Crônicas

Alguém me ajude!

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Acho que a velhice chegou para mim, porque estou com dificuldade em assimilar alguns comportamentos modernos. Antes só havia homens e mulheres, e menos de meia dúzia de variações básicas correndo por fora, mas agora o site de relacionamentos Tinder disponibiliza trinta e sete opções de gênero para seus usuários. Com sucesso.

Nunca usei o Tinder, mas guardo com carinho a informação de sua existência; posso precisar dele no futuro, afinal a vida dá voltas. Decidir entre tantas alternativas vai ser um problema. Minha esperança reside na possibilidade de o aplicativo deixar que eu assinale algo do tipo “nenhum dos gêneros anteriores”, ou estarei condenada à solidão.

Digo isto porque andei dando uma olhada nas opções apresentadas: agênero, sexo fluido, questionador de gênero, andrógino, bigênero, não-binário, gênero inconformado, e por aí vai. Minha imaginação não consegue acompanhar tamanha diversidade. Procurei explicações para alguns desses termos, e fiquei com a sensação de que muitos são mais do mesmo. Como não consigo ver com clareza as diferenças, só me resta concluir: estou velha demais para entender o mundo que me cerca.

O meu problema é anterior ao Tinder. Há algum tempo, lendo uma reportagem sobre moda, deparei-me com a afirmativa de que, nas fotos, um dos modelos era transgênero e o outro era cisgênero. Transgênero eu conhecia, mas para descobrir o que era cisgênero tive que recorrer ao Google. Aposto que sou a última a saber, mas surpreendi-me com a definição: cisgênero é o indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o seu “gênero de nascença”. Então, é isso? Cada tribo inventa um sinônimo para algo que já existe? Concluí assim que sou cisgênero, que significa o mesmo que cissexual. Quem diria? Mas ainda estou em dúvida entre me declarar cisgênero ou cisgênera. E com a certeza de que, de uma forma ou de outra, essa declaração fará com que eu aparente ser, aos olhos do Tinder, bem mais careta do que já sou.

Essa história de gênero ainda me confunde de outro jeito: em muitos casos está difícil diferenciar quando gênero se refere ao modelo anatômico provido pela natureza ou à orientação sexual. Ou vice-versa. Principalmente se as palavras identidade ou ideologia estiverem envolvidas na discussão. Há tanta gente tentando explicar estas coisas, e de maneiras tão diversas, que o labirinto é total. Às vezes tenho a sensação de que o rei está nu. Talvez esse sentimento seja causado pela precoce (e, em minha opinião, injusta) velhice. Talvez também por isso eu não consiga entender por que o volume de pessoas empenhadas em debater o assunto é tão grande.

Os efeitos dessas polêmicas estão cada vez mais visíveis. No formulário para obtenção de passaporte, existem campos com três opções para o quesito sexo: masculino, feminino e não especificado. Como a natureza só disponibiliza dois modelos, quem olhasse para essas alternativas de um ponto de vista estritamente físico, e escolhesse não especificado, estaria confessando uma deformação. Obviamente, não foi essa a intenção de quem incluiu a terceira alternativa. Na realidade, o formulário está se referindo à opção sexual do usuário, e pretende evitar constrangimentos. Será que alguém que usou sua preferência sexual como elemento de identificação civil pode mudar de ideia depois? Se a burocracia não se opõe, nada impede que uma cisgênero (cisgênera?) como eu prefira ser classificada, preventivamente, como um indivíduo de sexo não especificado. Nunca se sabe… E creio que pode ser útil no caso de eu precisar recorrer ao Tinder.

Atribuam igualmente à velhice: fico aflita com o sofrimento de quem precisa descobrir a que gênero pertence. Libertem as pessoas dos rótulos, nada de explicações desnecessárias. Todo mundo tem direito à paz de espírito. Desde pequenininho. Principalmente desde pequenininho.

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Sobre o autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

*CLAUDIA G. RIBEIRO VALLE é cronista Carioca.
Esta autora escreve aos Domingos.

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