Entrevistas

Políbio Alves: um profissional da palavra

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Ele insiste em dizer que é um profissional da palavra. Não duvidem. A palavra é a “massa” com a qual trabalha. Tão essencial quanto o seu respirar, lá do alto do edifício onde mora, pescando com o anzol dos olhos, todos os dias, o azul da praia de Intermares, bairro onde mora. Por estas plagas e plagas outras, todos sabem também que Varadouro (Poemas – 1989), o segundo livro, esse que diz não agüentar mais olhar porque, todas às vezes que olha, tem vontade de reescrevê-lo, é Políbio Alves, e Políbio Alves é o Varadouro.

Depois de morar por 20 anos no Rio de Janeiro, onde conquistou inúmeros prêmios nacionais – entre eles, o de Poesia Augusto Motta/1977, com Passagem Branca (Poemas), aparecendo em forma de livro somente no ano passado -, voltou a sua cidade, talvez, para poder ir à Cuba, apaixonar-se por Havana Velha, descobrir ali o seu eterno Varadouro e escrever um longo poema sobre a sua descoberta. Isso mesmo que vocês acabaram de ler: “É como se ter ido fosse necessário para voltar”.

Quanto a ilha cubana, se pudesse, transformaria-a naquele rio que passa pela sua aldeia, fazendo a curva bem pertinho do apartamento onde mora, e o cantaria mais que aquele outro famoso do Fernando Pessoa. Na terra do Fidel – do Partido, costuma corrigir -, como cidadão e poeta, recebeu o respeito que sabe merecer, mas, por motivos alheios a sua poesia, nunca teve na Província das Acácias, como, carinhosamente, costumo chamar a capital da Parahyba.

Não passou por Cuba em brancas nuvens. Ali, ainda, três esperados livros, todos prontinho da silva, sob a responsabilidade do editor e amigo Enrique Cirules, estão se vestindo, para, como aconteceu com o seu Varadouro, hoje, parte do acervo da Casa das Américas, ganhar o mundo. A Leste dos Homens, A Traição de Hemingway (ficção) e Havana Velha, essa, o poemão do qual falei no parágrafo primeiro, logo, logo, em sua forma final, estarão chegando por aqui e alhures.

Ele lembra que a infância foi toda na Ilha do Bispo, inspiração do seu Varadouro, um dos mais pobres da capital, linha divisória entre a cidade de Bayeux e a capital da Parayba. Conta com um certo orgulho poético (sic) que de tudo fez na vida, mas, como a ternura, jamais perdeu a dignidade. Morou até em cabaré. Diz que lá encontrou pessoas mais dignas do que muitos, aqui fora, que se não bastasse a pose de “pessoas”, dignidade nunca tiveram. Repete, sempre que perguntado, a mesma resposta: na cidade do Varadouro e de seus Exercícios Lúdicos, Invenções e Armadilhas (poemas- 1991), o Que Resta dos (seus) Mortos (Contos – 1983) estão com os seus demônios e os seus anjos.

A entrevistinha foi mais um papo enfocando o lado do poeta-menino e do filho que somente deixou o colo da mãe, quando ela resolveu trocar de roupa e morar n’outra cidade. Poeta que sabe como poucos tecer a palavra e costurar as manhãs. Um papo meu e da Fátima Morena com um exemplar cidadão e amigo que preza os amigos como se fossem os seus poemas preferidos. E, se não bastasse, assim como vive exercitando essa amizade, declama-os todos os dias.

A Entrevista

Humberto de Almeida – Como nasceu o poeta? Houve muito esforço? Foi um parto à fórceps ou natural?

Políbio Alves – Agora, na distância de tantos anos, penso que, a solidão de uma criança se deve entender, por exemplo, que essa criança sou eu – mobilizada entre os adultos, favoreceu a minha identidade com a palavra. Tinha 10 anos. Lembro de me ver escrevendo frases com as unhas contras as paredes do meu quarto. Muitas vezes, mensagens anônimas, havia nomes de lugares, pessoas, palavras que eu não conhecia. Isso – não sei lá por quê – continua a me perseguir até hoje, que depois aparece sempre na minha escrita.

H.A. – Uma curiosidade: como foi a “vida festiva do poeta”, em cruz das armas, quando a casa em que morava era um “centro cultura de poetas, seresteiros e namorados”?

P.A. – Pois é. No início dos anos 60, éramos todos adolescentes, companheiros de colégio – Liceu Paraibano – e de sonhos. Quanto aos freqüentadores assíduos dos fins de semana da casa de minha mãe, em Cruz das Armas, onde nasci, convém enumerá-los: Gemy Cândido, Carlos Alberto Azevedo, Maria José Limeira, Pedro Santos, Raul Córdula, Unhandeijara Lisboa, Ademar Ribeiro, Jurandy Moura, Carlos Aranha, Anco Márcio, Nautília Mendonça, Walderedo Paiva, Lucy Camelo, Célia Torres, Breno Mattos, Margarida Cardoso, Franklin Ribeiro, Natanael Alves, Marcos dos Anjos, Marisa Barros, Marcus Vinicius. Esses acontecimentos de cultura e amizade e uma geração, registrou-os Carlos Aranha em seus inúmeros textos jornalísticos. Portanto, alguns amigos, os quais eu admirava, liam os meus textos, Carlos Alberto Azevedo, Célia Torres, Gemy Cândido, Jurandy Moura, Ademar Ribeiro, Marcos dos Anjos e Maria José Limeira.

H.A. – E as mais fortes lembranças de tua vida no varadouro, que descobriste e transformaste em poesia?

P.A. – Na verdade, a lembrança dos maruins, a beleza plácida da maré vazante, a lama, o azedume da fábrica de cimento, os caranguejos-de-andada invadindo o quintal, subindo o batente da cozinha de nossa casa. Ali, através deles, surpreendi o rio Sanhauá, as fronteiras do pavor, o medo de morrer afogado nas tardes de pescarias. E nesse reduto colhi os primeiros frutos que iriam fertilizar a minha escritura, quer poética ou ficcional. Exatamente, pela vivência, injustiça, alegria, as dores do dia-a-dia, convivida, repartida, com outros homens.

H.A.– A busca da poesia foi uma coisa dolorosa, perturbadora, ou veio com aquela mansidão natural que embala os poetas e os coloca para dormir nos braços da poesia?

P.A. – Escrever é um ato de transpiração. Por favor não confundir jamais com inspiração. Também um ato de muito prazer num tempo de transformações. A diversidade das alegorias humanas, é, por um lado, estimulante, e, por outro reflete, de fato, a coexistência do disfarce de acontecimentos na ante visão dos homens e da arte. Há, todavia, a busca da inteireza crítica, eis o porquê de escrever. O que importa, a mim, é ler. Trabalhar a textura dos meus livros, incitando-os a desafogar liberdades no ato de criação, sempre. Um trabalho solitário, mas contínuo. Desafiador, eu acho. A meu ver, a literatura, a poesia, tem que abordar a incomodidade, a problematização dos sonhos pessoais ou os anseios de uma coletividade. Não acredito em escritor ou poeta que não seja um confessor social.

H.A. – (ufa!) Ser ou não ser poeta é uma solução ou um problema?

P.A. – Confesso: não sei.

H.A. – Como era vida do poeta na casa da mãe do poeta-menino?

P.A. – Em companhia das minhas tias, pois minha mãe trabalhava das 6h às 20h no Instituto Padre Zé Coutinho. Era enfermeira. Foram tempos difíceis. De muita solidão e insensatez no seio da família.

H.A. – Um dia escrevi que quando crescesse gostaria de ser o Fausto Wolff, Shakespeare, ou um palhaço sorridente que morava perto da minha casa e sonhava comprar um circo só para ele. E o poeta sonhou alguma vez em ser algum poeta um dia? Ou outra pessoa?

P.A. – Jamais tive a mínima ambição de me assemelhar a qualquer escritor ou poeta. Isso sempre me pareceu totalmente inaceitável. E os anos foram se passando – agora estou na velhice – me alegro com essa postura em relação ao ofício de escrever.

H.A. – A tua mãe, pelo que conheço, foi uma pessoa muito forte e presente em tua vida. Como ela via o poeta-menino e era visto por ele?

P.A. – Minha mãe, hoje no andar de cima, continua sendo o esteio, o postulado da ética, em minha formação humanista e cultural. Um exemplo de dignidade no pleno exercício de cidadania. Foi esse o legado que nos deixou como forma de conviver amorosamente com a vida.

H.A. – O que te fez – tão de repente! – deixar João Pessoa, mudar-se para o Rui de Janeiro, para voltar um dia como Cidadão Carioca?

P.A. – Quando saí de João Pessoa era muito imaturo. Na verdade, na cidade grande me arremessaram pelo avesso, me fizeram de mendigo, depois fui aclamado rei. Ainda bateram na minha cara dizendo que estavam cuidando de mim. Meu exílio no Rio e Janeiro me colocou com os pés no chão. Me fez caminhar sozinho, rosto lavado, para enfrentar o mundo. Fiz de tudo para sobreviver. Tive as mais variadas profissões. Sim, é bom lembrar que o meu título de Cidadão Carioca em outubro e 1974, foi pelos serviços voluntários de educação, realizados nos morros e favelas do Rio de Janeiro, sem nenhum contingente patronal ou de Governo. Aliás, essas experiências multiplicaram meus projetos pessoais. Cresci como ser humano. Hoje, minha vida tem outro significado como escritor, poeta e homem que sou.

H.A. – Como foram os teus anos vividos no Rio de Janeiro, a vivência do poeta, amigos e companheiros de da “arte de escrever e poetar”?

P.A. – Quando fui embora para o Rio de Janeiro em meados dos anos 60, rasguei quase todos os meus originais. E com algum dinheiro, escondido no cós da calça, desembarquei no terminal rodoviário Novo Rio. Comprei um exemplar do Jornal do Brasil e através dos classificados, aluguei uma “vaga” na Lapa. Bem próxima dos arcos, onde morava Aguinaldo Silva, meu amigo desde 1958. Inclusive, em 1961, ele esteve em João Pessoa na condição de escritor estreante com “Redenção para Job”, romance, participando de uma semana cultural no Liceu Paraibano. Depois com o tempo fui me identificando com outras pessoas ligadas à literatura: João Antonio, Gasparino da Mata, Edilberto Coutinho, Manuel Bandeira, Lúcio Cardoso, Stella Leonardo, Walmir Ayala, Clarice Lispector, André de Figueiredo, Altimar Pimentel, Luiz Mendonça, Pascoal Carlos Magno, Heloísa Buarque de Holanda, Ana Cristina César e José Maria de Souza Dantas. Sim colaborei no Suplemento da Tribuna da Imprensa nos anos 60 e 70, período mais conturbado da história do Brasil, com João da Penha, Maria Amélia Mello, Wilson Bueno, Socorro Trindade e Leila Míccolis. O contato com esses autores tornou-se instrutivo, somente. Na realidade, não cabe, dentro dos rasgos desejantes dos meus objetivos pessoais. É que estava sozinho no Rio de Janeiro, desassossegado na convivência com a minha escrita. Fiz de tudo, numa pungente busca de sobreviver: lavador de pratos em bares e restaurante, empregado doméstico, garçom, garagista, professor, vendedor de livros e funcionário público.

H.A. – E o trabalho, como jornalista, no Rio de Janeiro, contribuiu em que para o poeta?

P.A. – Como fonte de informações valiosas do cotidiano

H.A. – Escrever ensaios e resenhas, ganhar prêmios com os escritos, como ganhaste, não desestimulou o poeta, deixando-o em dúvidas entre o fazer poeta e o desejo de ser um ensaísta famoso, por onde caminhavas?

P.A. – Fui freelancer. Escrevi textos que nunca assinei e que foram em boa parte, pelas despesas com o aluguel e alimentação, apenas.

H.A. – E essa história de “poeta paraibano”, “poeta carioca”, “poeta gaúcho” e outros, não é uma forma um tanto ultrapassada de falar em poesia regional? O poeta paraibano é diferente do poeta carioca? Poeta não é poeta em qualquer lugar do mundo, não?

P.A. – Poeta é sempre poeta em qualquer continente, país. Independe, creio, de sua nacionalidade. Quanto ao conceito de poesia regional, sabe-se, é tarefa para os estudiosos de teoria literária. No meu caso, por exemplo, não assimilo essa coisa de poesia paraibana ou paulista e outras. Contudo, vejo-as como poesia brasileira, produzida, às vezes, na Paraíba, outras tantas, no Rio Grande do Sul ou em outros estados.

H.A. – São muitos os poetas “cabralinos” nesta terra descoberta por Cabral. Carlos Nejar, um dia, afirmou seres um dos poucos poetas a não sofrer essa influência. Como viste tal afirmação? E as tuas influências?

P.A. – O depoimento do poeta Carlos Nejar ao poeta Lúcio Lins (poeta paraibano, recém falecido), no Hotel Litoral, durante a realização do I Congresso Nacional de Cultura Nordestina na cidade de João Pessoa, no ano de 1993, não me surpreendeu. É o testemunho vivo de que ele conhece a minha poesia. Sempre tive muito cuidado para não ficar estigmatizado por nenhum escritor ou poeta.

H.A. – Quem são os poetas que o poeta Políbio Alves lê?

P.A. – Atualmente estou relendo Manuel Bandeira, Murilo Mendes e Hilda Hilst, além de Federico García Lorca e Derek Walcott.

H.A. – Varadouro, o teu mais famoso livro, é a tua fonte, o teu quintal, esse cantado e recantado em versos que o tornaram – se não, o tornará um dia – universal. Em quais outras fontes bebeste para escrever a tua obra?

P.A. – O Varadouro é e sempre será a minha raiz. Ali está a origem de tudo. Toda a minha obra está calcada em seus becos e ladeiras e no rio Sanhauá. Assim, através das palavras, me propus a desnudar para o mundo aquela região. P.A. – Escrevo porque se não for assim, acabo morrendo engasgado pelas palavras presas na garganta. O silêncio das palavras me incomoda. E tu, por que poetizas?

P.A. – PARA NÃO MORRER DE SILÊNCIO!

H.A. – Todos sabem do teu perfeccionismo. Mas por que tanto tempo para publicar, por exemplo, Varadouro, O Que Resta dos Motos e Exercício Lúdico?

P.A. – Essa minha postura em relação ao tempo de publicar o meu texto, devo aos conselhos que ouvi de Berta, quando ainda adolescente: “não tenha pressa em publicar, você ainda é quase uma criança”. Por isso, aproveito muito pouco do que escrevo. Por outro lado, ao longo da minha vida, preocupação maior tenho em ser respeitado como escritor, poeta e homem. Tudo isso resulta das minhas constantes visitas à casa de Berta, dona de um cabaré na rua Maciel Pinheiro, cujas dependências da casa eram divididas entre visitantes, músicos, artistas plásticos, escritores e poetas. Ali, eu permanecia por horas e horas, a recitar versos, escutar música clássica e MPB. Tempo de encantamento e descoberta que iriam fortalecer a minha escrita.

H.A. – O poeta Políbio Alves tem o reconhecimento que merece?

 

P.A. – Ser poeta ou escritor no meu país, é viver na clandestinidade. porque poeta é uma profissão marginalizada, não reconhecida por lei.

H.A. – Por fim, para não dizer que não falei em Cuba, o que encontraste em Cuba que nunca encontraste por aqui?

P.A. – Tive o prazer e privilégio de conhecer e conviver com o povo instruído que hoje não conhece a máfia, a fome e o analfabetismo. E ainda menos a miséria social institucionalizada. Um povo que tem uma experiência digna e plena onde a virtude e a dignidade se traduzem em garantir um futuro mais justo para todos. Conheci: um povo que recebe bem os seus visitantes e a fraterna hospitalidade de sua gente. Uma população de convicções políticas profundas e absoluta consciência a respeito do mundo. Um povo criativo em meio às diversidades do embargo norte-americano, há quase 50 anos. Apesar de tudo isso, o cidadão cubano permanece firme em seus propósitos de continuar a ter um país independente, administrando o seu próprio destino. Quem duvidar dessa realidade do que eu vi em Cuba, que se cuide. Vá à Cuba confirmar esse fato!

 

*Esta entrevista teve a participação de Fátima Morena.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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