Diversidade Oficina Literária Márcio Paschoal

Oficina Literária de Márcio Paschoal

Texto: “Fale com a mãe somente o indispensável”
Autora: Flávia Bessone
Supervisão: Márcio Paschoal

– Não me sinto velha. Os outros é que não me deixam esquecer a idade que tenho.

Ouvi esta piada de minha mãe quando tinha 15 anos. Quer dizer, ouvir é modo de dizer. Porque, aos 15, a verdade é que eu não ouvia absolutamente nada do que minha mãe dizia, muito menos em tom de piada. Não por falta de amor, entendimento, ou diálogo. Apenas não passava pela minha cabeça adolescente que, da boca de uma mulher de 45 anos, pudesse sair qualquer idéia relevante – que dirá engraçada.

Não me lembro da cena em detalhes, mas imagino que minha reação tenha sido um sorriso amarelo que, se pudesse ser traduzido em palavras, soaria mais ou menos assim: “gostaria que você calasse a boca o mais rápido possível”. Percebendo meu desinteresse, minha mãe fechou a matraca, e eu pude seguir me preocupando com as importantíssimas questões da minha vida de então: o cara que não me dava bola, o cabelo que não era tão liso quanto eu desejava etc.

O tempo passou, e meus problemas foram se tornando mais respeitáveis, mas não menos absorventes. Carreira, casamento, filhos e grana ocuparam todos os espaços da minha cabeça, enviando o resto para as pastas empoeiradas do arquivo morto mental. Foi provavelmente numa delas que a piada de minha mãe sobre a velhice caiu. E lá ficou por muito tempo.

Então vieram meus 40 anos. E um belo dia, a frase veio inteira à minha cabeça, como se tivesse sido ouvida na véspera.

Aconteceu assim.

Estou levando meu filho, então com 15 anos, e três de seus amigos a uma festa. Dirijo com um ouvido no trânsito e outro na conversa dos garotos, que acho fascinante, com seu vocabulário, forma e temática próprios. Lá pelas tantas, ouço meu filho dizer:

– Aí, leque. Já ouvi falar de cerveja sem álcool, mas vinho sem álcool? Isso não existe!

– Mas tem. Tenho certeza que tem!

– Claro que tem. Se chama su-co de u-va.

– Mermão, tô dizendo que tem!

– Ah, tá. Então fala aí, qual é o vinho que não tem álcool?

Eu sei que deveria ter ficado calada, mas foi mais forte do que eu. O trocadilho do vinho sem álcool é um clássico! Eu não tinha o direito de privar as novas gerações dessa pérola do humor nacional.

Aproveito um sinal fechado, viro para trás e mando:

– Ovinho de codorna!

Os meninos se entreolham, sem compreender, enquanto eu sorrio, triunfante. O sinal abre, alguém buzina atrás de mim, e sou obrigada a virar de frente para o volante. Ao faze-lo, vejo meu filho olhando para fora do vidro, com uma expressão de quem torce para que um acidente fatal o mate o mais rápido possível.

Enquanto ponho o carro em movimento, um deles arrisca:

– O que foi mesmo que você falou, tia?

– Ué, você não perguntou qual é o vinho sem álcool? Então: é o…vinho de codorna.

Espero as risadas enquanto passo a marcha, mas elas não vêm. Então dou uma olhada de soslaio pelo retrovisor. Vejo as três carinhas espinhudas sorrindo o mesmo sorriso amarelo que eu destinava às irrelevâncias de minha mãe.

É nesse momento que cometo o segundo erro do dia (o primeiro tendo sido, claro, fazer o trocadilho). Pergunto a meu filho:

– Foi tão ruim assim, a minha piada?

No que ele responde, com rancor:

– Péssima!

Percebo tarde demais: devia ter permanecido quieta, cumprindo calada minha função de mãe, que é fornecer transporte de bico fechado. Imediatamente me vêm à cabeça aquelas placas pregadas no interior de certos ônibus, que sempre considerei ofensivas: “fale com o motorista somente o indispensável.”

Estou prestes a chorar quando uma das caras espinhentas corre em meu socorro.

– Até que, pra piada de mãe, não foi tão ruim assim…

Sorrio pelo retrovisor, cheia de gratidão. Mas refreio o impulso de agradecer, pois aprendi a lição: aos 15, mãe boa é mãe calada.

Naquele momento, compreendi o que minha mãe sentia aos 45. É duro saber que suas roupas, idéias, gírias, gosto musical estão progressivamente virando relíquias. E nada como ter um filho (ou filha) de 15 anos para ser lembrado disso diariamente.

Para mim, este é o aspecto mais desconcertante da maturidade. Com as pré-rugas é possível negociar – taí a toxina botulínica que não me deixa mentir. A flacidez que ameaça as carnes pode estacionar, se atacada de frente (e de preferência de costas também). Tintura capilar, malhação, regime, lipo, massagens: inúmeras são as armas na luta contra a face mais externa do envelhecimento. Mas não há produto ou procedimento capaz de convencer uma criatura de 15 anos a achar graça da piada da mãe. E isso dói.

Flavia Bessone é roteirista.


O escritor Márcio Paschoal manteve entre os anos 2009 e 2010 uma Oficina Literária que resultou em crônicas, contos e poesias produzidos pelos alunos do curso em que ministrou. Do resultado das dezenas de textos escritos, surgiu a parceria com o nosso portal e foram publicados logo após o término do curso. A partir de hoje, e a cada segunda-feira, o CRÔNICAS CARIOCAS reproduz todos esses escritos novamente. E, para abrir a seção, relançamos a crônica “FALE COM A MÃE SOMENTE O INDISPENSÁVEL”, da roteirista Flávia Bessone. Boas leituras!

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Sobre o autor

Oficina Literária Marcio Paschoal

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O escritor Márcio Paschoal manteve entre os anos 2009 e 2010 uma Oficina Literária que resultou em crônicas, contos e poesias produzidos pelos alunos do curso em que ministrou. Do resultado das dezenas de textos escritos, surgiu a parceria com o nosso portal e foram publicados logo após o término do curso. A partir de hoje, e a cada segunda-feira, o CRÔNICAS CARIOCAS reproduz todos esses escritos novamente.

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