Música

Tom Zé, Nivaldo Ornelas, Regina Machado, Dante Ozzetti, David Ganc

Marcio Paschoal
Escrito por Marcio Paschoal

Bem-vindo retrato musical de um esperto cronista de seu tempo, ainda que não unânime pela crítica e público (principalmente, este último), o baiano Tom Zé tem sua obra exposta no disco “Multiplicar-se Única – Canções de Tom Zé”, com a cantora Regina Machado, relembrando o trabalho do artista com esmerado tratamento e trazendo criativos arranjos. O próprio Tom Zé (já festejado em Cd de Betinha Calligaris, “Um tom do Zé”) surpreendeu-se com o feliz resultado. Não à toa o disco tem a produção e arranjos do craque Dante Ozzetti. Regina, com marcante presença na cena vanguardista paulistana, vem confirmando seu talento. Ousadas e provocativas, as composições de Tom Zé ganham belos registros, como na adoriniana “Augusta, Angélica e Consolação” ou em “Menina Jesus” e “O amor é velho-menina”. Bom rever letras como na sugestão da origem da bossa-nova em “João nos tribunais” (… se João Gilberto fosse aos tribunais cobrar direitos autorais…) ou na autocrítica irônica e bem-humorada (sem pleonasmo) de “Complexo de Épico” (…todo compositor brasileiro é um complexado…). Um disco indicado para se conhecer um pouco o viés de um artista alternativo e originalíssimo.

Outro artista merecidamente lembrado é o saxofonista mineiro Nivaldo Ornelas. Desta vez pelo craque da flauta, David Ganc. Com extensa discografia (destaque para o excelente “Caldo de Cana”), o flautista carioca, neste “Noturno – David Ganc interpreta a música de câmara de Nivaldo Ornelas”, mescla com maestria o erudito com o popular. A amizade entre os dois músicos nasceu no início dos anos 1970, quando Ganc, integrante da banda “A Barca do Sol”, abria os shows de Egberto Gismonti, que era acompanhado por Ornelas. O Cd tem o piano de Maria Teresa Madeira em todas as faixas, Zeca Assumpção, no baixo acústico em “Recife, Oh linda”, Mingo Araújo, na percussão de “Arraial do Bom Jesus”, e Iura Ranevsky, no violoncelo em “Sentimentos não revelados”. O disco mostra o lado mais erudito e quase desconhecido do músico mineiro. Destaque para as variações para flauta e piano (originalmente gravado com sax, em versão mais pop); a suíte Brasil/Holanda (seis movimentos, com alternância de ritmos); e “Noturno”(que nomeia o disco e primeira composição erudita de Ornelas).

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Marcio Paschoal

Marcio Paschoal

Escritor, economista (nem ele mesmo sabe por quê), letrista (com Ruy Maurity), crítico e pesquisador musical (autor da biografia João do Vale), é carioca, escreve em sites, jornais e publicou romances, contos, crônicas e ensaios.

Obrigado por visitar o nosso site.

Facebook
%d blogueiros gostam disto: