Quadrinhos

Quadrinhos e Educação

Fabricio Mohaupt
Escrito por Fabricio Mohaupt

Lembro quando meu pai deu-me o primeiro gibi. Era um almanaque de heróis da Marvel, uma das principais editoras americanas. Eu fiquei maravilhado com os desenhos e as aventuras de heróis que voavam, andavam pelas paredes, disparavam raios e ainda se preocupavam com a vida que levavam quando assumiam suas identidades secretas. Mas meu pai só comprava as revistas que ele gostava e eu – ah! – eu queria mais. Comecei a guardar o dinheiro da merenda para comprar os outros gibis que meu velho não trazia. Foi assim que comecei a escalar a montanha sem fim da minha história de leituras, primeiro nos quadrinhos, depois nos livros.

Em minha relação com os quadrinhos, encontrei extremos nas tentativas de defini-los. O que para uns é “uma das maneiras mais saudáveis de escapismo”, para outros “não passa de um gibi imbecilizante”. Entretanto, para mim, os quadrinhos, representam o começo de minha história de leitura, o meio pelo qual as portas do mundo literário se abriram e nunca mais se fecharam. Eles são, de certa forma, aquilo que me instigou a ler cada vez mais e melhor. Mais, porque as referências usadas atiçam minha curiosidade de leitor, fazendo-me buscar informações complementares em outros tipos de leitura, sejam técnicas, por causa das idéias científicas usadas, sejam literárias, por causa das citações feitas, ou seja, por causa da intertextualidade. Melhor, porque ajudam a desenvolver o vocabulário, a aprender a diferençar os registros da língua, através de personagens de meios diferentes, com personalidades diferentes, mas que interagem, entre outros benefícios.

Escutei muitas críticas e piadas por ler meus gibis, ainda há muita gente que crê que os quadrinhos são uma arte sem mérito, um tipo de leitura fácil e preguiçosa. Mas creio que, finalmente, estas pessoas estão perdendo terreno. Pesquisas comprovam que alunos que lêem quadrinhos têm melhor rendimento escolar que aqueles que usam apenas o livro didático. Em alguns casos, o benefício obtido com a nona arte, a arte seqüencial dos quadrinhos, é maior que o existente quando há contato dos estudantes somente com livros ou revistas, o gibi chega a quase dobrar a performance do aluno. Quando li sobre isso, eu me vi entre estes alunos, não que eu tenha tornado-me um aluno brilhante, mas com certeza comecei a olhar os livros com outros olhos.

A verdade é que o conhecimento humano é transmitido pela linguagem, e esta pode ser verbal ou não-verbal. A linguagem figurada foi o processo pelo qual o homem começou a se comunicar, representando suas idéias por meio de desenhos. A linguagem verbal, a que tem na palavra falada ou escrita o seu código, veio para tornar as comunicações mais precisas, mas, de maneira alguma, veio para tomar o lugar da linguagem não-verbal.

Os quadrinhos fazem uso da união destas duas linguagens, que se complementam, numa dupla articulação. A história em quadrinhos é narrada por meio de dois canais, visual e lingüístico, e é fascinante, pois sua linguagem tem um potencial enorme, que alia as vantagens das palavras à beleza das imagens. Esta linguagem, que poderíamos chamar verbal figurada ou verbo-visual, é rica, cheia de características, detalhes e recursos, que, se bem aproveitados, podem gerar aulas tão fantásticas quanto o Quarteto Fantástico, desempenhos tão espetaculares quanto o Homem-Aranha e aproveitamentos tão incríveis quanto o Hulk. Podemos explorar os elementos da linguagem, a maneira como interagem, os registros da língua, noções de gramática, a narrativa, a criação dos alunos, enfim, uma gama enorme de possibilidades, que só tem a nós mesmos como limite.

Nosso país ainda vive uma situação caótica em termos de educação, há muitas crianças fora da escola e as que estão na escola, com a maldição da aprovação automática, na sua maioria terminam o ensino fundamental sem saber ler e escrever direito. A leitura dos livros é encarada como uma guerra, pois estes são considerados inimigos até pelos pais dos alunos. Entretanto, o gibi é apreciado com simpatia, quase aluno nenhum o dispensa, quer seja ele um da Turma da Mônica, do Menino Maluquinho, da Disney, de super-heróis da Marvel, DC ou Image, de cowboys ou dos mangás japoneses. Os quadrinhos são sempre bem aceitos e propiciam prazer durante a aprendizagem. Esse potencial não pode e nem deve passar despercebido pelos professores, que devem fazer uso da incomensurável capacidade da linguagem verbo-visual, uma vez que esta une o útil ao agradável.

Para se ter uma idéia do que a arte quadrinhística pode oferecer, basta estudarmos um único elemento dela: a sarjeta, também conhecida como corte gráfico, que vem a ser o espaço entre um quadrinho e outro. Em um primeiro momento podemos pensar que não há nada ali, que é apenas um espaço vazio, mas isto é um ledo engano. Este pequeno espaço exige do leitor participação, experiência e imaginação enormes, pois é aqui que sua mente deve trabalhar para criar uma ponte entre um quadro e outro, uma vez que nada é visto entre os dois quadros, mas algo está lá, algo que faça a ligação. Esta ponte, este elo que desenvolve o raciocínio, que exercita o pensar é o que chamamos conclusão. A sarjeta é essencial para os quadrinhos, pois demarca seu espaço narracional, por meio da participação e da conclusão do leitor. É possível haver histórias em quadrinhos sem balões, mas nunca sem cortes.

A linguagem dos quadrinhos, por sua condição de linguagem verbo-visual, tem como limite apenas a imaginação dos seus usuários, os autores e os leitores. Não há limites de gênero e forma. Aqui reside a beleza dos quadrinhos, numa linguagem que não tem limites, que está em constante evolução, e que, se for totalmente dominada, pode criar maravilhas sem fim.

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Sobre o Autor

Fabricio Mohaupt

Fabricio Mohaupt

Rato de bancas de jornal, livrarias, sebos e obscuras salas de cinema. Escapista apaixonado por HQ's, livros, filmes, séries e música. Pai, marido apaixonado, carioca, torcedor do Flamengo, Maçom, Umbandista, cronista amador, roteirista aprendiz, metido a colunista, poeteiro sem métrica e de pouca rima, crítico descompromissado, futuro romancista, botequeiro (favor não confundir as sílabas) e um feliz estudante e entusiasta da vida e de psicologia, que nada sabe, mas muito quer aprender.

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