Crônicas

Depois de sangrado pra cachorro e chorado demais, lá se foi o “Sujeito de sorte”…

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

A memória passeia por aquelas distantes plagas esportivas. A pequena quadra estava muito longe de ser profissional. Futebol de salão. Esporte da bola pesada. A certeza, porém, lembrando a data da composição, era que estávamos no ano de 1976, e ainda vivíamos como nossos pais.

A bola era um dos melhores divertimentos, depois da leitura e do cinema. Naquele dia, noitinha de sexta-feira, dia de tomar os nossos “birinaites”, o meu irmão Dapenha chegava não muito diferente do seu jeito de sempre chegar. Muita alegria, e com música nova.

Assim, naquela noite, sem esperar mesmo que a pelada terminasse, ele entrou na quadra e me puxou pelo braço. Eu? Não queria sair. Estava no melhor momento. Ele, porém, insistia. Foi então que percebi: na mão tinha uma folha de papel pautada, daquelas que os alunos traziam de casa para a prova mensal. “Traga duas folhas de papel pautado”, dizia a “Tia”. E ai daquele que não trouxesse!

Mas, como dizia, não sabia ainda o que constava “na pauta” da folha pautada que o meu irmão trazia. Nenhuma ideia. Somente depois, terminado o primeiro tempo, muita água e suor de biqueira descendo pela testa, ele me fizera descobrir o segredo: “Como nossos pais”. A letra da música que ainda hoje continua sendo a cara desse excelente compositor cearense, que, semana passada, apressado, trocou de roupa e se mudou para outra cidade aos 70 anos.

A vontade que eu lesse a letra, manuscrita, que trazia naquele papel pautado, era visível. Estava no rosto e nos gestos. Queria muito que eu fosse o primeiro a dividir com ele aquele jeito de cantar nordestino do Belchior, justamente naquela composição imortalizada pela Elis Regina, que, menino ainda, sentia que seria um das maiores intérpretes do verde-amarelo pais musical.

Sabia também que Belchior fazia parte da admirada – por aqui a admiração era grande – “Turma do Ceará”. E que ele era o melhor letrista entre todos. Sabia. Afinal, para ser mais sincero, assim como sempre fui, era o “único” que podíamos chamar de letrista na acepção maior da palavra. Eu conhecia sua Na hora do almoço (“No centro da sala, diante da mesa,/No fundo do prato, comida e tristeza./A gente se olha, se toca e se cala/E se desentende no instante em que fala”) e gostava muito Um excelente letrista era Belchior.

Sempre duvidei que Fagner, outro bom cearense, mas nunca um bom letrista, fosse o autor da letra de Mucuripe, parceria sua com o compositor de Sobral. Nunca. Um dia, cara a cara, educadamente, ele ratificava esse saber: “A letra é totalmente minha”.  Nenhuma dúvida. Sempre citei a sua poética frase “Calça nova de riscado, paletó de linha branco, que até o mesmo passado lá no campo inda era flor” como uma das mais belas do nosso cancioneiro popular.

O tempo passou e, certo dia, mesmo sem querer, fui encontrar o compositor da excelente “Alucinação” em nossa Associação de Imprensa. Escrevinhava num jornal semanal, um hebdomadário, como diria a turma do Pasquim. Mas não tive muito tempo para o papo que com ele gostaria ter. Outras vezes, ainda, nos encontraríamos. Sempre papo rápido. Poesia, pintura e literatura. Ele passeava essas com a naturalidade dos iniciados nessas artes. A elegância de um mestre-sala da minha escola de samba favorita “Beija-flor”.

Um dia, lembro-me bem, Belchior ficou um tanto irritado – não “tanto” assim – quando lhe perguntei por que, enquanto os estudantes estavam na rua lutando por melhores condições de ensino e, sobretudo, pelo barateamento nas passagens dos ônibus ele não estava nem aí. Estava em casa – provoquei-o – contando o “vil metal”. Fi-lo (assim mesmo) assim, porque assim o quis.

Ele, porém, também à queima-roupa, disse-me que era uma artista, para, em seguida, perguntar se este “Malabarista de palavras” gostaria de “discutir” arte com ele. Neguei-lhe o meu desejo. Ele sorriu. Um sorriso largo, engolindo o bigode mais largo ainda. Outras vezes nos encontraríamos ainda. Três ou quatro. Sempre educado. Fino. Uma marcante característica desse “rapaz latino americano” que se foi como chegou, sem dinheiro no banco.

Se vai fazer falta? Por muito tempo. Nesse país em que grunhidos como “ôoooo e rárárá” são consideradas letras de musica, um letrista como Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes não e de nascer todo Dida. Nem todo ano. Nem a cada 10, 20… anos! No ano passado não morreu, mas este ano… infelizmente.

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Sobre o autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

*HUMBERTO DE ALMEIDA é jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.
Este autor escreve às Quintas-feiras.

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