Crônicas

UMA FLOR NO ASFALTO

Campista Cabral
Escrito por Campista Cabral

E houve um tempo em que os homens comiam plástico e bebiam água do mar e não viam o sol e não havia mais verde.

Homens e mulheres não tinham mais o sorriso e a alegria de antes.

Andavam como zumbis, comiam e trabalham e dormiam e começavam tudo de novo e de novo…

Não havia mais paixão e amor. A tela era tudo.

Animais mortos e pássaros extintos eram imagens de museus.

Computadores para todos os lados e de todos os tamanhos!

Ninguém andava de bicicleta e ninguém jogava mais nada.

Para isso, havia programas que jogavam sozinhos, sem a interferência humana.

Tudo era programado, cinza, frio e robótico. Ninguém se atrevia a qualquer gesto mais largo. Mecanicamente desumanizado…

No entanto, num chuvoso dia de abril, uma flor, no meio da grande avenida, surgiu não se sabe como.

Era uma flor amarela. Amarela ainda do medo.

Mas.

A flor crescia e aparecia.

Até que não podia ser mais ignorada pelos transeuntes. Todos os que por ali passavam, olhavam. Alguns demoravam e tiravam fotos. Outros tentavam se aproximar para tentar tocá-la.

Todos os dias, uma multidão se aglomerava em torno da flor amarela. Crianças ousaram brincar. Velhos decidiram dançar. Jovens sorriam e olhavam-se com mais ternura.

A flor crescia e aparecia.

Agora azul, firme no meio do asfalto e do concreto, desafiava a própria cidade e os seus monumentos.

A flor passou a incomodar.

E incomodava os que gostavam de cinza e de chuva.

E incomodava a indústria de dessalinização.

Contudo, as pessoas, tocadas já pela flor, movidas por um desejo incontido há anos, atreveram-se a lutar.

Um velho bem velho e um menino bem menino sentaram-se próximos da flor e resistiram.

Nada os incomodava. Nada os repelia. Nada os assustava.

Outros e outros mais se juntavam aos dois frágeis heróis pós-modernos.

Até que, do outro lado da esquina, uma flor roxa, tímida ainda, dava sinais de vida.

Então, debaixo da ponte, duas rosas também surgiram…

E no meio da praça, logo após um estrondo, uma árvore frondosa abria os seus galhos…

O céu, pesado e desbotado, deu lugar ao azul.

Homens começavam a quebrar seus computadores. Telas ao chão, mãos livres e cabeças erguidas…

E era um assombro aquele momento em que vários olhos se olhavam e pequenos risos iam tomando o espaço.

Tal como a cena final de um filme, penso em uma câmera se afastando enquanto várias pessoas vivem a vida de fato e de direito!

 

 

 

 

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Sobre o autor

Campista Cabral

Campista Cabral

Escritor, poeta e cineasta amador. Publicou quatro livros. O REI, O POETA, A MULHER E O MAR (contos), TERRA BRASILIS (crônicas), PARA ENTENDER UMA NOVA EDUCAÇÃO (livro voltado para os problemas da educação no século XXI) e FORMAÇÃO DOCENTE E PRÁTICAS INOVADORAS (livro sobre novas práticas docentes no ensino superior). Realiza anualmente o FESTIVAL DE CINEMA DE TERESÓPOLIS e, dentre alguns trabalhos na área, destaque para o filme NOITES COM SOL (2011) e os documentários PALAVRAS (2008), CAMINHOS EUCLIDIANOS (2012) e O QUE É FELICIDADE? (2013). Escreve regularmente para o Escritartes (www.escritartes.com) e Recanto das Letras (www.recantodasletras.com)

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