Quadrinhos

Quadrinhos e Cinema

Fabricio Mohaupt
Escrito por Fabricio Mohaupt

Cinema é feito de quadrinhos em movimento. Até a sarjeta, espaço que fica entre um quadrinho e outro, está presente no cinema e exige do espectador uma conclusão, ou seja, um preenchimento mental deste espaço entre os quadros, construindo mentalmente uma realidade unificada. Nos filmes, porém, esta conclusão acontece de forma contínua, vinte e quatro vezes por segundo, que é o número de quadros que se sucedem em cada segundo de um filme. Nossas mentes transformam uma série de imagens paradas numa história em movimento contínuo. A diferença básica está na justaposição. Enquanto nos quadrinhos cada quadro ocupa um espaço adjacente, justaposto, no filme, cada um é projetado no mesmo espaço, a tela. O espaço é para os quadrinhos o que o tempo é para o filme.

Outra diferença básica está no tipo de linguagem. Ambas as artes são essencialmente narrativas, mas a dos quadrinhos é verbo-visual, já a do cinema é áudio-visual, não necessita de balões e onomatopéias, o que não quer dizer que, por vezes, não faça uso deles. O som dá ao cinema recursos que a nona arte não possui, recursos que ela tenta criar de forma diferente. A sétima arte usa o áudio de diversas formas, para ocupar o lugar dos balões, por meio dos diálogos, para emocionar, por meio da música ou pela ausência de, para ambientar o espectador, por meio de sons e ruídos, entre outras.

O cartunista curitibano Edson Tako X, um dos criadores do personagem O Gralha, em entrevista ao site O Gralha, comentando como foi a sua transição da nona arte para a sétima arte – ele fez uma adaptação dos seus quadrinhos –, explica que Cinema é ilusão. É você mostrar apenas uma parte da realidade e fazer o espectador preencher o resto com a imaginação dele. Neste aspecto é muito parecido com os quadrinhos que também usam de fragmentos da realidade para contar uma história. E com uma diferença básica: enquanto nos quadrinhos a ilusão é parcial (o que você vê são desenhos e não há som), exigindo do leitor um grau de cumplicidade maior, no cinema a ilusão é mais completa (principalmente no live-action), então você tem que ser mais convincente na criação da sua ilusão. O espectador quer ser surpreendido, enganado mesmo, voluntariamente, mas você não pode ofender sua inteligência porque ele quer acreditar no que está acontecendo na tela, nem que seja por alguns minutos (suspensão temporária da realidade – como citado por Syd Field).

Significa dizer que, mesmo havendo mais recursos no cinema, a vida do cineasta não é mais fácil que a do quadrinhista, uma vez que a sua ilusão deve ser mais “real”, há um compromisso ainda maior com a verossimilhança.

Segundo Jean-Claude Bernardet, professor, ator e roteirista, em seu livro O que é cinema, a linguagem do cinema desenvolve-se com o intuito de torná-lo apto a contar histórias. Os passos fundamentais para a elaboração dessa linguagem foram a criação de estruturas narrativas e a relação com o espaço. Esta estrutura narrativa criou-se aos poucos e, hoje, temos facilidade para entender estruturas complexas, mas, mesmo assim, quando um cineasta tenta experimentar, criar uma inovação, podemos confundir-nos e até mesmo não entender.

Adaptar: verbo intransitivo? Perguntou a então aluna Gabriela Lírio Gurgel, em sua tese de mestrado Lição de amor: a intransitividade de uma adaptação. Intransitivo, segundo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, é o que se diz do verbo cuja ação não transita do sujeito a nenhum objeto, é um verbo que não precisa de complemento, ou seja, ele se basta. Entretanto, o verbo adaptar é, na verdade, bitransitivo. É óbvio que há um trocadilho na pergunta com a obra que estuda: Lição de Amor, do diretor Eduardo Escorel, é uma adaptação da obra Amar, verbo intransitivo, do saudoso autor Mário de Andrade. Mesmo sabendo disso, a pergunta fez um estalo.

 

“Histórias em quadrinhos são a fantasmagórica fascinação daquelas pessoas de papel, paralisadas no tempo, marionetes sem cordões, imóveis, incapazes de serem transpostas para os filmes, cujo encanto está no ritmo e dinamismo. É um meio radicalmente diferente de agradar aos olhos, um modo único de expressão. O mundo dos quadrinhos pode, em sua generosidade, emprestar roteiros, personagens e histórias para o cinema, mas não seu inexprimível poder secreto de sugestão que reside na permanência e imobilidade de uma borboleta num alfinete”. (Fellini, em Viagem a Tulum, 1991. Junto com Milo Manara)

 

Intransitivo, segundo Antonio Houaiss, também quer dizer aquilo que não se pode transmitir ou passar a outrem; intransmissível.

Adaptar, também segundo Antonio Houaiss, significa modificar (obra escrita) para torná-la mais de acordo com o público a que se destina ou para transformá-la em argumento ou roteiro de cinema, televisão, rádio etc.

Há uma enorme dificuldade em se adaptar a linguagem escrita à linguagem áudio-visual, daí a discussão sobre transitividade ou intransitividade, se adaptamos, se transpomos, se traduzimos ou se baseamos. É uma discussão antiga, estudada por diversos apaixonados pelas duas artes, pessoas como Sebastião Uchoa Leite, Jean Epstein, Jorge Furtado, entre outros.

O cineasta Jorge Furtado, em palestra na 10ª Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo/RS, em 2003, lançou mão de argumentos interessantíssimos sobre o tema, um dos que mais chama a atenção é a observação que faz sobra a primeira frase do livro A Metamorfose de Kafka: Ao despertar após uma noite de sonhos agitados Gregor Samsa encontrou-se em sua própria cama transformado num inseto gigantesco. Segundo ele, esta frase disse tudo que é preciso saber para que a história comece. Cada um de nós, leitor, imaginou a sua própria cena, o escritor nos informa apenas aquilo que ele julga ser necessário, o leitor imagina todo o resto. Entretanto, os cineastas – e os roteiristas – precisam fazer grande parte do trabalho do leitor. Qual a cor do inseto? É uma cama de madeira ou de metal? Qual a cor das paredes do quarto? Como é a luz do quarto? Há uma janela? A luz entra pela janela? Através da persiana ou através das cortinas? Como é o piso desse quarto? É de madeira ou está coberto por um tapete? A cama tem lençóis? Há outros móveis no quarto?

Apesar de todas estas dificuldades, a relação da Literatura com o Cinema é antiga e está longe de encontrar um fim. É estatístico que a grande maioria dos filmes produzidos tem roteiros adaptados.

Os quadrinhos não têm uma história muito boa no cinema, até muito recentemente, as tentativas de levá-los às telas nunca foram muito bem sucedidas. Muitas delas foram criadas para a televisão e acabaram engavetadas ainda como pilotos.

Um personagem dos quadrinhos tem sua história contada, mensalmente, por anos e anos a fio. Batman, por exemplo, tem quase 70 anos de histórias. Não se adapta uma história, com começo, meio e fim, sobre um personagem de quadrinhos, mas um mito que levou anos construindo-se e que assim continua. Nestes tantos anos de histórias do cavaleiro das trevas, houve erros e acertos dos argumentistas, que, no afã de criar boas histórias, tomavam liberdades criativas que, em alguns casos, eram mal recebidas pelos fãs e, em outros, geraram contentamento. Deve-se levar em consideração toda a sua trajetória, não apenas um momento do personagem. Isso só vem ocorrer quando do lançamento do filme X-Men, em 2000, pelas mãos do diretor Bryan Singer, que fez um filme com vários personagens de importância, ao mesmo tempo fiel a todo o background dos quadrinhos, de onde sai a grande maioria dos chamados super-heróis, e acessível ao público leigo em gibis. O diretor Bryan Singer, o roteirista David Hayter e o produtor Tom deSanto souberam dosar todos os ingredientes e tirar proveito dos 38 anos de aventuras desses personagens, ou seja, mantiveram a essência do mito, que vem a ser aquilo que define cada um destes heróis, suas características, seus trejeitos, sua personalidade, sua maneira de falar, seu modo de agir. O personagem Wolverine, levado às telas por Bryan Singer, no mencionado X-Men, é um homem em busca de si mesmo, violento, cheio de gírias, agressivo e desconfiado, mas honrado, bom e leal, exatamente como nos quadrinhos. Mantendo-se a essência do mito, consegue-se o sucesso da adaptação. É o que tem havido com os novos filmes, como Spider-man, de Sam Raimi, levado às telas em 2002 e que é um sucesso incontestável. Os que resultam em fracasso são justamente aqueles que fogem disso, foi o que aconteceu com os recentes Catwoman e Elektra, que fizeram das personagens-título apenas sombras do que são nos quadrinhos.

 

“Estou sinceramente convencido de que a arte dos quadrinhos é uma forma de arte autônoma. Reflete sua época e a vida em geral com maior realismo, e, graças a sua natureza essencialmente criativa, e artisticamente mais válida do que a mera ilustração. O ilustrador trabalha com máquina fotogrófica e modelos; o artista dos quadrinhos começa com uma folhade papel em branco e inventa sozinho uma história inteira — é escritor, diretor de cinema, editor e desenhista ao mesmo tempo”. (Alex Raymond)

 

A questão da adaptação como algo complicado, intransmissível, fica explicada, no que tange a quadrinhos para o cinema, pela falta de fidelidade ao mito do personagem. Não dá para falar em Batman sem falar em sombriedade, em escuridão, afinal, ele é o Cavaleiro das Trevas e não o sorridente, colorido e homoerótico personagem criado por Joel Schumacher em Batman Forever e em Batman & Robin. Quando os cineastas começaram a adaptar os quadrinhos sendo fiéis à sua mitologia, começaram a transformar o verbo em bitransitivo.

A recente onda de produçães baseadas em quadrinhos faz-nos pensar o que mudou para este tipo de filme ter-se tornado, de uma hora para outra, um enorme potencial. Robert Levine e Scott Alexander, em matéria publicada na revista Playboy do mês de abril de 2006, dizem que a partir de X-Men, de Bryan Singer, em 2000, Hollywood descobriu como adaptar quadrinhos para as telas. Cremos que Hollywood começou a perceber a importância de se respeitar o mito, de se adaptar o personagem sem desconsiderar toda a sua jornada.

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Sobre o Autor

Fabricio Mohaupt

Fabricio Mohaupt

Rato de bancas de jornal, livrarias, sebos e obscuras salas de cinema. Escapista apaixonado por HQ's, livros, filmes, séries e música. Pai, marido apaixonado, carioca, torcedor do Flamengo, Maçom, Umbandista, cronista amador, roteirista aprendiz, metido a colunista, poeteiro sem métrica e de pouca rima, crítico descompromissado, futuro romancista, botequeiro (favor não confundir as sílabas) e um feliz estudante e entusiasta da vida e de psicologia, que nada sabe, mas muito quer aprender.

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