Cultura

Um exemplo de superação: escritora produz arte com os pés

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Escrito por Redaçao

Priscila de Toledo Fonseca lançou o livro “Poemas” em 2006 com o propósito de homenagear os amigos. O lançamento aconteceu no Museu da República e chamou a atenção da classe poética do Rio de Janeiro, que compareceu em peso ao evento. Aos 21 anos, a poeta demonstra em suas páginas o seu dia a dia, sua história de menina dedicada aos estudos e amável com aqueles que a cercam e, claro, sua lavoura poética. No livro, Priscila também expõe seus desenhos feitos no computador. Sua proposta literária e os desenhos, além da surpreendente riquesa de sensíveis detalhes, denotam um fator surpreendente: foram todos produzidos com os pés. Isso, porque Priscila é portadora de uma deficiência, a Paralisia Cerebral, que limita seus movimentos e impede a sua comunicação através da fala. Seu convívio com o computador se tornou necessário para poder se inserir na sociedade de uma maneira mais satisfatória e, hoje, com o advento da internet, a jovem escritora conseguiu ganhar voz para trocar experiências com internautas de todo o Brasil e tentar mudar o panorâma daqueles que possuem a mesma limitação física que ela.

A entrevista:

Crônicas – Priscila, o que a motivou escrever um livro de poemas?

PRISCILA – Essa é uma pergunta que acho estranha para um artista responder, pois muitas vezes não se acha respostas. Mas respondendo, o que me motivou e ainda me motiva a escrever é o amor dos meus amigos.

Crônicas – Priscila, você lançou o seu primeiro livro. Você já se considera uma escritora?

PRISCILA – Não. Meus poemas surgiram na minha cabeça com os sentimentos de saudade, amor… Mas não me vejo uma escritora, pois nem gosto muito de escrever.

“Nunca namorei, sempre me apaixonei. Amor é difícil para mim. Acho que sou fraca em relação a isso. Sempre enfrento de frente e falo que gosto da pessoa, mesmo sabendo o que ela vai falar. Algumas vezes me arrependo e caio numa depressão muito forte, que pessoalmente não parece, pois estou sempre rindo e bem”. Priscila de Toledo Fonseca em “Poemas”.

Crônicas – O sua poesia surpreende por não conter traços de conforto, percebe-se que você possui uma estética própria que recusa a facilidade de conceitos fúteis. Como foi o seu processo criativo para escrever os poemas?

PRISCILA – Para um escritor a criatividade surge da situação que ele esta vivendo. Tinha muita saudade na época que escrevi os poemas e um amor não correspondido.

Crônicas – A classe poética ficou tocada com a sua força e determinação e reconheceu o seu talento. Você tem pretensão de seguir a carreira de escritora ou fazer uma faculdade que lhe estimule a escrever mais?

PRISCILA – Pretendo continuar escrevendo para me divertir. Não pretendo trabalhar como escritora e nem fazer faculdade de letras

Crônicas – Você tem amigos que possuem a mesma condição física que você e, com o advento da Internet, você pode conversar de forma mais livre com esses amigos. Como era antes do computador?

PRISCILA – Tenho 21 anos e 16 anos que convivo com o computador. Claro que não tinha internet há 16 anos, mas tudo foi se transformando a medida que eu vivia e conhecia o mundo. Para meus amigos que são mais velhos do que eu foi uma luta cansativa antes do aparecimento do computador

Crônicas – No prefácio do seu livro, você conta um pouco de sua história, com uma narrativa emocionante sobre paixões e situações que a vida lhe impôs. Você pensa em escrever uma auto-biografia ou livros que abordem o universo íntimo e histórias dos portadores de deficiência?

PRISCILA – Ainda sou nova e não vivi o que queria para escrever uma auto-biografia. A hora que eu tiver vivido para saber muito bem desse mundo que me rodeia, escreverei minha vida para ajudar o futuro.

Crônicas – Você gostaria de, através da sua literatura, ser a voz de sua comunidade, de pessoas que, como você, lutaram contra o preconceito e a limitação física, para ter uma condição igual a de outras pessoas?

PRISCILA – Não é para dá uma lição de moral que escrevo os poemas. Mas se com o que escrevo for mudar o modo de pensar das demais pessoas, acho ótimo.

Crônicas – O que precisa melhorar de infra estrutura no Brasil para o melhor atendimento ao deficiente físico portador de paralisia cerebral? As pessoas precisam mudar alguns de seus conceitos em relação a esse assunto?

PRISCILA – Já mudou muito. Mas sempre nós deficientes teremos que lutar contra o preconceito, falta de estrutura e varias outros fatores. Vai mudando os poucos, pois há muito o que mudar e para acontecer ainda “(…) com o amor dos meus pais, virei uma criança feliz e saudável. Aos cinco anos mudamos de Brasília. Fomos morar na cidade de minha mãe, em Belo Horizonte. Meu pai ia visitar minha irmã e eu, nas férias, levava a gente para Brasília. Minha mãe me colocou numa escola para especiais chamada “brincar”. Essa escola separava os que tinha condições de serem alfabetizados dos que não tinham. Lá, fui alfabetizada pelo primeiro método de alfabetização em computadores do Brasil. Depois que aprendi a usar o computador, ele virou tudo na minha vida. Minha fonte de comunicação, meu caderno e minha prancheta de estudos”

Crônicas – Como fazer para adquirir o seu livro?

PRISCILA – Pelo meu e-mail pri.tfonseca@yahoo.com.br basta falar que quer meu livro que responderei explicando como faz.

Crônicas – Você gostaria de deixar um recado para os leitores e colaboradores da Revista Eletrônica “Crônicas Cariocas”?

PRISCILA – Ao olhar para um deficiente pense que ele é uma pessoa como você, que tem sentimentos e sensibilidade. Para os deficientes que estão lendo, lutem pelo futuro de um mundo melhor mesmo que você não veja as suas mudanças. São os pequenos atos que fazem a diferença. E finalmente obrigada ao repórter pela oportunidade.

Abaixo, um poema da jovem escritora:

DESEJOS
Priscila de Toledo Fonseca

Eu quero
Eu desejo
Seu olhar
Sua boca
Seu Carinho
Apenas por uma noite
Uma mísera hora

Meu desejo carnal
Que me consome
E que nunca será
Realidade
Porque você nunca irá
me olhar
Como eu te olho

Apenas por uma hora
Não queria ser eu
mesma
Queria apenas por uma
Hora ser como as outras
garotas
Ser olhada
Ser desejada
Ser admirada
Por você

Mas isso…
É melhor ficar somente
Nos meus pensamentos
Nos meus sonhos
Aflitos…

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