hora da Ave-Maria,
a sublime sinfonia
da orquestra de rouxinóis.

…e foi perfeita a paz por todo o vergel,
que logo o fruto farto floresceu…
…e foi tão linda a festa sob os Céus,
que riram e choraram… homem e Deus.
[fim]


Qual é o seu Amor?
O amor…
é esse sentimento incrível,
que leva o homem a alcançar o inacessível
e a fazer infinitas loucuras,
só para conquistar um coração.

O amor…
é esse sentimento impreciso,
que leva o homem a agir como narciso
e a praticar malditos egoísmos,
apenas para chamar a atenção.

O amor…
é esse sentimento imensurável,
que leva os homens a uma guerra mundial
para fazerem imensos genocídios,
em nome da pátria e de um ideal.

O amor…
é esse maravilhoso sentimento,
que faz o homem deixar de ser orgulhoso
para criar seu filho de maneira simples,
sem fazer nada de ruim a seu igual.
[fim]


Rebelde
Teus mistérios me devoram
Me transformam em compulsivo curioso
Homem em fogo a desejar-te todo tempo
Espantado com a cor do teu fascínio…
Mas sob teu domínio
Meu amor é furiosa tempestade.

Liberdade é tolice que abdico
Quero ser, por livre-arbítrio
Tua propriedade,… teu escravo.
Vem satisfazer-se plena em mim
Mas não conta sempre assim
Com essa leal passividade.
Sou mesmo de veneta
Vez ou outra, serei rebelde amotinado
Tendo rabiscado cicatrizes na tua pele
Deixarei mordidas em tua carne.

Invertido assim o jogo de cartas marcadas
Entre a casa grande e a senzala
Se à luz do dia, tu mulher és minha dona
Quando, enfim, a noite acalma
Sou eu o amo de teu corpo
Tu és minha mucama…
Servil, apaixonada.
[fim]


IMPRESCINDÍVEL
O dia nasceu maravilhoso…
tudo com jeito de novo,
voltando às boas, de repente.
No céu azul há um sol quente,
sorrindo raios de luz
para inspirar o meu desejo.
Eis que vislumbro sua imagem
cada vez mais próxima,
quase que posso tocá-la…
isso aquece e traz calma
ao meu espírito indócil.

Por entre carros e pessoas
caminho como quem sai da prisão
e olha o mundo, anos depois.
Parece que passou a eternidade
entre o momento de hoje
e a última vez que fui feliz.
Por isso inalo cada cheiro de folha,
todos os sopros de vida…
– pode haver ali, um pouco de você –
Não tenho fome, mas me alimento
do meu amor imensurável.

Procuro novas palavras
talvez, em outras dimensões
para explicar o que sinto
e como vivo essa paixão…
escuto frases,… arisco
e me arrisco numa canção
para falar do meu amor,
de modo repetitivo…

…até você compreender
que me é imprescindível…
…até você compreender
que me é imprescindível…
…até você compreender
que me é imprescindível!
[fim]


AMIÚDE
Toda dor é só uma gota d’água
comparada à alma que me deste
(és uma canção apaixonante,
dessas que se ouve e nunca esquece).
Então, deixa fluir o amor…
é chegada a hora do sorriso.
Não… não chora!
Se tua natureza é impulsiva,
sinal que estás viva…
e ainda há tempo de sonhar.

Toda cor que vejo, vem de teus olhos,
espelhos frente aos quais adoro estar
(parecem sinais luminosos,
faróis a me guiarem,… pelo mar).
Então, faça brilhar o amor…
enxuga a lágrima, mas deixa o sal.
Hoje preciso, mais que ontem,
do calor de teu carinho,… esse meu sol.
E se, em ti, a Natureza é poetisa,
sopra uma brisa de boas rimas
dentro do meu coração.

Eu sei,…
quase sempre a poesia diz tudo,
mas tem dias em que eu queria ser mudo
para saber dar valor às palavras.
Não raro, eu me armo de escudos,

às vezes… me fecho entre muros,
e sinto que seria bem melhor
usar o olhar… para falar de amor.

[fim]


À Mulher – III
Como é viver para ser única e ser tudo,…
no próprio corpo ter-se a santa na devassa,
a que liberta e ao mesmo tempo faz-se escrava,
cara e coragem, sobreposta ao plano injusto?

Por que ser forte, suportando a dor do mundo,…
fingir-se frágil porque querem os patriarcas,
reconhecida na beleza e pela graça,…
dóceis limites de um contexto de absurdos?

Pra que conter-se, se está claro que é melhor
essa tua forma de buscar o bem no amor,
sem esperar que venha alguém agradecer?

Então me escuta: faça a ti mesma um favor,…
lembra que o esforço de tua luta tem valor
pois nessa vida nada é maior que uma mulher.
[fim]


Poesia em carne viva
A poesia é como um rio…
leito de verbos e vinhos,
onde uma alma se banha
na palavra que empenha,
soberana,… arte rainha,
devota paixão tamanha,
é a esperança que se cunha
capaz de mover montanhas.

A poesia é largo esteio…
que mantém firmes os punhos
do homem simples que apanha,
sob o peso da desdenha,
e frente ao terror medonho
dos que estão quase sozinhos,
mas se unem, em rebanhos,
sem renderem-se às barganhas.

A poesia é eterno cio…
em que se fecundam sonhos,
superando,… na artimanha
a maldade que avizinha
os corações feitos de estanho,
cruzando novos caminhos,
desvendando tantas senhas,
por seus férteis testemunhos.

A poesia, então, é isso…
algum gesto de carinho
ofertado a um estranho,
– português, pária ou portenho –,
sem remorso e sem vergonha,
não tendo intenção de ganho,
mas de ser dócil resenha
dessa vida, tua e minha.

(…)

E sendo poesia… é infinda,
sendo bela, é ingênua,
sendo força, ela é bem-vinda,
e por ser amor,… há quem diga…
que a poesia é carne viva.
[fim]


Pelo sim e pelo não
Para resolver-se um problema
O dilema é chegar-se à solução
Passando primeiro pelo teorema
– prática testada na equação.

Porém, o resultado numérico
Nem sempre satisfaz a situação
Pois cálculos têm condição ‘ceteris paribus’
Mas o mundo nunca pára não.

Assim, ao chegar-se ao fator ‘x’
A realidade já se apresenta ‘x’ mais um
Como então alcançar o fim do enigma?
Sugiro que troque o antigo paradigma.

Abandone a visão cartesiana
Esqueça ordenada e abscissa
Vá em Freud, pergunte a Jung
Uma vela ao santo, depois vá à missa
Consulte os astros
Decore a Bíblia e a Constituição
Por fim, leia Chico Xavier
E se nada disso apontar uma saída
Siga a intuição de uma mulher.
[fim]


Flor
Ela é a flor…
suas cores são precisas,
tem o aroma das princesas,
o espinho é indolor.
Delicada…
feita de pétalas bonitas,
com imensurável beleza,
meu peito inunda de amor.
Ela é a flor…
que à alma faz carícias,
não importa onde estiver,
levo-a comigo onde eu for.
Ela é a flor…
minha doce flor-mulher!
[fim]


Soneto à Liberdade
No mar, buscar força. / Vento e sol no rosto
Derrubar os muros. / Peito sempre aberto
Trocar o tédio / pelo incauto e o incerto
E postar-se sempre / em flanco mais oposto.

Não viver em função / apenas de dinheiro
Gozar da vida / só o que lhe faz contente
Brindar com Baco, / dançar com toda gente
Estendendo-se a festa / ao planeta inteiro.

E ver a Justiça / junto à Liberdade
Trôpega e em risos, / soltando as amarras
Até não haver dor / ou povos oprimidos.

Não mais haver favelas, / fome, excluídos
Nem miséria, prisões, / celas, grades, barras
E então, nascer radiante / outra Humanidade.
[fim]


Dionísio
Não temo a loucura arriscada
que parece acompanhar tudo que é novo.
O que mais me assusta é a inércia da certeza
que insiste em macular de tédio, o amanhã…
pelo extraordinário que inexiste
nas coisas seguras…

Quão insípidas são essas horas,
todas já tão planejadas,
esses passos firmes, por estradas retas,
enchendo o mundo com prévios resultados…

Sei que posso estar errado,…
mas prefiro o inusitado
perigo das curvas.
[fim]

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Sobre o Autor

André L. Soares

André L. Soares

Um aprendiz de poeta,... à procura das palavras: na trilha do próprio inverso; na contramão dos sentidos; o mais avulso entre os perdidos...

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