Entrevistas Festival do Rio

Cidadão do Mundo: uma entrevista com Juan José Campanella

Fotos: Erika Liporaci
Erika Liporaci
Escrito por Erika Liporaci

O cineasta argentino Juan José Campanella tem uma trajetória admirável. Sua filmografia inclui, dentre outros sucessos, O Filho da Noiva, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2001 e uma das produções argentinas de maior sucesso mundo afora. Atualmente, Campanella divide seu tempo entre a direção de séries de TV nos Estados Unidos (Lei & Ordem, House) e seus projetos mais pessoais, rodados na Argentina. De passagem pelo Festival do Rio para divulgar seu novo longa-metragem, O Segredo de Seus Olhos, o cineasta bateu este papo exclusivo com o Crônicas Cariocas. É sua primeira visita ao Rio de Janeiro, embora ele tenha já estado no Festival de Gramado em duas ocasiões: em 2000, com O Mesmo Amor, A Mesma Chuva, e dois anos depois, com o Filho da Noiva – ocasião em que voltou para casa levando dois Kikitos.

Erika: O teu novo filme pode ser classificado como um policial, mas trata temas como assassinato e vingança de um modo bem mais sensível do que se vê habitualmente. E o personagem do Darín (Ricardo Darín, ator-assinatura de Campanella) também é bem diferente dos tipos noir, ao estilo Bogart.


Campanella: Sim, exato. O que mais me agradou no livro foi justamente o fato de ser um romance policial “com gente normal”. Não tem o detetive decadente, a mulher fatal, os mafiosos. Era uma gente muito comum, muito normal. E eu não classifico apenas como um filme policial, porque é um policial com história de amor. Para mim, pesa até mais a história de amor. Pelo menos, eu tentei colocar nesse filme o mesmo sentimento presente em outros filmes meus.

Erika: E o que te encanta na interpretação de Ricardo Darín, quase sempre protagonista de tuas histórias?

Campanella: 
Ah, muitas coisas. Ricardo entende muito facil e intuitivamente esse tom que transita entre o trágico e o cômico, e tudo o que há de ridículo nas tragédias. Além do mais, ele tem uma forte empatia com o público e é uma pessoa muito carismática na tela. Para completar, eu o conheço há muitos anos e isso facilita o entendimento. Então, tudo isso contribui para que estejamos sempre trabalhando juntos.

Erika: E sobre a carreira nos Estados Unidos, com as séries de TV? É muito diferente o sistema de trabalho?

Campanella: Eu sou muito influenciado pelo cinema americano dos anos 70 e não vejo grande diferença entre trabalhar na Argentina ou nos Estados Unidos. As pessoas sempre esperam que eu diga que é muito diferente, mas, na verdade, não é. A mecânica de trabalho é a mesma, as equipes trabalham de forma muito parecida em qualquer lugar do mundo. Se há alguma diferença, é em termos de linguagem visual entre a televisão e o cinema.

Erika: Como é ser um homem de cinema na América do Sul?

Campanella: 
É que eu não me considero um homem de cinema, embora viva disso e me conheçam pelos meus filmes. (rindo) O que quero dizer é que eu não me sinto tão definido assim pelo meu trabalho. Tenho minha família e outros interesses… Também não acredito em classificar alguém como argentino, latino-americano ou qualquer outra coisa. Não falo isso no sentido de querer me sentir europeu ou algo assim, e sim porque eu não me sinto preso a um lugar. Não sei se vão me interpretar mal…

Erika: Seria por isso que você prefere contar histórias de apelo universal nos teus filmes?

Campanella: Sim. O contexto das minhas histórias é bem portenho, mas pode falar de qualquer grande cidade do Ocidente. Nesse aspecto, eu tenho muito mais proximidade de uma pessoa do Rio, de São Paulo ou qualquer outra metrópole do que de alguém lá dos confins da Argentina, por exemplo. Acho que os grandes centros urbanos todos se parecem.

Erika: Para encerrar, uma pequena polêmica. A velha rivalidade entre Brasil e Argentina se estende ao cinema também?

Campanella: Não, infelizmente não. Não sei como é aqui com os nossos, mas os poucos filmes brasileiros que chegam lá são apenas os violentos, como Tropa de Elite e Carandiru. Às vezes fazem sucesso umas novelas, mas filmes são poucos. Não entendo porque não se faz a semana do filme brasileiro na Argentina, semana do filme argentino no Brasil. Quando acontece, é só entre cinéfilos. Eu creio que há mais no cinema daqui do que miséria e violência. Eu adoraria ver uma comédia de classe média brasileira, por exemplo. E a imagem que acaba sendo vendida é de coitadinhos, mostrando apenas esse aspecto como se fosse só o que ocorre aqui. Se fosse assim, eu não poderia estar agora aqui, conversando com você em um festival de cinema.

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Sobre o Autor

Erika Liporaci

Erika Liporaci

*ERIKA LIPORACI é graduada em Jornalismo, pós-graduada em Artes Cênicas e especialista em cultura e língua italiana.

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