Entrevistas Oise

Há Controvérsias

Oise - Wilmar Silva
Escrito por Oise - Wilmar Silva

Baco em Bento:
íris, retinas

viu o mar
e sssssilva
assim
o poeta joaquim
íris, retinas!
íris, retinas!
que viva joaquín!
joaquim palmeira
de minas

– por Joaquim Palmeira*

Corre assim o poema que escrevi há cerca de um mês em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. Escrevi e falei com todas as suas “íris, retinas” no palco da Fundação Casa das Artes, no encerramento do Encontro Internacional de Poesia. Homenagem ao belo poeta mineiro Wilmar Silva, que acabara de trocar seu nome para Joaquim Palmeira. Fatos de família, troços atávicos. Coisas de poeta. E pronto e ponto. “Íris, retinas, olhos meus olham íris, retinas/olhos que cerram íris, retinas, olhos de vênus”, diz Palmeira em seu ótimo “Estilhaços no Lago de Púrpura”, lançado no inverno de 2007 em Belo Horizonte pela Editora Anome Livros. Ainda sob a grife Wilmar Silva. “Nunca me esquecerei desse acontecimento/na vida de minhas retinas tão fatigadas”, pensava eu, junto com Drummond. Nunca me esquecerei das palmeiras reinventadas por mestre Joaquim, que viu o mar assim, com suas íris, retinas: “uma patativa, um sol aceso em noite plena/eu/agora o que faço com íris, retinas, olhos:/ hei de cerrar as pálpebras e inventar íris,/ retinas, olhos que sejam íris, retinas, olhos/você com suas íris, retinas, você com olhos/ que me olhem e descubram íris, retinas”.

Íris, retinas: vários poetamigos a almoçar em torno de mesa imensa. Íris, retinas: Bento Gonçalves, 06 de outubro de 2007 – XV Congresso Brasileiro de Poesia e III Congresso Internacional Proyecto Sur. Modestamente, o poeta este comemorava naquele dia-mo(nu)mento suas duas décadas sem álcool, eu que durante anos movido fora por ele. Claro, com um porre homérico do melhor suco de uva da Serra Gaúcha: Granja Cacequi, Adega Cavalleri – que textura, que quase tontura! Mo(nu)mento solene onde absolutamente todos os poetas presentes largaram suas taças de vinho e nos juntamos num poderoso “tintim sucal”. Coisa de macho, tchê! Evoé, meu caro poeta Ademir Bacca, criador & mestre da mostra. Evoé – que Baco é uva, Bacca. Suco também. Evoé, você – que nos levou na véspera ao Vale dos Vinhedos, em memorável excursão “etílico-suquista”, ao lado dos bravos & performáticos mineiros: Luiz-poeta-e-tanto-Edmundo, Joaquim-íris-Palmeira-retinas e de Bilá Bernardes; e do poetator & videomaker carioca Artur Gomes e da também cariocantora Telma da Costa. Na mesa de agora somam-se o performático poeta Carlos Gurgel, vindo de Natal; o visual Hugo Pontes, a poesia de Poços com suas muitas Caldas; os paulistas Rogério Santos e Val Rocha e meu caríssimo poeta-mímico, videomaker & agitador cultural Jiddu Saldanha.

E mais, muito mais poetas e mais poetas que “invadiram Bento Gonçalves, tomaram a cidade”, dizia a cidade, a própria, num só poema a boca não muito pequena. E que circulam com suas falas Bento afora: dali mesmo surgem os jovens poetas Alex Barros e Ricardo Carvalho; do Rio, Luiz Prôa, a quilha em riste; Rubens Venâncio, poeta-psiquiatra, agora juizforano. E o camaleão Claufe Rodrigues; e o poeta-clown Glauter Barros; o cordelista Edmilson Santini; o peruano de timbre caro Oscar Limache; a surpresa rara, uruguaia, de Rachel Martinez: “Apaga mis voces interiores,/esta sed de milagros, /este predestinado afán/de catarte ingrávido/floreciendo mi cuerpo,/donde nasce la gesta./Contengo el aliento/y almaceno tu vino,/para que sereno fermente/en la cava de roble/de mi fecundo vientre”.

Evoé também para os mexicanos do “El Tambache de Rolas” (Francisco Saucedo, Andrés Quintero e Miguel Pineda) e a turma carioca do “Poesia Simplesmente”, que levou ao Sul um belo espetáculo sobre Manuel Bandeira, dirigido por Mônica Serpa. Evoé para os mais que simplesmente poesia: Ângela Carrocino, Dalmo Saraiva, Delayne Brasil, Jorge Ventura, Laura Esteves, Rosa Born, Silvio Ribeiro de Castro. E para as menimulheres da “Confraria das Borboletas”, de Porto Alegre, trazendo ao palco poemas de várias poetas (inclusive, para minha surpresa, da cataguasense e altaneira e querida amiga Celina Ferreira). Ah, evoé também – e com todas as íris, retinas – para as meninas. As meninas-mais-que-poetas & seus nomes-renome: Cláudia-Cacau Gonçalves, Andréa Motta, Mônica Montone, Marisa Ly, Walnélia Pederneiras, Maria Clara Segóbia, Fátima Borchert, Lu Oliveira, Chris Herrmann, Delasnieve Daspet, Jane Pimentel, Joyce Krischke, Fernanda Frazão, Iara Pacini, Jane Brandão, Ieda Cavalheiro, Isnelda Weise, a chilena Irem Toal e quem mais vier – se mais belos-estranhos nomes houver.

Evoé ainda e sempre, suco de uva à mão, para o meu caro Manolo Tricalloti, antenado artista plástico chileno-equatoriano, e para os fotógrafos mexicanos Ivan Gomes Ortiz e Juvencio Larrañaga Aguilar (“Vamos ao Casino! Si, si, y vamos ao Casino!”). E mui particularmente para a décima-primeira musa-mulher deste poeta sucrilista e never de néveres etílico, a bela brasiliense muito-demais Adriana Vieira de Moraes. Todos esses bravos companheiros mais que assíduos de várias noitadas na Serra. E flanando e flanando e falando e falando poemas e mais poemas peripatéticos pelas ruas de Bento, pelas escolas, bibliotecas e até mesmo no presídio local (onde obtivemos, segundo as más línguas, nosso melhor público, o mais cativo: ninguém sequer ousou sair no meio de nossas apresentações). Evoé, que eu volto. Que voltamos todos no ano que vem, num só (as)salto poético, num só vôo – aves, aves! – sobre as serras e ruas de Bento Gonçalves. E “Salve, salves/Bento G”, como diria o poeta moderno – aqueloutro hodierno e muito douto que não rima nunca, nem numa espelunca: aqui e ali com seus pobremas, seus poemas de mão única. Sim, sim: tintim!


*Poeta, jornalista, tradutor, RONALDO WERNECK é mineiro de Cataguases (23.10.43). Nos anos 60, junto com o poeta Joaquim Branco, criou os suplementos literários O Muro e SLD. E, na década de 70, Totem, uma das principais vertentes do poema processo em Minas. Um dos organizadores do Festival Audiovisual de Cataguases (versões 1969-1970). Na década de 90, sempre em parceria com Joaquim Branco, edita Cataguarte, publicação que vem fazendo um balanço da produção literária dos integrantes da Revista Verde, lançada em Cataguases nos anos 20. Morou um ano na Bahia (Salvador, 1964) e trinta e dois anos no Rio de Janeiro (1965/1997). Redator/editor da Revista Cacex (1972/90) e, até 1995, assessor de imprensa e editor de textos do CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil. Em 1977, lança Cataguases é Cachoeira, homenagem aos 100 anos de Humberto Mauro, Em 1998, volta a residir em Cataguases, onde passa a assinar colunas em alguns jornais da cidade: Há Controvérsias, Sob as Traves, Com LIcença. Três livros de poemas publicados: Selva Selvaggia (1976), Pomba Poema (1977) e Minas em mim e o mar esse trem azul (1999) e outros três inéditos: Preto Nu Branco, Doris Day by Night e Tempos de Mineração. Entre seus projetos, um livro ilustrado reunindo seus textos sobre artes plásticas para exposições do CCBB e de artistas diversos e uma coletânea extraídas de textos das várias colunas que criou, intitulada Há Controvérsias (Prosa pós-patética).

 

*Entrevista concedida a Joaquim Palmeira
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Sobre o Autor

Oise - Wilmar Silva

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*Wilmar Silva é poeta performer e criou a coluna OISE para o Crônicas Cariocas.

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