Crônicas

Fiascos

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Quem pesquisar na internet sobre invenções esdrúxulas vai dar boas risadas. Provavelmente, a maioria dessas coisas não passou do protótipo, como os guarda-chuvas para cigarros ou as pranchas de surf motorizadas. Outras, no entanto, pareciam boas ideias, e foram produzidas industrialmente.

Quase todo mundo já adquiriu um produto que prometia ser excelente, mas que se revelou um fiasco, e acabou no lixo, ou encostado em algum canto da casa. Um vídeo game que não emplacou, um porta-retratos eletrônico, uma panela mágica, um creme milagroso, um lindo e inútil jogo de ferramentas, um aparelho para emagrecer, um desajeitado organizador de trecos.

Lembro-me de uma dessas invenções: um antigo papel mata-moscas. Tenho certeza de que pouca gente ouviu falar nele, mas na época foi lançado através de uma chamativa campanha publicitária. Minha mãe comprou imediatamente. Morávamos numa casa com quintal e, de vez em quando, apareciam moscas na cozinha. O papel tinha um lado pegajoso e os insetos, quando pousavam nele, ficavam presos e, consequentemente, à nossa mercê. Para que a armadilha fosse eficiente, o papel era impregnado de um odor agradável (do ponto de vista das moscas, é claro). Tiro e queda. Elas eram atraídas pelo cheiro, pousavam, não conseguiam desprender-se. Aí era só enrolar o papel, com moscas e tudo, e jogar no lixo. O fabricante só não previu que, de tão sedutora, a armadilha atrairia todas as moscas da vizinhança. Nós, que tínhamos meia dúzia delas, passamos a ter dezenas, disputando espaço naquele quadradinho pegajoso. Minha mãe, mulher prática, assim que constatou o assédio dos insetos, pegou a embalagem quase nova e descartou tudo. Ainda hoje se usam armadilhas desse tipo para moscas, mas suponho que tenham ajustado o “perfume”.

Frequentemente associo esse papel mata-moscas à tentativa da cidade de Zurique, na Suíça, de controlar o uso de drogas nos anos 1980. Foi designada uma praça, a Platzspitz, onde não existiria repressão a quem fizesse uso de drogas, qualquer droga. Até distribuíam gratuitamente seringas descartáveis. As autoridades tiveram que voltar atrás, porque a medida acabou atraindo traficantes e viciados de toda a Europa, criando uma situação pior que a original.

O mundo está repleto de ideias que parecem maravilhosas, mas na prática não funcionam. Ou funcionam por pouco tempo, e depois conduzem ao desastre. É o caso de algumas revoluções bem intencionadas que acabam transformando-se em ditaduras, porque quando as pessoas têm o poder nas mãos dificilmente conseguem abrir mão dele. O poder é fascinante.

Controlar a economia por decreto é outra ideia furada que, de vez em quando, alguém recicla, mudando aqui e ali a cara da coisa. Também caímos nessa armadilha com o congelamento de preços do governo Sarney. Produtos como ovos e feijão sumiram das prateleiras dos mercados. Pudera. Quem vai vender algo por um preço inferior ao custo?

O comunismo é uma ideia espetacular de igualdade para todos. Então, por que não dá certo? Ora, basta observar a natureza humana. Gostamos de individualidade, o que pode se traduzir desde pequenos detalhes, como escolher a cor da roupa que vamos vestir, até os mais megalomaníacos projetos. E, não custa repetir: o poder é fascinante. Sempre existirá alguém tentando ser mais igual que os outros.

Nessa linha da igualdade para todos, mas bem menos radical, está a ideia do politicamente correto. São tantas as minorias que está difícil conviver com o patrulhamento. A ideia precisa de ajustes. A própria sociedade está se encarregando disso, expondo o ridículo de certas situações. Além disso, de uma forma ou de outra, todos acabamos pertencendo a alguma minoria, o que faz das minorias a maioria. Dá para entender uma coisa dessas?

As ideias bizarras são inócuas. Perniciosas são as que, disfarçadas de excelentes, acabam por nos custar muito caro, às vezes até a vida.

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Sobre o autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

*CLAUDIA G. RIBEIRO VALLE é cronista Carioca.
Esta autora escreve aos Domingos.

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