Entrevistas Oise

Telma da Costa: fala ao Crônicas Cariocas

Oise - Wilmar Silva
Escrito por Oise - Wilmar Silva

A artista Telma da Costa vive um momento pleno em sua carreira. Nascida no interior de São Paulo, neta de nordestinos, gosta de cozinha e preparar o café como nos tempos dos avós. Acaba de lançar um livro de poesias, Além do Horizonte. Recentemente lançou o cd “Tempo Bom” e está com o monólogo Telma em Pessoa. A seguir, a entrevista concedida com exclusividade para o Crônicas Cariocas.

• A ENTREVISTA:

Wilmar Silva – Como foi a sua infância em Presidente Venceslau, interior de São Paulo quase fronteira com Mato Grosso?

Telma da CostaVale dizer que minha infância foi lá, mas nasci em São Paulo, totalmente por acaso, numa gestação de apenas 6 meses. Minha mãe estava lá pra registrar o diploma dela de professora, numa época em que ser professor era uma profissão e tanto.

Meus avós paternos são do Rio Grande do Norte, e os maternos da Bahia. Então, fui criada com muita paçoca, doce de côco, rapadura e pimenta, muita pimenta. A culinária é uma das coisas principais na minha vida até hoje. Cozinhar faz um bem enorme à minha alma. Eu tenho prazer até em fazer café, que faço como a minha avó: com pó e açúcar juntos na água fervida, coador de pano, bule e um galo de crochê no bico dele (risos). Adoro esse ritual. Eu jamais teria uma cafeteira elétrica. Não tenho nem garrafa térmica.

O meu avô materno era um grande contador de histórias, todas “reais”, segundo ele. Ele foi o meu primeiro canal com contação de história, uma grande influência para mim. E com certeza foi com ele que eu aprendi a me inconformar e me incomodar com o desrespeito e a injustiça social. Esse incômodo é uma coisa que eu não quero perder nunca. Eu o carrego comigo como uma herança de grande valor. Eu teria entrado para a política se a música e a literatura não tivessem fisgado a minha alma.

Minha mãe era professora de português e meu pai advogado, e poeta nas horas vagas. Sempre vi os dois com um livro na mão. E todo final de semana eu e minha irmã ganhávamos um livro de história. Sete dias passavam muito devagar para mim, que esperava ansiosa por esse momento. Não havia amiga que fosse capaz de me tirar da leitura para brincar. Na Escola e na Igreja que freqüentávamos eu sempre era convocada para falar os poemas de meu pai e outros poetas, que eu decorava num piscar de olhos. Me lembro de um poema de 17 páginas que eu decorei em um único dia.

E no meio de todas essas letras entrou a música. Eu comecei a aprender piano com 7 anos de idade, e nunca mais larguei as notas musicais. Cresci com os dedos num teclado, e aos 14 anos eu já ganhava concursos de piano na cidade e no Estado. O meu sonho era ser concertista. Mas, embora eu tenha sido a melhor pianista que pude, eu não tinha suficiente técnica para tal aspiração, pois, para isso, a minha base musical deveria ter sido em outro lugar. Eu estava no lugar errado, na hora errada. Mas a vida me levou para outros rumos igualmente bons.

Wilmar Silva – Quando rompeu com a infância e saiu do Brasil profundo em busca dos sonhos da artista Telma da Costa?

Telma da CostaTudo o que eu buscava não estava em Pres. Venceslau. Eu precisava ir para um grande centro. São Paulo me parecia muito grande e assustadora, então decidi pelo Rio de Janeiro, aonde eu não conhecia uma viva alma. Fui sozinha, de mala e cuia. Aliás, sem a cuia. Me formei em Bacharel em Órgão no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, e em Licenciatura em Música na UniRio.

De lá fui estudar inglês em Londres enquanto era organista na Ealing Broadway Baptist Church, e estudava música pela Royal Academy of Music. Anos depois voltei a Londres para estudar canto com um professor da Guildhall, o que mudou por completo a minha trajetória musical.

Quando voltei ao Brasil eu queria trabalhar em musicais e em dublagem (ainda hoje sou dubladora de filmes para TV e cinema), e para isso eu tinha que estudar numa Escola de Teatro. O Teatro então voltou à minha vida, já que em Venceslau eu tinha contato diário com ele, às vezes como atriz, outras como diretora; eu trabalhava em mais de 10 peças teatrais por ano.

Wilmar Silva – Sendo uma artista múltipla, como foi descobrindo as muitas Telma da Costa, ou a vida é um ensaio de reeducação dos sentidos?

Telma da CostaFui descobrindo as muitas “Telma” que me habitam, e para isso eu precisei perceber aonde estava o meu prazer e o fluir das águas, deixar-me levar e fazer o melhor possível, e experimentar, conhecer, tentar.

Eu escrevo há tanto tempo que nem lembro, mas a última das “Telma” que eu descobri foi a Telma-poeta. Daí a importância do outro em nossa vida: não fosse o outro eu não me veria, não me saberia poeta. Eu fui “comunicada” disso pelas pessoas mais próximas que me liam, e pelo ator e diretor Alexandre Moreno e a Mônica Serpa; e pelos novos amigos como o poeta Ademir Bacca, o saudoso Aldair Ayres, Wilmar Silva e Bella Clara Ventura (poeta colombiana). E os leitores do meu livro, que compartilham comigo o que as minhas letras lhes provoca.

Eu acho que eu reeduco os meus sentidos quando estou em contato com a arte que está naturalmente na vida, nas pessoas, nas coisas, nos seres vivos de todas as formas. Eu admiro uma boa comida que mistura os sabores, os cheiros e as cores, que dão felicidade aos sentidos; uma música instrumental ou não, que me arrebate; uma fotografia, que não precisa de nenhuma explicação e fala mais do que mil palavras; um arranjo de flores; a arte de artesãos maravilhosos no nosso país; eu vibro com um bom ator arrebatando a minha alma no cinema, no teatro ou na dublagem; uma bebida saborosa; um perfume em sua combinação de elementos que dão aquele aroma (inclusive a arte do frasco); os escultores iluminados, que esculpem coisinhas pequenas como uma jóia, ou grandes esculturas em que eu posso passar horas apreciando e descobrindo novos ângulos (como é possível tanta paciência e sensibilidade?); até mesmo os móveis que usamos em nossas casas e escritórios, que são esculturas tão lindas e úteis; a pintura antiga, tão necessária quando não havia fotografia; a pintura de tantos outros períodos nos mostrando a nós mesmos em pinceladas e cores e tanta diversidade de materiais; um poema que me “pegue” e o reencontro comigo mesma que eu tenho com ele; um bom livro (seja ele em que área for) e como eu me melhoro como pessoa a cada página que leio; um bom texto de dramaturgia; uma crônica; enfim, tanta coisa que me reeduca para qualquer lado que eu olhe.

Foi percebendo a vida que eu notei que havia algumas Telma Da Costa a serem descobertas e exploradas. E talvez outras ainda virão… (risos).

Wilmar SilvaSeu livro de poemas “Além do Horizonte” mostra uma mulher em estado de vida. O que entende como limite entre a vida e a poesia?

Telma da CostaQue bom que na sua observação ao meu “Além do Horizonte” você percebe isso. “Mulher em estado de vida” é um termo bem apropriado. A minha busca é essa: viver e encarar com coragem o que se vive. Não ter medo de bifurcações; decidir, experimentar e assumir os erros e acertos dessas escolhas, mas sem perder a delicadeza, e sem auto-piedade, sem culpas nem culpados; cair é normal e levantar depois também é.

Quanto ao limite entre a vida e a poesia, o que eu tenho a dizer?! Há poetas em que a poesia está em todos os níveis de prioridade. Há poetas que não. São escolhas. O que importa são os resultados. Não apenas os resultados de escrita, mas os de vida, no crescimento pessoal do poeta. Porque nada é garantia de uma boa poesia, de uma poesia que chegue à alma do leitor, ainda que esse mesmo leitor tenha que abrir com as próprias mãos as portas do mistério do poema.

Eu tenho a desconfiança de que não é possível haver vida no poema se não há uma percepção da vida. E como perceber a vida de outra forma que não dentro da vida? Aí então será possível escrever um poema. Acho que estou tentando dizer que não há limite entre vida e poesia.

Wilmar SilvaSe a sua poética revela uma gramática de ocupação do espaço, o que pensa sobre a arquitetura enquanto engenharia política que divide territórios?

Telma da Costa – Vamos por partes.

Eu ainda não tinha verbalizado assim, mas minha poética está, sim, revelada como gramática de ocupação de espaço. Também. Até os supostos “erros” de digitação foram para mostrar uma confusão, urgência ou estado de espírito.

O que eu quis tentar foi experimentar um modo de dar a um surdo a capacidade de “ouvir” o meu poema só pela distribuição espacial dele na folha. Eu queria que ele chegasse ao entendimento do poema o mais próximo do que foi gerado no momento da construção.

Também quis usar o menos possível as pontuações, e me dei o direito de usar a interrogação antes da pergunta, porque esse sempre foi um incômodo para mim enquanto leitora: quantas e quantas vezes eu precisei ler de novo a bendita frase porque eu só vi que era pergunta no final dela, e isso mudava todo o entendimento da mesma.

Falando de arquitetura. Interessante a pergunta, eu realmente gosto muito desse assunto, porque é surpreendente o quanto se economiza tendo um arquiteto para fazer a reforma da casa da gente. A arquitetura tem que se adaptar ao bolso do consumidor, tipo de solo, temperatura, condições climáticas, e ainda por cima ter funcionalidade e bom-gosto. Mas eu não gosto quando ela é usada sem plano-útil, como alguns políticos fazem, para justificar objetivos escusos, financeiros ou de vaidade. É bobo, e não diz a que veio.

O mesmo acontece na poesia. Vazia, a forma que não está solidificada em essência, ou que fica blindada em si mesma, sem se comunicar, sem portas que possibilitem ao leitor o seu entendimento, perde-se. Mas só o tempo vai mostrar o que é joio e o que é trigo.

Wilmar Silva – A propósito do acordo ortográfico da língua portuguesa, a que se deve a hegemonia de uma língua?

Telma da CostaExiste um sonho antigo de que todos os povos falem uma só língua. Parece que era assim num passado remoto. Eu tenho pra mim que esse sonho nunca vai se realizar.

Na língua portuguesa não será diferente. Assim como no mercado comum europeu quiseram fazer uma só moeda circular e a Inglaterra não abriu mão da própria, por direito e escolha dela, eu vejo que Portugal tem o mesmo orgulho de sua língua. Enquanto que o Brasil já está anunciando as novas regras, em Portugal nem se fala no assunto.

Esse acordo para a reforma ortográfica na comunidade lusófona foi feito em 1990, para começar a entrar em vigor até 4 anos depois. Foi esquecido por todos e caducou. Por enquanto só 3 países aderiram levar isso adiante a partir desse ano, 2009.

E quando todos aderirem, se aderirem, mesmo assim continuaremos a não entender quase nada do que os portugueses falam, a menos que eles falem devagar (eu, quando estou falando com um português que fala rápido, e eles sempre falam rápido, pergunto se ele pode falar em espanhol. É mais fácil de entender). Mas a pronúncia do idioma ainda não é o caso nesse acordo.

Eu não acredito que serão as regras de acentuação ou de escrita que darão unidade à língua. A língua continuará sem unidade porque o caminho com que um cidadão português conduz uma frase é diferente do brasileiro, por exemplo. Enquanto que o brasileiro diz: “eu estou vendo”, o português diz: “eu estou a ver”; e assim por diante. Há construções mais esquisitas e difíceis, que não me ocorrem agora.

Enfim, o acordo, se acordado por todos os países lusófonos, acordará apenas uma pequena parte do problema. Continuaremos com dificuldade de comunicação. Continuaremos a não entender um manual de instruções escrito em português de Portugal. Você já tentou ler um? É ininteligível para nós, brasileiros.

O custo supera o benefício (já que o acordo facilita a unidade em documentações internacionais), pois é um caos mental e leva tempo para ir trocando a memória ortográfica.

Falando da “hegemonia” em sua pergunta. Hegemonia é superioridade. Os ingleses acham que o seu inglês é superior ao de outros povos. Na Inglaterra um cidadão sabe a que bairro de Londres o outro pertence, só pelo sotaque. A pronúncia de um nobre é diferente da de um plebeu, mesmo que esse plebeu seja milionário. Eles têm essa hierarquia de poder sobre a língua dentro do próprio território. E mesmo com toda essa sensibilidadeauditiva, na mesma proporção não conseguem se relacionar; precisam beber muito, desde jovens, para se expor. Tudo isso é muito doido.

Em resumo, eu não entendo a “hegemonia” de uma língua. Quando ela é superior? E quem decide isso? É superior em relação a que, ou a quem?

O que eu entendo é que a língua é um brasão, um carimbo, é um forte canal de expressão e de identidade de um povo. Tire a terra e a língua de um ser humano e você terá um escravo.

Wilmar Silva – Escrever é viver duas vezes, ou escrever é realizar a fotossíntese do humano em sagrado?

Telma da CostaMinhas idéias são muito amplas a esse respeito, até porque escrever é vasto mesmo. É vasto de possibilidades, é vasto de percepções.

Em tudo há poesia se você puxar pela observação, mas o poema só é poema quando ele for escrito.

O ato de escrever vem de várias motivações. Defendem-se tantas “causas” na poesia, e todos têm suas razões, mesmo que razão apenas na espinha dorsal da idéia que defendem. As causas que eu tento ter e lutar estão mais no nível social porque eu as acho mais urgentes, e porque não dá tempo de ter tantas causas assim, há de se ter foco. Quando eu olho para a história do maior poeta americano, Walt Whitman, dá pra entender porque a sua poesia não morreu. Ele era uma pessoa interessada no ser humano. Mesmo sem ser convocado para a guerra, ele foi lá ajudar a cuidar dos feridos. Claro, a essência de sua escrita estava além de causas poéticas, estava na vida que ele ia lá fora viver, perceber e interagir.

Ainda assim há outro fator: partamos do princípio de que o que lemos já é a deturpação original do que o poetasentiu: ele sente, deturpa o que sente na escolha das palavras que vai usar, já que elas são limitadas, e essas palavras serão ainda mais deturpadas ao serem lidas, porque nós, os leitores, somos pessoas igualmente limitadas, que entendemos de maneira limitada a escrita, porque o entendimento dela depende da vivência de cada um. Mas isso também gera uma questão fantástica: se com tudo isso ainda podemos ficar totalmente movidos com o que um escritor escreve, então ele há de ser considerado e respeitado, não é mesmo?

É como eu disse, eu defendo a opinião de que para escrever é primeiro preciso viver, e ler, sempre, muito, ler até o final da vida. Mas ler autores variados, e não apenas poetas.

Eu penso que “escrever é viver duas vezes” no sentido de intensidade. As letras têm que estar em koenonia com quem escreve.

O ser humano é sagrado e profano em sua essência, esses extremos não deixam de ser equivalentes e necessários, porque é o equilíbrio dessas pontas que faz de cada ser um ser diferente do outro. Quando o leitor consegue se enxergar nessa ambivalência isso é bastante rico e interessante.

Wilmar Silva – Pensando na memória como transcendência do passado, ainda é possível escrever com liberdade depois da Geração Marginal?

Telma da CostaClaro. Um movimento que veio para oferecer novas formas de liberdade de escrita não pode pretender aprisionar outras novas formas. Se bem que o estado de prisão depende de quem se sente aprisionado.

Eu entendo a necessidade de “caos” que alguns autores têm, e também a necessidade de “não caos” de outros. O importante é não ter a prepotência de achar que a nossa própria escolha é a correta. Porque a nossa escolha é apenas uma possibilidade, por mais que o nosso ego queira que a nossa possibilidade seja a melhor.

 “Não arredar o pé” pode ser um grande mico; há de se deixar uma margem de erro, vai que você precise dela para não ter que pedir desculpa de mudar de margem lá na frente. Nunca se sabe. O próprio Fridjof Capra, em seu livro “As conexões ocultas” desdiz algumas coisas que ele mesmo propôs em seus primeiros livros como “O tao da física” (best-seller no mundo inteiro e que mudou conceitos mundiais da física, assim como da filosofia) e faz isso sem nenhum problema, porque ele é assim, um ser que repensa os próprios conceitos. Isso é lindo. Picasso disse uma vez que só o homem inteligente muda de opinião.

Wilmar Silva – Seu cd “Tempo Bom” é um exemplo que deveria ser ouvido para se pensar no equilíbrio de uma interpretação que chega à emoção a partir da técnica. Acredita no animismo enquanto descoberta de um corpo sonoro?

Telma da CostaObrigada por ter essa percepção do meu “Tempo Bom”. Este é um país aonde o improviso muitas vezes é a tônica (o que é muito bom em várias áreas, como por exemplo: os médicos do Hospital Souza Aguiar, no Rio de Janeiro, são admirados por médicos do mundo inteiro por sua capacidade de colocar ossos no lugar sem nenhuma condição material ou financeira. Juntas médicas vêm aqui aprender como fazem para improvisar o tratamento e a cura. Não é maravilhoso? O improviso é bom também na música, quando feito com arte, a favor da arte). O problema é que esse sentimento de improviso vai invadindo tudo, e de repente, “se preparar” para um ofício de arte passa a ser visto com estranhamento, e quem se prepara quase tem que pedir desculpa de estar preparado. É uma inversão de valores. É a banalização. O público passa a ter como parâmetro o borrão, vai se acostumando com a coisa feita sem cuidado e passa a achar que essa é a medida.

Eu acredito que em qualquer segmento da música é preciso dar ao público o melhor, todos têm que se melhorar sempre, desde o técnico de som até o cantor e o compositor. É inconcebível achar que não precisa mais crescer. No dia em que eu achar isso eu mudo de direção, de profissão; não fico num lugar quando não tem mais para onde crescer; porque na arte não crescer significa descer.

Mas eu também não compactuo com a idéia de técnica sem emoção, porque não gosto de cantor que parece um poste cantando: as notas são perfeitas mas não tem alma, e portanto não atinge o coração de ninguém. Que bom que você percebe no meu “Tempo Bom” a possibilidade de fazer uma aliança com as duas coisas e assim poder ser ponte entre a música e o ouvinte; que é tudo o que importa.

Sobre o animismo que você pergunta, é fácil achar que a música é animista porque ela em si tem alma, ou mexe com a alma, sei lá, tudo junto. Eu não sou a melhor pessoa para falar sobre isso, é melhor irmos para o Capra ou para outro físico quântico, mas eu creio que é muito possível, sim, que todo o universo, em conjunto, se interaja.

Wilmar Silva – Fernando Pessoa colocou em prática a fuga do eu como transformação do ânima em heterônimos, se tivesse que assinar sobre um deles, por quem e por que o faria?

Telma da CostaNo meu ponto de vista Fernando Pessoa não optou por outros “eu” como fuga, ao menos não como fuga de si mesmo. Pode ter sido por muitos motivos.

Pode ter sido uma grande brincadeira, um jogo consigo mesmo. Um exercício de “eus”, afinal, há tantos de nós em nós…

Pode ter sido uma forma muito inteligente de perceber o jogo do poder e saber que não podia vencer se não fizesse esse jogo, onde não havia lugar para quem falasse mal do governo, ou não escrevesse em forma de rima; ele era um escritor impecável e, para todos os efeitos, politicamente correto. Ao assinar “Fernando Pessoa” ele codificava ao leitor ávido pela tranqüilidade das celas, exatamente aquilo que esse leitor queria e esperava dele. Então, com sua inteligência e imaginação ilimitada ele fabricou hipoteticamente a carteira de identidade e biografia de todos os seus heterônimos. E com eles ele disse tudo o que quis dizer, quando quis dizer, da maneira que quis dizer, sobre qualquer assunto que quis discutir. Isso foi muito inteligente.

Talvez hoje ele não precisasse mais disso, talvez hoje se sentisse na liberdade de poder se assumir em todos os sentidos, e sua história teria sido outra. Não sei se melhor ou pior. Mas eu creio que hoje Fernando Pessoa, se estivesse vivo, ficaria mais entediado.

Eu teria dúvida de escolher qual heterônimo assinar, se Ricardo Reis (com quem aprendi a degustar, e me deliciar, com a poeta Suzana Vargas) ou se Álvaro de Campos, que é um poeta mais rasgado, mais “brabera”. Eu acho que ainda prefiro Álvaro de Campos porque gosto de sua ironia, sua densidade, da sensação dele estar sempre à margem do precipício. Mas se não fosse por todos esses motivos seria pela homenagem que Álvaro de Campos fez a Walt Whitman, que é das mais belas odes feitas a um poeta morto; e eu sou discípula declarada de Whitman.

Wilmar Silva – Seu espetáculo “Telma em Pessoa” quebra a onipotência da sexualidade masculina, se pensado a partir não apenas de uma mulher em cena, mas através do jogo de atitudes entre a realidade vivida e a projeção de um imaginário interior. Isso foi pensado durante os ensaios ou a interpretação é livre?

Telma da CostaO “Telma em Pessoa” que é um monólogo sobre textos de Fernando Pessoa enquanto Álvaro de Campos, surgiu com o convite do poeta Ademir Bacca a todos os participantes do Congresso Brasileiro de Poesia em Bento Gonçalves, em 2008, num email comunitário que ele enviou. De início eu não abracei a idéia, porque não é assim que eu funciono, mas o convite ficou na minha cabeça. Eu recomecei a ler Fernando Pessoa em todas as suas assinaturas, mas sem compromisso, sem pressa, sem avidez.

Eu já tinha um caso de amor com o Pessoa, pois num momento muito difícil de minha vida eu digo que quem me salvou foi ele, ele enquanto Fernando Pessoa mesmo. Mas isso eu não me interessaria em levar para o palco. Para estar no palco eu preciso de uma motivação vulcânica, uma coisa que me tome por inteiro, que faça o meu coração bater mais acelerado, que tome a minha alma. Não pode ser matemático. Não daria certo.

Então, quando eu reli Álvaro de Campos, que eu já tinha degustado anos atrás em outro momento, aqueles poemas me tomaram com o frescor do primeiro encontro, me incomodando produtivamente, e esse incômodo culminou no palco, falando esses poemas como quem conversa ou se desabafa com o melhor amigo.

Daí eu ter procurado a Mônica Serpa para me dirigir, porque ensaiar com ela me daria esse sentido de desabafo, já que ela é minha confidente e amiga, e uma diretora que eu tenho em altíssima conta. Nunca tínhamos trabalhado juntas, numa amizade que já durava mais de 18 anos. Muitas amizades acabam assim, e claro que eu tive medo disso. Mas eu confiei na base sólida que tínhamos, de respeito e admiração mútua, e arrisquei.

Ficou naturalmente claro, logo nos nossos primeiros encontros, que o mais importante ali eram os poemas, e não as marcações; essas vieram depois. Eu não queria dar pirueta, cambalhota, nem virar aranha ou árvore no palco; eu só queria dizer os poemas, aquelas letras que me tocavam, e queria compartilhar isso com o público. Osentido do texto foi a tônica. Mas eu nem precisei dizer isso para ela.

Eu sou mulher, gosto de ser mulher, e se tivesse que escolher eu seria mesmo era mulher. O meu material é o meu corpo e a minha percepção da vida, que não deixa de ser a de uma mulher, já que mulher é o que eu sou. E é com esse material que eu teria que subir ao palco. Não poderia ser diferente. Eu sou atriz, estou ali para interpretar um texto escrito por um homem; e tudo o que eu posso fazer é interpretá-lo com o que eu tenho: alguém que entende, na medida do possível, o universo do que ele está dizendo, mas que continua sendo uma mulher. E essa foi a linha. A “quebra da onipotência da sexualidade masculina”, que você diz, aconteceu naturalmente. Em nenhum momento eu ponho no feminino qualquer expressão que ele diz no masculino. Eu estou ali para interpretar aquele texto universal, pensado por um homem, dito por uma mulher. Só isso.

Wilmar Silva – Fosse passar “Une Saison en Enfer” que livros de poesia você levaria para ler durante o crepúsculo?

Telma da CostaRimbaud nasceu em 1854, um ano antes de Whitman lançar o seu sempre atual “Folhas de Relva”; ele estava no auge da maturidade da percepção da vida. Na história dos dois vê-se que eles tinham as mesmas angústias, mas as canalizaram de forma bem diferente.

“Une Saison en Enfer” é um livro de poesias famoso do Rimbaud, que poderia ter o título traduzido por “Uma temporada no inferno”. Pois é, será que eu teria tanta paz assim no inferno para ainda ter tempo para ler? (risos). Um inferno em que eu pudesse ter todos os livros e autores que ainda quero ler e reler, com toda a eternidade pela frente para degustá-los, seria um verdadeiro paraíso. Eu não ia querer outra vida, ou morte.

Como esse “crepúsculo” poderia durar 1000 anos eu levaria poetas, cronistas, romancistas, dramaturgos, biógrafos, jornalistas, filósofos, cientistas, etc. Levaria até revistas em quadrinhos, que eu adoro. Enfim, muita gente. Poetas brasileiros contemporâneos e outros mais antigos como Cecília Meirelles, Manoel Bandeira, Drummond, Murilo Mendes; e Rimbaud, Whitman, Pessoa, Rilke… e muitos outros, muitos.

Wilmar SilvaQual a função do artista na sociedade de consumo que hoje é uma aldeia global?

Telma da CostaO homem é consumista desde sempre, a proporção hoje é maior porque as condições são mais propícias em termos de acesso ao consumo. É preciso fazer um trabalho interno sério e focado, para que essa essência seja aceita e canalizada de outra forma. Mas a mudança só vem com o incômodo, e quem está incomodado em ser consumista?

Mas, mesmo com todo o consumismo que há hoje, isso não modificou as angústias e necessidades do ser humano… Os hábitos são modernos, mas as pessoas são as mesmas. O Ferreira Gullar disse uma vez _ não que tenha sido ele a inventar isso, mas eu gostei de ouvir de sua boca, porque eu o tenho em alta conta_ : “a arte nasce porque a vida não basta”.  A vida nunca bastou, em todos os tempos, e nunca bastará, porque o ser humano continua sendo o mesmo em sua essência, em seus desejos, quereres, angústias e ebulições. E que bom, porque se tudo fosse perfeito não haveria artistas para fazê-la mais bela, mais leve, ou não, porque a arte mostra tudo, e nela o outro se vê, e nem sempre gosta do que vê, porque não gosta de se ver.

Eu, particularmente, não compartilho da idéia da arte ser matemática: “vou fazer isso para alcançar tal efeito na emoção do outro, que resultará em…, etc e etc”. Eu acredito que a arte nasce de uma necessidade de expressão e de comunicação do artista, de suas inquietações e perguntas.

Wilmar SilvaO que pensa sobre o silêncio do mundo enquanto os Estados Unidos e Israel acabam com a Palestina?

Telma da CostaIsso é só a ponta do iceberg. Tantos outros silêncios me preocupam…

Mas falemos desse caso especificamente. Grandes nomes na arte, na política e economia nos EUA são judeus, então, o apoio incondicional a Israel é óbvio. Essas mesmas famílias foram parar nos EUA, expulsas de suas terras e de seu povo, no passado, por esses mesmos palestinos, ou por Hitler. O jogo virou. Eu vou completar o meu raciocínio falando dessa segunda parte, que aprendi numa entrevista a um cientista social que era judeu. Eu acho bom dizer que ele era judeu porque ele não estava defendendo os judeus e poderia parecer que quem foi entrevistado tenha sido um palestino. Achei legítimo o que ele disse.

Eu não sei de memória as datas, mas sei que na primeira metade do século XX as Nações Unidas propuseram, de maneira categórica, uma determinada divisão de terras entre palestinos e israelenses. Só que, naquele momento, Israel ficou com 20% a mais das terras que lhe eram devidas. No início dos anos 60 Israel tomou mais um pouco de terra, a Cisjordânia, dizendo que era para se defender, mas era apenas para ter mais poder político e maior alcance de fogo (o que hoje é desnecessário, já que os mísseis evoluíram). As terras que Israel tomou indevidamente nunca foram totalmente desocupadas pelos palestinos, que brigam por elas até hoje. O pior é que, no final das contas, Israel mais perdeu do que ganhou: ele tem mais terras, e menos tantas outras coisas que perdeu que perdeu com os seus ganhos. Segundo esse cientista político, se Israel quiser ter paz um dia, terá que devolver a parte que tomou indevidamente. Eu realmente acredito que esse dia chegará, porque não há mal que sempre dure; assim tem sido escrita a história da humanidade desde os primórdios.

Eu só acho uma pena o ódio e as mortes de ambos os lados, porque a violência gera ainda mais violência, e para ter paz é preciso ter coragem. Eles têm coragem de se suicidar, de matar e morrer por uma causa, e não têm coragem de ter paz.

Sobre o silêncio de que você fala, eu creio que essa sua pergunta já é uma contribuição para quebrá-lo; e assim, em outros momentos, com pequenos gestos, as pessoas terão consciência da verdade, e quem sabe essa verdade liberte, sim, porque a verdade é libertadora.

Mas, e os outros silêncios, Wilmar Silva?: o que estamos fazendo com a nossa desinformação quanto ao analfabetismo? E tantos outros problemas urgentes como a fome; a prostituição infantil; a polícia marginal facilitando a desordem e provocando matança, assaltos e medo; a nossa paralisia diante dos políticos que não cumprem suas promessas e vergonhosamente têm apenas fome de dinheiro e poder, e não de justiça; as estradas feitas com asfalto de 3ª qualidade a preço de 1ª, formando valas e buracos que provocam a morte de milhares de nós; a arte sendo relegada a 5º plano nos governos municipais, estaduais e federais; a falta de informação nossa e dos nossos jovens quanto ao período de ditadura no Brasil (a maior ditadura da América Latina foi a nossa, e os jovens não falam sobre isso, não tocam no assunto… é como se nunca tivesse havido uma ditadura aqui, me fazendo pensar que isso é campo fértil para que ela volte um dia); o direito dos deficientes físicos e sua inclusão na sociedade (nossa sociedade vive como se eles não existissem, porque nada que é fabricado ou construído no Brasil é feito sob essa lembrança); as Escolas Públicas, que já foram exemplo de ensino no país, reduzidas à vergonha; aonde está o dinheiro destinado aos hospitais? E quando há dinheiro não há investigação de seu uso.

O que estamos fazendo com a nossa desinformação e silêncio sobre o “efeito estufa”? O dióxido de carbono não é mais apenas um problema ambiental, é um problema de ordem política, porque só os governos podem pressionar as grandes corporações e fábricas. Todos seremos diretamente atingidos, não é coisa para daqui a um século não, e o que estamos fazendo no nosso silêncio? E os nossos pequenos lixos que consideramos que são tão pequenos que não há mal nenhum em jogá-los pela janela do carro, contribuindo para a poluição dos rios e mares? Falta responsabilidade e informação.

Eu creio que nós temos a responsabilidade de saber que a nossa opinião sobre os assuntos atuais pode contribuir para esclarecer e redirecionar muita coisa. É o chamado “efeito borboleta”, quando se diz que o bater das asas de uma borboleta pode ser uma provocação indireta para um vendaval ou clone a quilômetros dali, meses depois. Então, provoquemos vendavais aprendendo, lendo, ouvindo, dialogando, compartilhando, embasando opiniões, para que, no futuro, uma simples opinião na hora certa provoque o “efeito borboleta” para o término de uma guerra!

O que é preciso para colocar a arte como um produto de consumo que deveria ser distribuído entre alimentos no projeto Fome Zero?

É preciso um querer político.

Dinheiro há, mas é “preciso” engordar os salários e inventar mais cargos, então não há dinheiro. Dinheiro há e haveria mais se o país não fosse tão paternalista com os empregos públicos (e quem terá coragem de começar essa limpeza, tirando privilégios absurdos que os grandes cargos e salários públicos têm?).

E há miséria também. Segundo pesquisa, está na faixa dos miseráveis todo cidadão que consome até R$120,00 por mês. Quantas famílias há neste país varonil em que um salário mínimo é para alimentar 6 pessoas? Ou mais. Ou seja, miséria há.

O povo tem fome de comida, de justiça, de cultura, de arte, de tanta coisa… Mas como terá a mente sã se o corpo não está são, como terá o corpo são se a mente não está? O povo não tem dinheiro para o contato com a cultura, e mal sabe escrever o próprio nome; como poderá ler um livro ou um poema? Nas Escolas Públicas as crianças poderiam ter acesso aos livros de suas bibliotecas, de onde levariam esses livros para casa, e assim os seus pais terem acesso aos mesmos livros. Poderiam ter contato com a música instrumental e coral, o que lhes renderia tantas possibilidades presentes e futuras, no mínimo para desenvolverem a própria determinação, disciplina e concentração, já que a música devolve isso imediatamente em seu contato com ela. Para isso a criança precisaria ficar o dia todo na escola. O Darcy Ribeiro deu todos os caminhos, setas e trilhas, basta ter um governo de coragem, interessado no povo, que coloque em prática as idéias que ele deixou.

Wilmar Silva Se Telma da Costa realmente pudesse mudar alguma coisa no mundo o que faria pelos homens?

Telma da CostaJá que você colocou no singular, então, vamos do cosmos a mim, porque eu só acredito em mudanças a partir de mudanças internas. Eu só posso começar a mudar o mundo a partir de mim.

Mas se eu pudesse mudar alguma coisa no mundo mudaria tudo o que provocou o “efeito estufa”. O último anúncio científico em Janeiro de 2009 é que a cada 10 meses uma geleira do tamanho de Nova Iorque vira água, e que em menos de 30 anos o nível do mar terá subido 9 metros no mundo inteiro. Cada 30cm de aumento desse nível faz a água avançar 30m de extensão de terra. Pode imaginar o tamanho da catástrofe que nos aguarda? O problema não é só a perda de territórios e imóveis, é a água salgada invadindo os rios, contaminando a água doce, trazendo a sede à população, etc… Parece que quando a gente fala a palavra “população” a gente não está incluído, não é? Mas é bom começarmos a pensar que a população, no caso, não são os outros, é cada um, sou eu e você! Essa tragédia nos atinge pessoalmente.

Wilmar Silva O que pensa sobre a natureza como forma de compreensão do homem no espaço e no tempo onde se vive?

Telma da CostaNão sei se entendi bem a sua pergunta, mas vou tentar dizer o que a sua pergunta me propõe pensar. A Clarice Lispector voltou a esse tema várias vezes: quando você percebe a natureza ela te traz, no mínimo, o reencontro consigo mesmo. No contato com a natureza, animada ou inanimada, você liga pontos que, de alguma maneira, estavam desligados e você nem percebia.

Wilmar SilvaPara Telma da Costa, o que significa, por exemplo, comemorar o dia do índio frente a dizimação dos indígenas desde 22 de abril de 1500?

Telma da CostaGosto de pensar que a intenção foi boa quando se estabeleceu essa data de comemoração. Só que fica parecendo que como há o “dia do índio” então as contas estão acertadas.

Os índios deveriam ser as pessoas mais importantes desse país. Deveria haver patrulhamento para que o pouco de terra que ainda têm não seja invadido. Deveriam ser conselheiros de honra a respeito da terra, das estações do ano, e todos os conhecimentos herdados por seus ancestrais sobre a natureza. Mas não é assim. Isso me incomoda.

Wilmar SilvaSempre participando do Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, qual a importância de projetos coletivos onde a poesia é colocada no centro das atenções?

Telma da CostaÉ total. Muitas vivas ao Ademir Bacca, que na raça, visionário que é, consegue fazer um congresso desse porte, lá no interior do Brasil, por tantos anos seguidos. Porque Congressos como esse dão gás ao movimento poético no Brasil. Há outros congressos no Brasil e temos que dar vivas a todos os seus idealizadores, igualmente corajosos. Um congresso de Poesia é um lugar extremamente democrático, onde poetas, consagrados e iniciantes, compartilham do mesmo espaço de diálogo e troca.

Wilmar SilvaAfinal, Telma da Costa, para ser reconhecido como artista é preciso viver no Rio de Janeiro ou em São Paulo?

Telma da CostaVocê é a maior prova de que nem um, nem outro. Só é preciso ser. O reconhecimento virá, de uma forma ou outra, nesse tempo ou em outro.

Wilmar SilvaTelma da Costa, o que é necessário para se tornar célebre: marketing pessoal e contágio coletivo, ou apenas uma arte capaz de revelar a essência dos sentidos?

Telma da CostaÉ preciso mesmo responder a essa pergunta? (risos)

A necessidade de celebridades está em tudo nos dias de hoje, até em título de revista de fofocas. A pessoa é célebre mais pela lista de namorados do que pela qualidade do que faz. É igual àquela propaganda que é tão bonita, você fica tão entretido no visual, que no final não se lembra sobre o que era a proposta de venda. Você vê tanto uma pessoa na mídia que se esquece de analisar se o que ela faz é bom ou não. E normalmente não é. Pode notar. Eu não perco tempo em ler revista de fofoca porque se ela for da semana passada já está velha: o casal que estava apaixonado já brigou essa semana e agora cada um formou mais dois outros pares. E eles já estão com a vida ganha, eu estou na luta. A única coisa, em minha opinião, que continua atual numa revista de fofoca são as receitas culinárias no final dela. Já fiz algumas e realmente funcionam. Então eu prefiro gastar o meu tempo investindo na minha vida, lendo, estudando, movimentando o meu corpo, vendo um amigo, um filme, qualquer outra coisa que me sintonize comigo mesma.

Uma “arte capaz de revelar a essência dos sentidos”, como você disse, poderá deixar uma pessoa célebre ou não, mas se ela fizer arte pensando nisso, essa arte já estará comprometida e nunca entrará nesse estágio de essência.

Só o tempo dirá se uma arte realmente vai ficar. Johann Sebastian Bach foi um músico alemão a quem a música ocidental deve praticamente tudo. Depois de Bach nunca mais a música foi a mesma. Seus conceitos estão até num solo de guitarra de um grupo de rock, mesmo que esse guitarrista nem saiba disso. Mas ele morreu sem sequer imaginar o valor de sua obra. A sua busca sonora mudou toda a concepção musical universal, e nem supôs que ele era tudo isso. Porque normalmente o gênio não sabe de sua genialidade, ele simplesmente está mais ocupado com outras coisas, com a sua busca, com a sua expressão; a última coisa em que está ocupado é em ser célebre. Apenas 150 anos depois de sua morte, Felix Mendelssohn, outro compositor alemão, descobriu a obra de Bach, por acaso, comprando carne no açougue perto de sua casa. Mas isso é outra história.

Wilmar SilvaSe a música é a mais sublime das artes, o que é poesia? 

Telma da CostaÉ música. (risos)

Mas falando sério. Tudo tem o seu lugar. Diz-se que a música é a linguagem de Deus; eu acho que é porque todos a entendem, mesmo que não seja só instrumental, mesmo que cantada em um idioma desconhecido. É uma química impressionante. Até os animais são tocados pela música. Talvez apenas por isso diz-se que a música é a mais sublime das artes.

Já a poesia para alcançar a alma de alguém tem que ser compreendida no idioma, e mesmo assim o idioma é limitado, como eu já disse anteriormente. Mas quando o poema toca ele não precisa de mais nada, não precisa de música que o acompanhe, porque o poema é uma expressão completa em si, ele tem autonomia. A música não precisa de letra, ela também é autônoma. Mas às vezes uma letra fica esplêndida quando acompanhada de uma boa melodia, aí é um casamento perfeito. Às vezes a letra de uma  determinada música é um poema em si, como algumas letras do Chico Buarque e Cartola, mas não é sempre que isso acontece, nem tem que acontecer.

Eu tenho um livro, que comprei num sebo, que nele há poemas e também letras de músicas. Na minha opinião não funcionou, pois ficou claro que algumas lindas letras de música, no mesmo livro com outros poemas, se mostraram pobres. Fiquei frustrada. Aquela letra com música era nobre, mas sem música era pobre.

Acho que ao longo dessa entrevista em fui respondendo, aos poucos, o que penso ser poesia, não é? Eu amo poesia!

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Sobre o Autor

Oise - Wilmar Silva

Oise - Wilmar Silva

*Wilmar Silva é poeta performer e criou a coluna OISE para o Crônicas Cariocas.

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