Entrevistas

Gláucia Nasser

Francci Lunguinho
Escrito por Francci Lunguinho

Crônicas Cariocas: Até 2001 você era uma empresária de sucesso em Minas Gerais, só então quis ser artista. Como nasceu esse desejo de se tornar cantora?

Glaucia Nasser: Eu quis ser artista desde criança. Minha família morava em uma unidade da Agroceres Sementes, que mais parecia uma fazenda. Cresci ali no meio de lavouras, beneficiamento de milho, gado, suinocultura. Fiquei ali até meus 16 anos quando fomos morar na cidade. Por isso todo meu contato com o mundo artístico se restringia ao rádio, uns poucos discos (gostava particularmente do Raul Seixas) e novelas que mexiam com minha imaginação: sempre que ficava sozinha brincava de imitar as personagens. Quando fui morar na cidade fiz parte de um grupo musical e cantei em festivais, shows, até que um dia fui convidada para fazer um teste na antiga Ariola. Meus pais não aprovaram a idéia. Ninguém aprovou. Os obstáculos que encontrei foram tantos que passei a acreditar que aquele não era o meu caminho. Fui então morar em BH onde tentei o conservatório de música, mas um bloqueio inconsciente já havia se instalado e toda vez que eu tentava cantar ficava afônica. Então deixei o sonho de lado, estudei administração de empresas, fui trabalhar em Marketing Internacional no exterior e voltando ao Brasil me tornei empresária. Sou disciplinada e com a bagagem que trazia de fora minha carreira executiva foi bem sucedida. Fui presidente da Associação Comercial e Industrial de Patos de Minas, fui porta-voz do Pacto de Minas pela educação e convidada pelo então senador Arlindo Porto para ser candidata à prefeitura da minha cidade. Foi nesse momento que retomei o sonho e entrei para uma banda de baile, ainda empresária.

Crônica: Foi difícil largar tudo e partir em busca desse sonho?

Glaucia: Foi e ainda é! Primeiro precisava acreditar que era possível mudar minha história. Já não era mais tão jovem, tinha dois filhos pequenos e sustentava uma posição de destaque social e político, respeitada por pessoas muito importantes no meu estado. Tive que enfrentar o descrédito de algumas pessoas, as mágoas de outras, críticas, indignações. Tive que me recriar. No início convivi com a insegurança, não tinha uma exata medida do meu talento e me isolei para pensar isso. E ficar longe da música me fez sofrer. Doía muito quando ia a shows, quando vivenciava espetáculos, até que deixei de ir. Para retomar a proximidade com a música tive que amadurecer 15 anos em 5, no sufoco. Reaprender a cantar, estudar, construir uma carreira, investir tempo e dinheiro, ganhar o respeito das pessoas e cuidar da minha família na minha cidade. Longe das metrópoles, onde tudo acontece. Agora que cheguei aqui não dá mais para voltar.

Crônicas: Você quase se candidatou à prefeitura da sua cidade. O que a fez mudar de idéia e se tornar artista?

Glaucia: Eu ouvi meu coração, que já não conseguia mais ser ignorado. Eu gostava do que fazia. Tudo que fiz na minha vida foi com paixão, mas cantar me leva até o melhor de mim. Quando estou no palco sou verdadeira. Posso ser alegre ou melancólica, jovem ou senil, sensual ou tímida, posso ser o que quiser. Quando a gente encontra uma atividade que nos dá essa liberdade, a vida toma outra cor e outra direção – é mágico!

Crônicas: Por que só aos 38 anos você resolveu encarar o desafio de gravar o primeiro CD?

Glaucia: Aconteceu. Não foi nada planejado. Eu conheci o Anísio Dias, meu parceiro no primeiro CD, ele começou a compor pra mim e quando já tínhamos um bom repertório resolvi tentar.

Crônicas: O que muda nesse segundo CD em relação ao primeiro, que foi lançado independente?

Glaucia: Esse CD me pega num momento de cumplicidade e maturidade musical. É também um CD mais eclético onde eu experimentei várias formas de interpretar. São vários compositores, enquanto no primeiro o Anísio compôs 11 músicas. Bem Demais tem uma diversidade de ritmos e estilos que faz dele um trabalho singular.

Crônicas: Nele você passeia por diversos estilos musicais. Como foi a escolha do repertório?

Glaucia: O Sérgio de Carvalho, produtor do CD, me apresentou várias músicas e fui escolhendo as que tinham a minha cara. Ligo-me muito nas letras. Uma música pode ser boa, mas se eu não me entender com a letra não consigo cantar. As regravações vieram de shows que fiz por esse Brasil, que curti fazer no palco e que foram, muitas vezes, pedidas pelo público para que eu gravasse.

Crônicas: O CD Bem Demais, tem composições de vários artistas consagrados da música brasileira, aliás, Ivan Lins fez uma composição especialmente para você. Conta como surgiu essa canção.

Glaucia: O Ivan conheceu o meu trabalho por meio do Serginho que atendendo a um pedido meu, solicitou-lhe uma música. Fiquei surpresa e honrada quando o Sérgio me entregou um CD com a gravação em estúdio da música que ele havia feito pra mim. É uma música muito especial. Toda a orientação do arranjo também foi do Ivan.

Crônicas: A crítica tem sido favorável ao seu trabalho?

Glaucia: Tenho recebido excelentes críticas, e algumas não tão favoráveis. As boas me impulsionam, me entusiasmam. As menos favoráveis eu leio e reflito sobre elas. Elas também me ajudam muito. O meu primeiro CD não foi estudado pela crítica nacional, mas chamou a atenção do selo novaiorquino Putumayo que escolheu Lábios de Cetim para compor a coletânia Acoustic Brazil, onde estive ao lado de Chico Buarque, Gal Costa, Caetano Veloso e Paulinho da Viola, entre outros. A crítica bem colocada me faz aprimorar minha arte, enxergar nuances não percebidas, por estar muito envolvida com o trabalho. Acho as críticas importantes para que a gente não se acomode. Leio tudo e extraio aquilo que me faz crescer como intérprete.

Crônicas: Você faz parte de um novo time de cantoras que vem alcançando grande sucesso de mídia e crítica. Nomes como Thereza Cristina, Vânia Abreu, Vanessa da Mata, Fernanda Porto, Monica Salmazo entre outras, surgiram e ganharam força. A que você atribui esse gosto que o Brasil tem pela voz feminina?

Glaucia: Confesso que nunca pensei apuradamente sobre isso. Um certo crítico disse que o Brasil é o país das cantoras, e talvez seja mesmo. Se os homens lideram como compositores, as mulheres lideram como intérpretes. O segredo pode estar aí, não na voz feminina, mas na interpretação feminina.

Crônicas: Dá para conciliar a vida artística com o da mulher empreendedora?

Glaucia: A mulher empreendedora nesse momento está trabalhando full time para a artista. É difícil me desvincular de um lado que fez parte da minha vida por tanto tempo. Meu olhar é o de quem foi empresária por mais de 12 anos. Mas meu empresário, Denio Costa, tem travado uma batalha para que a artista assuma de vez o seu espaço. Quanto a minha empresa, meu irmão e mais um sócio continuam tocando o nosso negócio. Eles sim, abriram espaço para a artista e sou muito grata por isso.

Crônicas: Você fez show no Rio de Janeiro. Como o carioca recebeu a sua música?

Glaucia: Muito bem. Todos os shows que fizemos no Rio até hoje foram calorosos. A platéia se deixou envolver e a cada novo espetáculo cresce o número de pessoas. Isso me faz acreditar que aprovam o trabalho.

Crônicas: Tem data para voltar a se apresentar no Rio?

Glaucia: Volto a me apresentar em setembro e outubro. As datas e locais ainda serão definidos.

Crônicas: Você ainda está ligada de alguma forma às empresas e à política?

Glaucia: Quando me sobra tempo vou até a empresa para ver como as coisas estão andando por lá. Acompanho as atividades via email. Faço reuniões via skype e participo do conselho de diretoria. Praticamente isso. Da política me afastei completamente.

Crônicas: Já que você teve uma participação na política, embora pequena, qual a sua avaliação do atual momento, e o que espera que mude para o povo voltar a ter confiança no Brasil?

Glaucia: O Brasil passa por um momento muito instável. Temos um governo frágil onde as elites e governanças só olham para o próprio umbigo. Quantas coisas por fazer! Nesses últimos cinco anos viajei muito de carro de Patos de Minas para Uberlândia ou Belo Horizonte, para pegar um vôo pra São Paulo ou Rio, e você não imagina o que é pegar uma estrada sem a menor condição de trafegar. A falência não é somente da malha viária. É múltipla, da saúde, da previdência, educação e segurança. Merecemos um governo que nos impulsione e não que nos puxe o tapete. Eu gostaria de ter um governo, um congresso que nos impulsionasse a empreender, a investir, a sonhar e não este que nos inscreve entre os líderes da desigualdade social. Penso que precisamos acabar com a nossa lei magna que é a lei do jeitinho. E aqui eu entendo o jeitinho como fazer algo que favorece a poucos em detrimento do todo. E isso começa com cada um de nós e não só no governo. Precisamos desenvolver essa consciência cidadã, que eu conheci bem quando morei na Inglaterra. Lembro-me de ver uma amiga inglesa deixar de comprar carne de carneiro, pois o preço para exportação era melhor para a Inglaterra. Na época fiquei impressionada! Havia ali um sentimento de País, de um povo. É do que precisamos.

Crônicas: Já tem uma escolha para Presidente?

Glaucia: Ainda não tenho candidato. Não vejo em nenhum dos candidatos a necessária envergadura para nos governar. O país carece de governantes que tenham vontade e autoridade para resolver seus problemas. Solução tem, e como! Precisamos de um novo JK. E que ele se apresente logo. Estamos sem liderança e sem rumo.

Crônicas: Você tem se apresentado com a própria banda, isso a deixa mais à vontade no palco? Fale da relação com seus músicos.

Glaucia: Fico muito à vontade e também me sinto segura. Durante um show muita coisa pode acontecer. Os imprevistos ocorrem até mesmo dentro da mais simples rotina. Se estivermos com pessoas que nos conhece, com quem interagimos facilmente, tiramos de letra qualquer imprevisto. A gente sabe o que fazer para consertar. No mais, o show fica com muita energia, pois há um sentimento que vai além do simples cantar ou tocar. Meus músicos me ensinam muito, fazemos muitas trocas, e no palco sou entendida por eles.

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Sobre o Autor

Francci Lunguinho

Francci Lunguinho

Jornalista, radialista e Editor do portal Crônicas Cariocas.
Amante do jiu-jitsu, corridas de rua e cães. Também é editor da web rádio www.radiomatilha.com.br

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