Crônicas

Esperto, eu?

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

A esperteza é um dos males brasileiros. O jeitinho do qual nos orgulhamos deveria ser punido por lei. Na verdade é, mas a gente dá um jeitinho nisso também.

Não me refiro especificamente aos políticos, a categoria é hors concours (no entanto, não custa lembrar, nós os elegemos, e felizmente é assim). Refiro-me a gente que se considera comum, procurando atalhos que garantam seu bem estar individual em detrimento do bem geral.

Os espertos não são párias, estão por toda a parte. Acham, às vezes com razão, que a situação ou a lei são injustas e procuram fugir dando um jeitinho. Mas não venham com essa conversa de que fazem isso porque o exemplo vem de cima. Vem de cima, com certeza, mas vem igualmente de baixo e de todos os outros lados. Isso é só desculpa para ser esperto e se dar bem.

Que esperteza é essa, em que todos perdem, incluindo aí os tais espertos? O motorista que trafega pelo acostamento ganha alguns segundos e contribui para dar um nó no trânsito ainda mais difícil de desfazer. Sem falar nos acidentes que pode provocar. Apesar disso, o esperto fica satisfeito por praticar a esperteza, mesmo preso por mais tempo no engarrafamento gigantesco que ele e outros espertos ajudaram a piorar.

O trânsito é um prato cheio para quem despreza a coletividade: atravessamos fora da faixa de pedestres, fechamos cruzamentos, estacionamos de qualquer jeito, corremos para avançar o sinal amarelo. Acabamos vítimas, mas não ligamos o nome à pessoa nem nos conscientizamos de que é preciso ser um pouco menos espertos.

O brasileiro compra no camelô justificando que é mais barato. Economiza alguns tostões, que talvez nem lhe façam falta, e é penalizado pelo aumento de impostos em outras áreas, porque o governo nunca desiste da parte dele, só modifica e aprimora a forma de cobrança. Temos uma parcela cada vez menor de cidadãos pagando impostos cada vez mais altos. Só para citar um exemplo: o aumento dos custos para legalizar a compra de um imóvel tem empurrado muita gente para contratos informais. Não deveríamos buscar exatamente o contrário, com todo mundo colocando a documentação em ordem, e recolhendo o valor justo?

Relacione a conivência com o camelô ao avanço da informalidade e da marginalização de muitos indivíduos. O brasileiro vai aos Estados Unidos e se admira ao receber a nota fiscal sem pedir, constatar que troco de um centavo é para valer, e que o dinheiro é devolvido a quem se arrepende da compra por qualquer motivo. Você sabe por que aqui não é assim, ou continua sem ligar o nome à pessoa? Muitos brasileiros que imigram são cidadãos modelo nas sociedades onde se inseriram. O material humano é o mesmo, a diferença está na organização social. Somos socialmente incompetentes, só não dá tudo completamente errado porque somos incompetentes até para ser incompetentes.

Parte dos brasileiros nunca formou a noção de cidadania e outros tantos não conseguem deixar de lado o paternalismo. Vários patrões domésticos, alegando sentirem pena dos empregados, não descontam deles a contribuição da segurança social que compete ao trabalhador. Pena, por quê? É só aumentar o salário do funcionário para que, descontado o INSS, ele continue recebendo a mesma quantia. Com uma diferença fundamental: o empregado descobrirá que ele também precisa contribuir para o bem comum, que ninguém sobrevive só de direitos. A pequena quantia que você vai gastar a mais representa pouco em relação ao que vai receber de volta em forma de cidadania. Provavelmente muito menos do que quanto estaria disposto a pagar para viver num lugar melhor.

A maioria da população, como não pode solucionar os grandes problemas, acha que não pode fazer nada para melhorar o Brasil. Bobagem: pode estar fora de sua alçada combater a bandidagem, mas isso não é desculpa para não fazer o que está ao seu alcance, como reciclar o lixo doméstico, preservar o patrimônio público, valorizar a polícia, cumprir horários e promessas, não anular o voto. Acredito na “teoria das janelas quebradas” e na força de campanhas pelas pequenas causas. Deixe de olhar para o vizinho e faça a sua parte. O país agradece.

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Sobre o autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

*CLAUDIA G. RIBEIRO VALLE é cronista Carioca.
Esta autora escreve aos Domingos.

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