Contos

Atrocidades e falta de humanidade em tempos de Páscoa

Iza Calbo
Escrito por Iza Calbo

Algumas atrocidades chamaram a atenção das pessoas esta semana. A empresária torturadora de Goiânia, por exemplo. Aqui em Salvador, nossa tão pacata cidade, um crime na quarta-feira (19), deixou a todos em estado de perplexidade.

No bairro do Ogunjá, de população pobre e muitos bares, vielas e bocas de tráfico, o comerciante Valdeci de Assis, de 42 anos, matou a empregada doméstica Marieunice Guimarães da Silva, de 46.
A golpes de facão.

Ela estava saindo para o trabalho, aqui, na rua aonde moro, quando notou que o rapaz estava em apuros no seu pequeno bar. Um botijão de gás começou a vazar e ele foi atingido pelas chamas.

Ele teve as pernas queimadas.

Ela tentou ajudar.

Contam que teria aconselhado a ir para o hospital, mas não poderia acompanha-lo, pois estava indo para o trabalho.
Aparentemente, esta renúncia enfureceu o comerciante queimado.

Ele pegou o facão usado para cortar coco e saiu atrás da mulher.

Ela correu. Passava das 5 da manhã. Ele foi atrás. Ela pediu socorro.

Ninguém abriu a porta.

Marieunice teve as mãos amputadas e levou vários golpes de facão na cabeça. Como se fosse um coco verde a ser servido.

O desempregado Januário dos Santos viu tudo.

A viela ficou um mar vermelho.

Depois de morta, as portas se abriram.

Valdeci refez o caminho, subiu numa laje e se jogou. Não era alto o
suficiente para morrer. Poderia ter ser matado de tantas outras maneiras. Até mesmo usando o facão.

Ele disse a uma tenente que podia morrer por não ter mais nada a perder. Contudo, não revelou porque tirou a vida da moça.

Foi internado e preso em flagrante por homicídio.
No local, conhecido pela valentia dos que atuam na área e, não raramente, costumam dar tiros para cima, nenhum homem apareceu para dar um tiro na direção do agressor.

Parece que por lá, a valentia só tem vez nos finais de semana ou quando as gangues se enfrentam.

Além disso, a vítima era uma mulher.

Observando a lógica – que sinceramente não parece existir – Valdeci arrancou as mãos que tentaram lhe salvar a vida. E, não satisfeito, tirou a vida de quem não o deixou morrer.

Porque, a boca pequena, ele usava remédios controlados.

Não é negado o uso de drogas e a depressão que isso estaria lhe causando.

O incêndio em seu estabelecimento pode não ter sido acidental.

Os dez minutos de agonia da jovem mulher foram ouvidos por quem vive na parte de cima do bairro, mais precisamente do lado esquerdo da rua sem saída.

Mas lá os gritos de socorro foram abafados pela falta de humanidade, pelo medo ou sabe-se lá por qual razão capaz de deixar um homem e um facão perseguir uma mulher e arrancar as mãos e, por pouco, não ter decepado a cabeça do corpo da vítima.

Enquanto isso, os presos saem com indulto de Páscoa e muitos não voltam ou, logo em seguida, já entram em ação.

Valdeci será preso? Ou será considerado louco como está tentando fazer parecer o advogado da empresária/torturadora de crianças indefesas?

Ninguém sabe.

Na quinta-feira, não havia surto de dengue no Rio de Janeiro. Na sexta-feira, a afirmação oficial foi negada. O mosquito continua matando as pessoas. A culpa é do danado. Afinal, se não há médicos nos postos nem homens capazes de segurar alguém com um facão na mão ou denunciar uma mulher que se diverte arrancando pedaços da língua de uma criança, de quem é a culpa?

Só resta o coelhinho da Páscoa!

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Sobre o autor

Iza Calbo

Iza Calbo

IZA CALBO é Jornalista de formação (aposentada) e escritora, paulista de nascimento, baiana por opção. Gosto de pessoas inteligentes e bem humoradas..

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