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Marcio Paschoal fala sobre o livro da Rogéria

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Escrito por Redaçao

Autor da biografia de João do Vale (“Pisa na Fulô mas não maltrata o Carcará” – Ed. Lumiar), Marcio Paschoal lança novo livro (“Rogéria, uma mulher e mais um pouco” – Ed. Sextante), abordando a vida do ícone do travestismo brasileiro.

Colaborador do CrônicasCariocas, o escritor Marcio Paschoal agita o mercado literário com a biografia da Rogéria. A seguir, ele nos dá alguns detalhes dessa sua nova criação.

A Entrevista:

Crônicas – Depois da biografia do cantor e compositor maranhense João do Vale você se debruça sobre a vida do mais badalado travesti brasileiro.

Marcio Paschoal – São dois personagens que têm bastante em comum. Artistas brilhantes, cada um na sua área, ambos sofrendo toda a sorte de preconceitos. Tanto João como Rogéria abriram caminhos para vários nomes que vieram a seguir. São artistas antes de seus tempos, precursores, rebeldes e inovadores. Rogéria mais polêmica e vanguardismo, e João mais resistência e crítica social.

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Crônicas – Como surgiu a ideia de fazer a biografia?
Marcio Paschoal – Como vizinhos do Leme, conversávamos muito. O assunto da biografia veio à tona e combinamos fazê-la. Rogéria já havia tentado algumas vezes e não dera certo. Acertamos um encontro em sua casa e começamos as gravações. Isso no início de 2015, e no final de mais de 30 horas de fita, muita conversa e depois das pesquisas e entrevistas com amigos e artistas, o livro ficou pronto.

Crônicas – Qual tipo de biografia você escreveu?
Marcio Paschoal – Não queríamos uma biografia “chapa branca”, isto é, só com elogios e sucesso, sem contar as verdades. No livro estão os seus dissabores, o lado que não é glamoroso, as críticas recebidas, as desavenças. Enfim, uma narrativa que privilegia o humano. Combinamos que ela não iria ver o texto até sair em livro.

Crônicas – E os casos amorosos?
Marcio Paschoal – Acertamos que nomes de famosos não seriam colocados. Rogéria não precisa desse artifício promocional. Além do mais, não era ético. São narrados os detalhes dos milagres e omitidos os santos.

Crônicas – Astolfo Barroso Pinto é o nome dela de batismo. Como surgiu o nome Rogéria?
Marcio Paschoal – Na TV Rio, como maquiador, a atriz Zélia Hoffman não achava Astolfo um nome adequado, e sugeriu Rogério. No Carnaval de 1964, ele ganhava o concurso de fantasias do teatro República (ao lado de Suzy Wong). Na apresentação do resultado, quando anunciaram Rogério, o público presente começou a gritar: Rogéria, Rogéria Rogéria!

Crônicas – Como Rogéria começou sua carreira artística?
Marcio Paschoal – Um amigo (Jorge Maia) a indicou para um show de travestis que estava sendo preparado. Ela foi e passou no teste. No dia 29 de maio de 1964, com uma fantasia de baiana bordada por sua mãe, estreava na Boate Stop da Galeria Alaska, em Copacabana. O nome do show: International Set.

Crônicas – Quais os trabalhos principais que ela fez?
Marcio Paschoal – O sucesso com o espetáculo Les Girls, no Alaska, abriu as portas; na boate Fred´s, como vedete do Carlos Machado; estrela dos shows com travestis no Rival; em Paris, na boate Carrosel, na casa de shows Elle & Lui e no cabaré Mme Arthur; com Agildo Ribeiro, na volta ao Brasil; prêmio Mambembe de atriz revelação, dirigida pro Aderbal Freire Filho, em “O Desembestado”; dirigida por Bibi Ferreira no show “Gay Fantasy” e no musical “Roque Santeiro; e as participações nas novelas da Globo “Tieta”, no papel da travesti Ninete, e em “Lado a Lado”, quando fez o papel de avó e mãe, e em “Babilônia”, como Ursula Andressa.

Crônicas – Rogéria sofreu muito com os preconceitos?
Marcio Paschoal – Nos anos 70 não se podia vestir de mulher, só no Carnaval. Os travestis iam vestidos como homem e se trocavam no camarim. Na boate Freds, o delegado Padilha mandou fechar a casa se insistissem em apresentar a Rogéria, que ele considerava um mau exemplo. Em Barcelona a polícia franquista a retirou dos shows se não se operasse (só eram permitidos transexuais). A violência e a discriminação eram uma constante na vida dessas pessoas. Em 2007, na exposição fotográfica “Herois” de Luiz Garrido, a foto de Rogéria (nua), foi retirada, com a justificativa de ofensa aos bons costumes. Para se ter uma ideia, até 1973 a OMS ainda classificava os homossexuais como doentes mentais, e diagnosticavam a travestilidade e a transexualidade como patologias,

Crônicas – Quais diferenças você enxerga atualmente?
Marcio Paschoal – A situação vem melhorando desde a Lei Municipal, de 1996, que proibiu expressamente a discriminação de gêneros. O grande problema é a falta de oportunidade de emprego. A transfobia e a dificuldade de inserção no mercado de trabalho são claras. A prostituição ainda é seu maior e, muitas vezes único, meio de subsistência.

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