Música

Michael Jackson preferia ser um solitário de muitos, a ser um solitário dele mesmo

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

(Para o meu irmão – Dapenha – que gostava tanto dele)

Enquanto os fãs velam o cadáver, simples e inútil casca, o escriba não pensa no ídolo Michael Jackson. Ele sabe. Mais que um artista Michael foi um criador. Nesse exato momento e mais ainda exato instante, lembrando outro ídolo, o Gonzaguinha da Vida, penso no prisioneiro que finalmente conquistou a liberdade. E não entra aquela história da “desencarnação” e outras coisas que não discuto por não acreditar. Porém, faço questão de ressaltar neste final de parágrafo que, mesmo sem acreditar, respeito à crença dos que acreditam.

Todos os meus dois leitores, esses que tem saco, todos os dias, para ler as mal-traçadas deste escriba, diferente do que muitos pensam, nem sempre puto, sabem: nunca tive – nem terei – ídolos. Eu via o Michael Jackson, mesmo não sendo ídolo meu, pois, como já disse, esses não os tenho, mais como um inventor, um criador e, sobretudo, um ser que lutava com unhas dentes e melodia para se ver livre do ser que inventara.

Esperava e torciam para que esses últimos anos demorassem mais. Só não viam aqueles que ver não queriam. O criador, apesar da extraordinária criatura que criou e tinha consciência dessa criação, a criatura queria matar. O artista Michael Jackson queria e lutava e se esforçava para ser apenas o menino Michael Joseph Jackson, o mais novo de 7 irmãos, guardadas as proporções, também artistas, que nunca sonhara em vender quase um bilhão – 750 mi – de discos.

Durante os seus breves 50 anos, por mais que ninguém quisesse ver e ele aceitar, Michael Jackson foi prisioneiro do Michael Jackson que criou. Saborear um cachorro-quente na esquina de casa era o mesmo que executar o mais difícil dos trabalhos de Hércules; um banho de mar era um esforço maior do que os nossos “gênios” fazem, todos os dias, para compreender o que vem a ser essa tal Teoria do Campo Unificado.

Michael Jacson morreu como viveu toda a vida. Era um solitário. Lembro que nas vezes que assisti a um de seus históricos – entraram para a história há muito – clips pela tela colorida – sua vida foi em preto e branco – da minha televisão, a lembrança da Janis Joplin, outra tão solitária quanto ele, tomava todas as prateleiras da memória. Janis se foi mais nova. Aos 27 anos trocava de roupa e se mudava para outra cidade.

Um dia, morrendo de solidão, Joplin, outro ícone de toda uma geração, vendo que não dava mais para segurar, desabafou: “No palco faço amor com 25.000 pessoas; e então vou pra casa sozinha!”.

O Michael Jackson, apesar dos dois casamentos arranjados e filhos mais arranjados – por ele – ainda, bem que poderia ter dito a mesma coisa. Triste, porém, verdadeiro. E assim, pouco a pouco, esses geniais filhos da solidão, porém amados por multidões, vão se despedindo antes do show chegar ao fim.

Jimi Hendrix, o mágico da guitarra, mais um entre tantos os solitários no meio de multidões, morreu afogado no próprio vômito, depois de uma excessiva – também uma droga – dose de remédios para dormir; Kurt Cobain, com um tiro na cabeça; Marilyn Monroe, intoxicação aguda causada por barbitúricos, apesar da suspeita de muitos de que fora suicídio; a bela e muita bela Anna Nicole Smith, overdose, e sempre lembrada pela frase “É muito caro ser eu. É terrível o que tenho que fazer para continuar sendo eu”.

Como não lembrar do James Dean que se foi aos 24 anos dizendo que “A única grandeza do homem é a eternidade?” E o Bob Marley, aos 36 anos, que foi morar noutra cidade porque não permitiu, com um câncer que começou na ponta do dedão do pé e, por suas crenças religiosas, não permitiu que o mesmo fosse amputado? Foram muitos os ídolos dessa geração, cada um a sua maneira, que morreram de solidão.

O Michael Jackson que não era o meu ídolo, pois, como todos sabem, ídolos não os tenho, preferia ser um solitário de muitos, a ser um solitário dele mesmo. Ninguém é perfeito. Nada é perfeito. Pois somente Ele, sem quaisquer dúvidas, traz a perfeição. O Michael, não se discute, assim como todos os mortais, pobres mortais, tinha os seus defeitos. E negar tal fato ninguém nunca haverá de.

Mas também ninguém pode negar que o Michael Jackson, pai dessa genial criatura, o dançarino e cantor, o músico, enfim, o muiltiartista, mesmo sendo um criador imperfeito, era um profissional como poucos. Um perfeccionista. Um ser que a cada dia buscava melhorar o ser-artista que criou. Mas, por outro lado, o pior, era um infeliz que não queria outra coisa na vida que não fosse sentir o gosto, mesmo momentaneamente, dessa tal felicidade.

O Michael queria mesmo era criar os filhos deles como, infelizmente, não fora criado. Vê-los crescer, correr no campo, aprender a tocar guitarra e, se não fosse pedir muito, assistir aos seus clips e tentar imitar o seu jeito inimitável de dançar. E não queria, como demonstrara nos últimos anos, continuar sendo o Michael Jacson que inventou e não conseguiu, apesar de todos os esforços, dominar o seu invento.

O resto é história. E nessa, por merecimento e sem pedir um só favor, assim como ajudou a escrever, nela entrou para nunca mais sair.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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