“A Pátria que quisera ter era um mito”, de Denilson Botelho, apresenta a trajetória de militância política e literária de Lima Barreto

by Redaçao | 03/07/2017 14:20

LANÇAMENTO DO LIVRO ACONTECERÁ EM SÃO PAULO E NO RIO DE JANEIRO  DURANTE O MÊS DE JULHO

Livro sobre Lima Barreto – escritor homenageado da FLIP 2017 – tem 2ª edição revista e atualizada, após conquistar Prêmio Carioca de Pesquisa

Na obra, Denilson Botelho – historiador e professor da Universidade Federal de São Paulo – apresenta a trajetória de militância política e literária de Lima Barreto nos seus artigos e crônicas publicados no Rio de Janeiro no início do século XX.

Passados 15 anos da primeira publicação, que se tratava de uma edição premiada e distribuída somente para bibliotecas, universidades e escolas públicas, finalmente o livro A pátria que quisera ter era um mito ganhará uma edição comercial e assim chegará às prateleiras das livrarias.

O livro teve origem em dissertação de mestrado em História defendida na Unicamp, sob a orientação do professor Sidney Chalhoub, cujo objetivo foi produzir uma compreensão detalhada sobre a trajetória de política e literária do escritor carioca Lima Barreto (1881-1922). Ao invés de abordar os seus textos mais conhecidos, como os romances e contos, Denilson Botelho analisou um vasto acervo constituído por pouco mais de 500 artigos e crônicas – menos conhecidos pelos leitores em geral. Publicados originalmente em jornais e revistas da época, esses textos revelam o quanto Lima Barreto participava dos debates em curso no Brasil do século XX, opinando sobre quase tudo e tratando dos mais variados assuntos.

O testemunho histórico de Lima Barreto é, em certa medida, o testemunho de alguém que buscava um caminho a ser seguido em meio à transição entre uma sociedade caracterizada pela ideologia paternalista e pelas relações de dependência pessoal, vigentes no século XIX, e a sociedade republicana em plena reestruturação das ideologias de dominação, cenário de redefinição dos novos espaços de poder a serem ocupados. Mas ao mesmo tempo, o testemunho de um indivíduo perplexo e inconformado com a permanência de uma lógica excludente do ponto de vista político, social e econômico – exclusão que insiste em se perpetuar até os dias atuais.

Escrito em linguagem acessível e envolvente, com reprodução de diversos trechos dos artigos e crônicas do escritor carioca negro e suburbano, o livro está dividido em quatro capítulos. No primeiro o autor apresenta um esboço biográfico de Lima Barreto, partindo do momento inicial de sua carreira literária até a que se tornasse um escritor reconhecido em seu tempo. O segundo capítulo mostra como a Primeira República aparece nos artigos e crônicas do escritor, indicando que nada escapava ao seu olhar atento sobre a época. O terceiro capítulo delineia o país com o qual Lima Barreto sonhava, ao mesmo tempo em que vivenciava enorme frustração com a república recém implantada. E o quarta e último capítulo examina o quanto a valorização do diploma (em Direito, Medicina e Engenharia) resultou num verdadeiro fetiche para a sociedade daquele tempo, fazendo do “doutor” um símbolo da distinção social e da desigualdade que em tudo depõem contra um projeto democrático de república.

O livro conta ainda com prefácio de Sidney Chalhoub e apresentação de Nei Lopes.

Trechos do livro

“Ao longo deste livro, em que me enfronhei no estudo desse conjunto de mais de quinhentos artigos e crônicas, fiz surgir um Lima Barreto, creio eu, ainda pouco explorado e conhecido. Em meio aos seus escritos, procurei conferir ao seu discurso uma lógica, uma racionalidade e uma compreensão histórica que emergisse desses fragmentos do dia-a-dia que o cronista/articulista produziu. Com isso, é bom deixar claro que houve uma opção deliberada, de minha parte, em deixar o próprio Lima Barreto falar. Dando vez e voz ao escritor, teci um perfil político que pouco a pouco foi se moldando”.

“O carioca Afonso [Henriques de Lima Barreto] bem que podia gabar-se de conhecer como poucos a cidade em que vivia. Por vezes saía do subúrbio de Todos os Santos, onde morava, tomava o trem até a Estação D. Pedro II, no centro, e dali embarcava num bonde rumo à zona sul, cruzando assim o Rio de Janeiro de um extremo a outro. Entretanto, a intimidade com a geografia e as ruas da cidade foi paulatinamente conquistada nas várias ocasiões em que cumpria este e outros percursos, não sobre os trilhos dos trens ou bondes, mas sim a pé. Sem pressa, muitas vezes vagando pela noite adentro, suas caminhadas eram interrompidas para uma ou algumas doses de parati, tomadas nos bares ou numa vendinha suburbana qualquer”.

“Seria precipitado e inadequado classificar Lima Barreto como maximalista ou socialista. O mais apropriado seria admitirmos que tamanha era sua insatisfação e sua crítica em relação ao capitalismo, que a vontade de subvertê-lo era capaz de mantê-lo permanentemente mobilizado nesse sentido. Para isso, aceitava ser chamado e até mesmo se autodenominava anarquista, maximalista ou socialista, não porque tivesse um projeto pronto e elaborado para um Brasil socialista, por exemplo, mas porque não suportava viver numa sociedade marcada por profundas e desumanas desigualdades de toda ordem. Se o capitalismo inviabilizava o acesso à cidadania para todos, era imperioso derrubá-lo e substitui-lo por algum outro modelo de organização política, econômica e social em que fosse possível tentar ampliar o alcance da cidadania, ou em que fosse possível dar condições dignas de vida e oportunidades para a população como um todo.”

Sobre o autor: Denilson Botelho é historiador formado pela Universidade Federal Fluminense. Foi professor da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro, de universidades particulares e públicas, como a UERJ, UFRJ e UFPI. Carioca, foi criado no bairro da Saúde, local marcado pela presença de escravos e pela Revolta da Vacina ocorrida em 1904. Encontrou na obra de Lima Barreto um guia para compreender a Primeira República. Fez do escritor carioca o eixo das pesquisas que desenvolveu no mestrado e no doutorado em História Social na Unicamp. Atualmente é Professor do Curso de História da Unifesp, onde desenvolve pesquisas sobre história, literatura e imprensa na Primeira República.

SERVIÇO: Título: A pátria que quisera ter era um mito: história, literatura e política em Lima Barreto
Autor: Denilson Botelho
Editora: Prismas (http://editoraprismas.com.br/[1])
Formato: 14x21cm
Número de páginas: 246
Preço de capa: R$ 52,00
Lançamento: em Julho de 2017 em São Paulo no Rio de Janeiro

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