Música

Resistindo a todas as drogas Crítica – CD “Crosseyed Heart” – Keith Richards

Marcio Paschoal
Escrito por Marcio Paschoal

O cara já trocou o sangue todo, caiu de coqueiro na Bahia, namorou Anita Pallemberg e inventou um riffs porretas que carregaram os Stones nas costas. Já é avô, cheirou as cinzas do pai, continua vivo contra todas as previsões e nunca teve problema com drogas, só com a polícia. Keith Richards, o polêmico guitarrista da maior banda de rock do planeta, vem com seu terceiro disco-solo “Crosseyed Heart”.

Mudam os corações com o tempo, em 1964 a canção era a autoafirmação em “Heart of Stone”, agora o miocárdio atravessa desertos, mais generoso. Um dos hits dos Stones que Keith mais gostava era “Time is on my side”. De fato, o tempo anda a favor desse excêntrico personagem e excelente músico. Ron Wood implica com ele, dizendo a todo mundo que toca mais guitarra que ele, mas Keith dá de ombros. Tem suas simpatias com Lúcifer, todos sabem.

Desde o célebre álbum “Exile on Main St”, quando perderam grana e precisaram batalhar para recuperar algumas libras, Keith manifesta suas divergências musicais com o líder da banda, seu eterno parceiro Mick Jagger. Algo como cara e coroa, sol e lua, ou Brasil e Argentina no futebol. Não dá para contemporizar. Keith até admite qualidades no parceiro, como em “Brown Sugar”, por exemplo. Mas no que concerne à fidelidade de estilo, Keith nunca abriria mão de sua busca musical nas raízes negras do blues e na essência do country-folk.

Seu terceiro trabalho-solo tem Steve Jordan como baterista e produtor, além de eventual parceiro em algumas faixas. Como no rock “Trouble”, que, se não é um “Happy”, chega perto.

Os pintores têm as telas, os escritores, os papéis em branco, e os músicos, o silêncio. E Keith segue rompendo silêncios e paradigmas. O reggae é um estilo pouco habitual, mas aqui aparece na ótima “Love Overdue”, de Gregory Isaacs.

Mais blues king e velharia adorável em “Blues in the morning” deixando a guitarra fluir, ao lado do sax antigo e amigo de Bobby Keyes.

“Suspicious” tem melodia boa e a voz meio Dylan de Keith com a ajuda correta de Meegan Voss, artifício também bem utilizado na baladeira “Something for nothing”, com o coro gospel do Harlem.

Uma das maiores paixões de Keith, o blues, está bem representado na faixa-título, levada só na guitarra acústica, um dos pontos altos do disco, ao lado da folkíssima “Robbed blind” na melhor interpretação de Keith, rouco e grave, lembrando em alguns momentos Leonard Cohen. Não é nada parecido com o rockabilly star de Jagger, afinal é o próprio Keith quem garante: “as únicas coisas que Mick e eu discordamos são sobre a banda, a música e o que fazemos”.

O cd ainda tem Norah Jones em “Illusion”, parceria deles e Steve Jordan, com um solo de Keith no velho estilo, sombreando a doce voz de Norah.

O documentarista Morgan Neville, vencedor de um Oscar em 2014, acompanhou as gravações de “Crosseyed heart”, ensaios e turnês dos Stones para um curta promocional que acabou virando documentário elogiado pela crítica. Neville declarava a um jornal: “Keith é ele mesmo o tempo todo, uma pessoa divertida, despreocupada em proteger sua imagem, é raro encontrar um artista assim hoje em dia”.

Quem venham outros trabalhos autorais desse guitarrista teimoso em resistir a todas as drogas, inclusive as musicais. Vida longa a Keith Richards, que sempre nos alertou que viver não passa de uma arte de brincar com o tempo.

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Sobre o Autor

Marcio Paschoal

Marcio Paschoal

Escritor, economista (nem ele mesmo sabe por quê), letrista (com Ruy Maurity), crítico e pesquisador musical (autor da biografia João do Vale), é carioca, escreve em sites, jornais e publicou romances, contos, crônicas e ensaios.

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