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| TEXTO: ERIKA LIPORACI - ILUSTRAÇÕES: FRANCCI LUNGUINHO | |
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02.01.09 | Prólogo
Eles estão quase à porta, posso ouvir. Vi da janela quando desceram do veículo. De cara, entendi que o negócio era comigo. Pensei em escapulir pela escada enquanto subissem pelo elevador, mas um deles ficou plantado na entrada do prédio... |
09.01.09 | Capítulo 01
Sempre que tento lembrar como começou isso, penso no barulho dos saltos. Talvez por isso não saiba precisar uma data: os saltos já estavam lá, brincando com meu subconsciente, antes de qualquer aproximação física. Claro... |
16.01.09 | Capítulo 02
"Ela cruzou as pernas lentamente...” não, não dá, muito Sharon Stone. “Ela cruzou as pernas decididamente...”. Lenta, decidida, o que importa? Mais uma vez, volto com o cursor e apago a maldita frase a partir da qual não consigo avançar... |
23.01.09 | Capítulo 03
Depois de estacar no primeiro capítulo do meu aguardado - aguardado por quem? - romance noir por meses a fio, eu finalmente acordei enxergando uma luz no fim do túnel. Eu tinha um título, e era um título de efeito! |
30.01.09 | Capítulo 04
Aquilo realmente acabou com meu dia, com meu humor, e com qualquer fiapo de sono que restasse em mim. E a página continuava em branco, com o cursor a piscar como uma condenação. “Por seu crime de soberba extrema... |
06.02.09 | Capítulo 05
A bolsa me olhava de cima da mesa da cozinha. Frases digitadas a esmo deletadas, frustração, cansaço, mais uma xícara de café, incontáveis guimbas no cinzeiro... e a bolsa a tudo observando. A cena da madrugada anterior... |
13.02.09 | Capítulo 06
Nem lembro há quanto tempo não tirava um cochilo decente, mas o fato é que, após me livrar da bolsa de Alicia Montez como quem joga um corpo no fundo de um lago, tive várias horas de um sono pra lá de tranqüilo... |
20.02.09 | Capítulo 07
Incrível como o gozo restaura o sono de qualquer criatura! Puxei meu braço dormente de debaixo dela e virei de lado. Vi, pela luz noturna a entrar pela janela, que já era noite, embora não tivesse a mínima noção do tempo decorrido... |
27.02.09 | Capítulo 08
É, o pão acabou. Putz, logo na hora em que eu tava a fim de um sanduíche... iogurte, biscoito, queijo. Acabou tudo. Café ainda tem. Pelo menos, isso. Tá bom, eu sei que era só descer e comprar o pão na padaria da esquina, logo ali... |
06.03.09 | Capítulo 09
Não estou acostomado a não receber visitas. A não ser, é claro, dos meus fiéis entregadores. E eles costumam ser anunciados pelo porteiro. Surpresa maior do que essa só encontrar aquela figura parada no limiar da porta... |
13.03.09 | Capítulo 10
Após a saída de Alberto Montenegro, tenho a plena consciência de ainda ter ficado vários segundos fitando a porta fechada. Minha confusão mental, que já não era pouca, atingiu níveis estratosféricos. Alicia sempre me despertara... |
20.03.09 | Capítulo11
A boa notícia é que o romance caminhava a passos largos. Depois que Alicia saiu, o chope acabou não rolando. Não tinha mais clima para comemoração. Tirei a camisa e pendurei de novo no cabide. Tirei a camisa e pendurei de novo no cabide... |
27.03.09 | Capítulo 12
Sim, o livro iria se chamar “Gosto de Sangue”. A cada dia, a idéia me seduzia mais. Àquela altura, já não estava nem aí para o caso de algum babaca detectar - e sempre tem um escroto de plantão pra isso - a origem do título. Qual o problema |
03.04.09 | Capítulo 13
A estranha correlação entre nós dois e os personagens do livro saía de meu controle. Claro que, a princípio, havia sido intencional. Mas agora eu sentia que fazia de Maurício uma catarse de minhas frustrações... |
10.04.09 | Capítulo 14
Não me perguntem, mas depois do horror que presenciei eu fui correndo até em casa. Às vezes, parava para tomar algum fôlego e logo recomeçava a correr. Minha cabeça girava e eu tinha certeza de que desmaiaria se parasse... |
17.04.09 | Capítulo 15
"Eu morava em Bueno Aires. "Tinha me formado em Psicologia e arranjado um emprego numa clínica de renome. A vida estava indo bem, apesar da crise que afundava meu país. Eu nunca fui de sair muito, mas naquela noite... |
24.04.09 | Capítulo 16
Eu estava vivo.Abri os olhos e vi que estava estirado no sofá dela. Sentei, assustado. Levei a mão ao pescoço e não senti nenhum furo ou ferimento. Levantei de um salto e fui checar minha aparência no espelho que havia no corredor... |
01.05.09 | Capítulo 17
Alicia já havia morado em três apartamentos diferentes nos últimos dois anos. Toda vez que alguma coisa parecia suspeita, se mudava. Como sempre alugava seus apartamentos por temporada e pagava adiantado... |
08.05.09 | Capítulo 18
tempestade seguiu-me uma estranha calmaria. Alicia deixou de falar em ir embora e pareceu muito satisfeita quando eu sugeri que ela se mudasse para a minha casa. Não, não era como se estivéssemos casados... |
15.05.09 | Capítulo 19
Puta merda! Ela disse pela primeira vez que me amava e eu nem pude reagir! Era só o que eu conseguia pensar enquanto fazia o que de mim era esperado como um zumbi. O sorriso social estava bem atarraxado no meu rosto... |
22.05.09 | Capítulo 20
Marcelo.
Como já deves saber a esta altura, parti de vez. Depois de muito refletir, cheguei à conclusão de que não poderia continuar jogando nos teus ombros um fardo que só cabe a mim suportar... |
29.05.09 | Capítulo 21
Nos últimos dias, já desiludido de meu intento de encontrar Alicia, desisti de tudo. Não posso dizer que ela acabou com a minha vida. Não, melodramático demais; a verdade é que minha existência já não valia muito antes dela... |
05.06.09 | Capítulo 22
Isso aconteceu há quatro dias. Ontem, finalmente, eles resolveram tomar uma atitude. Quando digo “eles”, na verdade, não sei a quem me refiro: minha mãe, Miguel, Ronaldo, Cristiana, o porteiro, o coelhinho da Páscoa... |
12.06.09 | Final
Eu certamente estava numa sinuca de bico, embora soubesse que poderia, a qualquer momento, começar a me comportar do jeito que se espera de alguém são. Eu tinha inteligência suficiente para dar a eles o que eles queriam... |
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