Música

Os bons morrem jovens?

Luciano Fortunato
Escrito por Luciano Fortunato

Da série “Entrevistas mediúnicas”, Renato Russo fala sobre os dias passados, presentes e futuros

Na vizinhança de Cobain, Lennon, Morrison, Presley e Cia., Renato Russo, um dos ícones máximos do rock brasileiro – chegando a ser comparado com Raul Seixas –, o líder do (a) Legião Urbana me falou, numa pequena entrevista exclusiva via MSN – e não me perguntem como consegui isso –, sobre como tem visto o mundo, neste, ainda, alvorecer do terceiro milênio. Ele, que não deu muitas entrevistas na vida, nos brinda agora com observações sobre comportamento, geopolítica, Barak Obama e, claro, música.

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Luciano Fortunato – Começando por um assunto difícil, que foi tema de diversas canções suas, quero citar um verso de um dos heterônimos de Fernando Pessoa, o Ricardo Reis, que escreveu: “morreste jovem, como os deuses querem quando amam”. Como você cantou em Love in The Afternoon, os bons se vão mesmo antes?

Renato Russo – Todos os assuntos são difíceis. Os homens, na verdade, respondem coisas com mais facilidade que os anjos. Eu, que não sou anjo, não sei te responder se Deus chama primeiro os bons. Eu pensava isso quando escrevi esta canção. Eu relembrava algumas perdas importantes e também estava comovido com a morte recente de alguns amigos, como o músico Tavinho Fialho. E pouco tempo depois que acabei de fazer a música, teve a morte de Kurt Cobain, que eu acho que foi um cara bastante puro e sincero. Então parece que aquilo vinha confirmar a idéia de que os bons morrem jovens. A vida é uma coisa muito dura e pesada, sempre foi. E a morte? Passamos muito tempo da vida tentando explicá-la em vão. Há grandes homens, homens bons, que conseguem uma boa longevidade, eu sei. Mas há uma coisa com as almas sensíveis e boas: elas não se adaptam tão facilmente à vida nessa selva artificial que os homens criaram. Não conseguem se adaptar bem às desgraças deste mundo aí. Eu talvez me enquadre também nisso. Mas não sei se o adjetivo “bom” é o mais adequado pra pessoas como eu. De qualquer forma, não sei responder a sua pergunta.

L.F. – Um presidente negro acaba de se mudar para a Casa Branca. Em que você acha que isso vai repercutir como ganho real para as próximas gerações?

R.R. – O fato de Obama ser negro não poderá fazer dele um grande líder, embora isso aumente sua responsabilidade. Falarmos hoje em raça negra é também um erro. Raça humana é o que existe. No entanto, o orgulho negro está presente na figura de Barak Obama. Orgulho pode ser uma palavra feia em diversos sentidos. Mas é algo inerente ao ser humano. Admiro tudo o que os negros fizeram até hoje. Construíram com seus braços as cidades ocidentais por onde permeou toda a cultura que nos criou. Foram geradores da riqueza que vemos. Eles fizeram na verdade quase tudo o que temos na estrutura física da nossa civilização com a força de seus corpos. E com a força de suas mentes criaram coisas sem as quais eu, Renato Russo, músico, não existiria: tais como jazz, blues e rock-and-roll. Barak Obama nem precisa fazer um grande governo, assim como o governo de Nelson Mandela (na África do Sul) não foi impecável. O que importa é isso aí: um homem de pele negra no poder, pra levantar a auto-estima das pessoas com essa cor de pele, que tanto sofrem preconceitos e discriminação em todo o planeta. E o cara acaba sendo um tipo de representante de todas as etnias discriminadas. E não só das etnias, mas de todos os rejeitados. Não que ele vá ser um salvador. Contudo é, com certeza, um grande passo. Teremos, bem provavelmente, um dia um presidente americano gay. E nunca poderá importar se os políticos do século XXI serão negros, se haverá gays ou mulheres presidindo os Estados Unidos – e eu tenho certeza que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Vale saber se a pessoa será honesta, inteligente, equilibrada e bondosa, pois isso é o que vai importar. Eu jamais poderia ser um presidente, pois não sou uma pessoa tipicamente equilibrada, inteligente e boa. Estou muito feliz, sim, com a posse do Obama.

L.F. – E quanto à política no Brasil?

R.R. – O Brasil atual, com seus políticos, me deixa confuso.Tenho mesmo que falar sobre isso? Sabe como é? Ficam esperando que eu diga coisas relevantes. Sempre ficaram esperando por isso: que eu viesse a dizer algo que pudesse construir – veja que coisa – a opinião de alguém ou algo assim. É obvio que eu e muitos outros da minha geração tínhamos em determinado momento a pretensão de mudar o país e mudar mundo. Mas qualquer mudança a nível global, nacional, na nossa rua, na nossa casa, deve passar antes por uma mudança dentro de nós mesmos. E é impossível, no curto tempo de vida que temos na Terra, podermos observar qualquer mudança mais significativa. A alma humana é muito dura – mais dura que o corpo.Toda mudança em grande escala é gradual e demorada. O que a juventude sempre teve é pressa de ver tais mudanças. Isso frustrou os jovens, que esperavam ver a demonstração do seu poder de forma mais visível, com resultados mais visíveis e imediatos, sabe? Mas, ao contrário, quando ocorre uma grande mudança, uma mudança mais rápida, logo depois se presencia um retrocesso. É assim mesmo. Contudo é importante que os jovens não percam essa vontade de mudança coletiva. Pensar só no individual é algo desumano. Nas minhas letras eu sempre transitei entre as pretensões individuais e coletivas. Sempre fui naturalmente egoísta na minha escrita, assim como sempre tentei dar voz à juventude sem voz. Em várias letras minhas há eu e mais um monte de gente sendo representada. E muitos artistas fizeram isso, não apenas eu, obviamente. O problema esteve no exagero com que eu fui abordado, principalmente depois do disco As Quatro Estações, quando teve gente me chamando de messias. Um horror. Eu nunca quis essa responsabilidade. Minha vaidade às vezes até me fez pensar em alguns momentos que eu pudesse ser uma espécie de novo Bob Dylan, ou de Bob Dylan brasileiro. Pôxa! Nem o Bob Dylan agüentou essa barra de ser “porta-voz” de uma geração. Ele repudiou esse posto que conferiram equivocadamente a ele. Gosto de conversar sobre política. Mas não gosto tanto de me posicionar publicamente sobre o assunto, pois ainda estou formando minha opinião a respeito de vários temas. Acredito que os jovens têm a necessidade de errar. E quando falo “jovens” eu não estou dizendo só adolescentes. Estou me referindo a toda a população mais jovem, entende? Às pessoas ativas e em formação intelectual.

L.F. – Mas você tem consciência de que foi um formador de opinião.

R.R. – Cara, eu tive a sorte de poder fazer contratos com uma boa gravadora que me permitiu me expressar através de minha música. Então eu usei essa música como qualquer artista usa sua arte pra poder dialogar com o mundo. A resposta que se tem é proporcional ao tamanho da exposição que as músicas tiveram nas rádios e nas lojas. Minha arte foi feita pra vender. E, com isso, me dar a possibilidade de dialogar com o maior número possível de pessoas. Minha música não me deixou rico. Bem longe disso. Consegui status. E nunca usei meu status pra posar de santo. É um trabalho artístico o que fiz, um bem cultural, só. Tão importante quanto o trabalho de um pedreiro. Quando vejo uma letra minha num livro didático escolar eu fico até um pouco preocupado. Mais preocupado que envaidecido. Pois as letras nem sempre são usadas no contexto que eu gostaria. Que País é Este é uma recordista nisso, não é? E nem é uma letra tão boa. Uma letra punk comum. Foi uma letra de revolta, natural. Não é tão aplicável e verdadeira, da forma como muitos pensam que ela seja. Afinal, há quem lute para respeitar a constituição deste país. Há homens públicos honestos.

L.F. – Você certa vez declarou que, do repertório da Legião, não gosta de Depois do Começo. Porque você disse que ela é pretensiosa e babaca? Sabia que muitos fãs adoram esta música?

R.R.Depois do Começo é uma canção feita de códigos indecifráveis. Alguns são indecifráveis até mesmo para mim, eu confesso. Moramos – veja eu falando como se ainda morasse aí – num mundo ocidental cristão, num continente cristão, num país cristão com famílias cristãs. Minha família, por exemplo, é católica, bastante religiosa. Toda a religião é feita de símbolos. Alguns deles são lindos, outros menos. É tolice lembrarmos apenas das mazelas proporcionadas pela religião. Há outras instituições bem mais claramente corrompidas do que a igreja. Com certeza, alguns integrantes dos Titãs também devam ficar incomodados com a música Igreja, que está no álbum Cabeça Dinossauro, que tem versos como “eu não gosto de Cristo”. É um posicionamento punk que eu até acho válido. Só que acaba trazendo desconforto às pessoas erradas, que não são o alvo da crítica. No caso da música do Legião, me traz desconforto ouvir minha voz cantando um verso como “Deus, Deus, somos todos ateus…”. É claro que minha família não gostou. Provavelmente o jovem que curtiu Monte Castelo também não gostou da letra de Depois do Começo, embora eu tenha explicitado que se tratavam de códigos fechados, e tal. Nem tudo ali é um convite à loucura de se brincar com a inteligência das pessoas que ficam tentando decifrar a letra, o que não é muito legal. Há coisas positivas em forma de mensagem implícita. Apesar disso, no geral, é uma canção negativa, que nada acrescentou à minha obra. Agora, quem gostou, que continue apreciando. Ela tem uma levada boa, eu sei. E no tocante a eu ser ou não ateu, como a letra pode sugerir no tal verso, eu também não tenho como te responder isso. Toda a construção das línguas e da cultura ocidental não conseguiu clareza numa definição do Deus cristão. Para eu te dizer se sou ateu ou não, nós teríamos que entrar numa longa discussão sobre o que se entende por Deus, como fez certa vez Russel com um padre. Aqui onde estou não falamos sobre Deus. Não pensamos nisso. Pensar ou não em Deus não faz muita diferença num lugar como esse aqui. Mas, no geral, não pensamos.

L.F. – Quanto à sua canção preferida, você certa vez declarou ser Giz.

R.R. – Ah, isso eu não penso mais. Não tenho mais canção preferida. Disse aquilo em um determinado momento em que aquela estética me agradou mais que outras. Fiquei sabendo que as preferidas do meu filho são Vento no Litorale Perfeição. Eu poderia ficar com estas então, pois são canções das quais eu me orgulho mesmo de ter feito em parceria com meus amigos, embora eu saiba que ele, Giuliano, vai ter outras preferências com o tempo. Mas Faroeste Caboclo é bastante especial, é rica e vibrante, e só foi possível graças àquela energia juvenil da qual eu estava impregnado. Quando ouvi minha mãe outro dia falar num programa de televisão sobre os “cavalos marinhos” da letra de Vento no Litoral, explicando à apresentadora que aquilo era uma alusão à minha homossexualidade, pois o cavalo marinho tem a característica de o macho dar a cria no lugar da fêmea, eu pensei: minha mãe me admirou e me respeitou exatamente como eu fui. É esse tipo de coisa que filhos e pais precisam ter. Reconheço, entretanto, que a barra é pesada, e colocar comida na mesa já é tão difícil… Não se pode esperar que haja nas famílias tempo para se refletir sobre a homofobia. Não dá pra conversar sobre isso numa mesa de jantar com toda a ponderação possível. Todos trabalham, estudam… Os horários são diferentes… Uma luta muito difícil pra todos. As famílias não dispõem de tanto tempo pra refletir sobre assuntos complexos. Os seres humanos vão aprendendo, sofrivelmente, com seus erros, dando cabeçadas. Não tem outro jeito.

L.F. – Em suas entrevistas você sempre falou bem pouco de sua vida pessoal, bem pouco sobre sexo e sempre usou muitas referências a outros artistas. Chegaram a dizer que você falava em terceira pessoa.

R.R. – Minha vida íntima não é mais interessante que a sua, nem que a de ninguém. Minha queixa sempre era o fato de perguntarem pouco sobre as letras e sobre os discos em si. Sexo? Bem… Sexo é algo do qual também pouco falamos por aqui. Aqui simplesmente fazemos. Estou desacostumado mesmo a falar de sexo e não me sentiria preparado pra te dizer algo. Fico bastante triste em ver as pessoas que não são felizes com o sexo – e isso quer dizer quase todo mundo. Há os que não conseguem serem felizes com o sexo. Há os que não fazem sexo. Aqui este problema não existe, ou existe em menor grau. Acho que pelo motivo de que as coisas neste lugar sejam tratadas com mais simplicidade. No entanto eu não gostaria que ninguém tivesse pressa em vir pra cá, a fim de resolver este problema do sexo. Há outros problemas aqui. Tem que haver problema, pois o bom de viver é estarmos sempre tentando resolver um problema. Sei que o sexo é o grande tema da humanidade. E não sei mais sobre o assunto agora do que sabia quando estava entre vocês. Não sei o que eu te responderia se me perguntasse se sou gay, por exemplo. E sobre eu fazer muitas citações: os artistas que costumeiramente eu citava foram minha referência cultural. É isso que todos fazemos, não? Falamos da nossa cultura. Uma coisa, porém eu corrigiria: falaria um pouco mais dos artistas brasileiros que me influenciaram. No entanto é inegável que rock internacional é mais importante pra mim do que o samba e a tradição musical brasileira. Digo pra minha formação, e até mesmo pro meu gosto. Apenas neste sentido, de ser algo que me diga mais. Mas gosto de muitos sambas também. A música do Legião tem alguns elementos de samba.(…)”.

L.F. – Você é otimista com o Brasil?

R.R. – Veja bem: no fundo não existe Brasil. Isso de nação e país são invenções. O que existem são humanos com territórios mal cercados. As culturas, no entanto, são muito parecidas. Os problemas também. Quanto aos habitantes deste território sob este Estado brasileiro, vejo pra essa gente um futuro otimista, sim. Não um céu, pois é algo que não existe. Nem tampouco um inferno, que é outra lenda. O Brasil é amador. Isso pode até vir a ser uma vantagem sobre alguns Estados velhos. O problema é que o hemisfério sul todo é uma vítima histórica do Mercantilismo e do Capitalismo. Sair dessa condição de vítima não é fácil. A alegria do povo brasileiro – que não é felicidade – mascara um estado de opressão a que o povo é submetido. Mas com as armas de que este povo dispõe… A melhor arma acaba sendo mesmo a paciência. Não a paciência de uma vaca num pasto. Paciência aliada à honestidade e, sobretudo, à criatividade, pode ser um grande instrumento. No longínquo dia em que não houver mais fronteiras nacionais, os homens e mulheres terão resolvido metade dos seus problemas. Todos não dá. Nem aqui temos tudo resolvido. Se aqui estivesse tudo resolvido já teríamos dado um jeito de resolver os problemas daí também. A morte resolve todos os problemas. Se não existe morte, é sinal que sempre existirá problema. Embora eu não saiba se exista ou não vida depois da morte. Eu não posso afirmar com certeza se este lugar onde estou existe ou se não passa de um programa sofisticado de computador.

L.F. – Quanto tempo acha que levaremos pra nos tornarmos uma nação próspera e igualitária?

R.R. – Não dá pra saber isso. Mas, com certeza, ainda nesse terceiro milênio. Você não deverá presenciar. Prepare sua filha. E a peça para que prepare o filho dela. Tudo vai depender dessa preparação contínua. Preparar é tão bom quanto ver a coisa pronta. Aliás… A “coisa” nunca está pronta. A preparação para a construção de um mundo melhor já torna o mundo melhor, embora haja dor nesse processo que também deve ser visto como prazeroso.

L.F. – Que tipo de música você tem ouvido? Tem escrito alguma?

R.R. – A música daqui é meio chata. Então ouço mais música da Terra. Há muita gente nova boa. Acho que vocês são meio intolerantes com os novos. Quando eu estava aí eu também valorizava mais os antigos. É natural. Não vou citar ninguém pra não ser injusto com outros. Por favor, ouçam mais as coisas novas. Não é pra adorar e colocar pôster na parede. Apenas ouçam com alegria.

L.F. – Você já pode conversar com algum músico importante por aí, como o Lennon?

R.R. – Sim, sim. John faz uns pães deliciosos. Que cheirinho bom tem a casa dele… Um quintalzinho com uma horta orgânica. É um homem feliz. Curiosamente, os que eram mais inquietos quando habitantes da Terra, chegando aqui acabam tornando-se os mais tranqüilos. Aqueles que eram mais paradões, não sei porque, chegando aqui se estressam.

L.F. – Quem mais tem visto?

R.R. – Muita gente boa. E aguardando outros, claro.

L.F. – Como, por exemplo, Dylan?

R.R. – Nem me diga, cara. Quando eu vi o jornalista e escritor Eduardo Bueno falando que morou uns tempos na casa do Dylan eu senti uma ponta de inveja. Bob Dylan só não vai ser recebido com festa, porque o pessoal por aqui não é disso.

L.F. – Obrigado, Renato.

R.R. – Foi um prazer.

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Sobre o Autor

Luciano Fortunato

Luciano Fortunato

Escritor.
"o menino é o pai do homem" (willian wordsworth);
"criar é dar forma ao próprio destino" (albert camus);
"...atire a primeira pedra" (yeshua)...

Ateu Cristão
Não creio em divindades de quaisquer religiões. Mas respeito profundamente quem crê no mundo místico, onde, aliás, vejo muita beleza. E como tenho como meu modelo pessoal o de Cristo, que é o exemplo total de tolerância, compreensão, conciliação, fraternidade, coragem e amor, sou levado, sem qualquer incômodo, a respeitar todas as religiões. Fé e ciência: ambos merecem respeito. Sou um homem curioso, preocupado em entender o ser humano e o mundo, e também a sentir a vida de forma grata... apesar de minhas posições políticas.
Preferência política: Simpatia pela esquerda

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