Entrevistas Festival do Rio

Gerardo Herrero

Fotos: Erika Liporaci
Erika Liporaci
Escrito por Erika Liporaci

Produtor requisitado, com mais de 90 filmes no currículo, o espanhol Gerardo Herrero também costuma transitar atrás das câmeras quando se encanta por algum projeto em especial. Foi assim com O Corredor Noturno, filme que traz Herrero pela primeira vez ao Festival do Rio – o que possibilitou que ele concedesse essa entrevista exclusiva para o Crônicas Cariocas.

Erika: Você trabalha mais como produtor do que como diretor. O que te apaixonou no livro O Corredor Noturno para que resolvesse assumir a direção?
Gerardo: Na verdade, eu já dirigi doze ou treze filmes (segundo o IMDb, 16). Mas ganho a vida como produtor. E de vez em quando aparecem histórias que eu mesmo quero contar, como foi o caso desta. O que eu gosto nesse filme é poder falar também do cotidiano, porque ele tem duas tramas: é um thriller na superfície, mas também um filme que me permitiu falar sobre as relações de poder, ambição, o que se faz para manter o posto, o duplo, a personalidade oculta de cada um.

Erika: Você vê Eduardo como um Fausto moderno?
Gerardo: Sim.

Erika: E o fato do chefe ser americano contém uma mensagem política?
Gerardo: Não nesse sentido, mesmo porque depois também tem um executivo italiano. É mais o mundo das multinacionais, a postura do estrangeiro que chega a um país com o qual não tem nenhuma identificação, nenhum contato. Isso lhes permite uma maior frieza na hora de tomar decisões.

Erika: Você também é produtor de dois outros filmes que estão neste Festival, Cornucópia e O Segredo dos Seus Olhos. É a primeira vez aqui?
Gerardo: No Rio de Janeiro, não. Mas no Festival sim.

Erika: E o que está te parecendo?
Gerardo: Tenho a impressão de que é um Festival que movimenta bastante a cidade, estive na sessão de O Segredo dos Seus Olhos e as salas estavam todas cheias. Parece que há muita identificação da parte do público.

Erika: Você é espanhol, mas faz muito cinema na Argentina. Como é essa relação?
Gerardo: Fico encantado, adoro conhecer novas sociedades e fazer novos amigos. Eu acho que sou um pouco como o personagem do filme, tenho uma dupla personalidade, meio espanhola, meio argentina. E ainda temos a vantagem do mesmo idioma.

Erika: O Corredor Noturno é uma adaptação fiel ao livro do Hugo Burel?
Gerardo: Não sei bem o que é fidelidade, já que quando mudamos de um meio literário para outra arte como o cinema obrigatoriamente é preciso fazer uma série de adaptações. Mas o autor do livro ficou muito satisfeito, então eu acho que isso é um bom sinal.

Erika: Você acha que essa história tem uma abordagem parecida com El Método, do Marcelo Piñeyro, no sentido de mostrar as grandes empresas como entidades “sem alma”?
Gerardo: Não havia pensado nisso, mas é bem apontado. Sim, as multinacionais realmente não tem alma. Eles oferecem benefícios e poder, mas tiram tudo das pessoas quando elas não mais lhes convém e vão buscar uma mão-de-obra mais barata onde conseguirem. Os empregados de multinacionais são como peças descartáveis, sendo despedidos quando já não lhe dão a mesma rentabilidade.

Erika: Para encerrar, tem uma frase que o Sr Conti diz no filme que eu gostaria que você comentasse: “a moral é uma invenção dos fracos”.
Gerardo: É uma dura reflexão sobre a vida corporativa feita por um personagem complicado, mas que diz uma verdade. É complicado resumir assim fora do contexto, mas acho que Conti quer dizer que as pessoas se refugiam na moral para não precisar aceitar determinadas coisas.

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Sobre o Autor

Erika Liporaci

Erika Liporaci

*ERIKA LIPORACI é graduada em Jornalismo, pós-graduada em Artes Cênicas e especialista em cultura e língua italiana.

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