Literatura Livros

Autocrítica autorizada

Marcio Paschoal
Escrito por Marcio Paschoal

Há momentos em que me preocupo e me impressiono negativamente com a função do crítico. Há que se considerar a sua triste sina de inferioridade natural quando comparada à literatura. O que sabe realmente o crítico do objeto que vai criticar? O autor se esforça em uma metáfora, uma quebra de estilo, e vem outro, impaciente, a tentar subverter e redefinir aspectos diferentes dos propósitos originais daquele que cria. Depois, ambos se queixam: o autor de ser incompreendido, e o que critica de não ser levado a sério.

Existiu um tempo no qual os críticos eram tidos com mais seriedade. Antonio Candido era desses. Debruçava-se sobre a obra e, atento, indagava os motivos e pormenores que levavam certos escritores a certas peculiaridades. Hoje tudo vai bem mais rápido. A crítica se prende ao simples fato de conseguir agradar ou não; compreender ou não; simpatizar ou não. O ponto básico para as estruturas de análise do texto pouco varia.

As estranhezas nesse campo acumulam-se. Clarice Lispector, no seu romance de estreia, “Perto do coração selvagem”, conviveu com algumas espinafrações do tipo de “equívocos literários e perda de tempo com personagens inverossímeis”.

Também Machado acabou se defrontando com artigos sobre seus livros que mencionavam ser ele “igual, sem grande originalidade e compassado em excesso”.

O caso de Paulo Coelho é emblemático. O suposto mago nunca obteve tréguas. A crítica cai-lhe de pau, com vontade e critério. Ironicamente, isto pareceu valer-lhe, uma vez que vende cada vez mais e em outras línguas.

Convém saber que a maioria dos críticos lá fora lhe dispensa rasgados elogios. Imaginava eu, no início, que fosse por espanto ou excentricidade. Sim, críticos adoram ser excêntricos. Há, contudo, a explicação de ser resultado de alguma competência de seus tradutores. Ouso concluir que a tradução, então, é injustamente desprezada. Não raro se pode ler a análise de um livro sem que seja mencionado o nome do tradutor, como se o texto se houvesse traduzido por mágica ou através de um processo computadorizado qualquer.

Outra possibilidade é a de que um tradutor de Coelho tenha se divertido aqui e ali, alterando palavras, situações, citando pensamentos instigantes, enfim, modificando substancialmente o enredo e transformando a obra. Para melhor, suspeita-se.

Fala-se também com ênfase na propalada decadência do papel da crítica, que eles, os enganadores críticos, possuem pouco ou nenhum preparo, não se atualizam o suficiente. Afinal, ou bem se cria ou bem se critica. Dessa maneira, os analistas escasseiam e os escritores abundam.

Esquecemos que independe dos críticos o valor real de uma obra. Já se disse que “os livros sobrevivem se são lidos e desaparecem se não o são”. Um tanto óbvio, se não fosse tão definitivo e lógico. Deve-se observar, entretanto, que alguns livros sobrevivem aos tempos e não são sequer lidos. Caso de Ulisses de Joyce, Sertão de Euclides, Veredas de Rosa, e outros menos votados e consequentemente lidos.

Deve-se concluir que os críticos têm pouca função, devido a sua frivolidade ou análise irresponsável. Embora aconteça de que quando a crítica elogia, passe a ser bem absorvida, como se o crítico feliz, enfim, pactuasse com o artista envolvido. Então, ao leitor pressionado somente restará ler. Ou dizer que leu.

Compreende-se que as lisonjas são deglutidas com mais facilidade que as críticas verdadeiras, mesmo que às vezes cruéis. Aqui, um paradoxo do ramo: falar mal é mais nobre que elogiar. Uma questão de status.

Resumindo, vemos a ascensão da queda cada vez mais flagrante de quem analisa e critica no cenário literário. E também de quem traduz. No final, tanto o crítico, quanto o tradutor ou autor só querem uma coisa: serem lidos.

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Sobre o Autor

Marcio Paschoal

Marcio Paschoal

Escritor, economista (nem ele mesmo sabe por quê), letrista (com Ruy Maurity), crítico e pesquisador musical (autor da biografia João do Vale), é carioca, escreve em sites, jornais e publicou romances, contos, crônicas e ensaios.

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