Matei Porque Amava Ela!
Foto: Divulgação 
Cena do filme "Conceição – Autor bom é autor morto"
|
|
Abro, como sempre, todas as manhãs, o jornal do dia. Mas confesso que nunca estou satisfeito com essa abertura. Sempre quero mais. Leio o dito cujo e me deparo com um sacripanta –leia-se feladaputa –, ar mais inocente do mundo, confessando ter assassinado a mulher, porque – usando toda a sua cacofonia e violência – “amava ela!”. Sentiram? Pois é. Lasquei quem achou que este escriba desconhecia a cacofonia do título aí de cima. Pois bem. Leio, para, em seguida, concluir: faz tempo que esse tipo de defesa entrou na moda – “matei por amar a infeliz!”
Essa é mais uma das jóias que enfeitam os pescoços longos da violência e da falta de respeito a esse povinho que, sabido que sempre fora para outras coisas, tem nesses homens probos e cultos e acima de qualquer suspeita o melhor dos exemplos. Triste povo meu. O sacripanta disse ainda que matou a mulher porque ela quis “largá-lo!”. É claro que não disse assim, cheio de ênclises, como "fi-lo porque qui-lo!". Foi seco. Sem vaselina. Rasgando o bocal desde a entrada até a saída: "Ela não me quis mais e eu a matei!”. Claro, também, que não disse “a matei”. Analfabeto, o ex-croto, disse “matei ela!”.
Da mesma forma que gosto de soltar os olhos e deixá-los seguir o caminho escolhido por eles, gosto, também, vez em quando, sonhador que sempre fui, sem nunca ter sido um nefelibata (viva o Aurélio!), de ficar imaginando como seria bom que toda defesa para esses corruptos e sacripantas, croto e ex-crotos, tivesse essa clareza e poder de convencimento. “Ora, seu doutor, roubei porque o que eu ganhava era muito pouco; fui corrupto porque houve um corruptor, e não pude evitar; o senhor sabe, quem nasce para Paulo Maluf ou Renam Calheiros, nunca chegará a Madre Teresa de Calcutá”. E outras pérolas dessa vasta e bela e impávida casa de Mãe Joana.
A defesa do sacripanta – claro que isso não é defesa, mas façamos de conta que é – não convenceu. Se tivesse dito “roubei para comer”; “roubei o banco porque, inúmeras vezes, fui assaltado por ele”; “soneguei impostos porque a renda que eu tenho nunca me rendeu porra nenhuma”; “vivo quase passando fome, pendurado num cheque especial, que, por amizade com o gerente, ainda não me foi tirado”. Uma coisa assim, até que este escriba perdoaria.
Nada vence o talento, logo o talento não vale nada. Por que essa lembrança? Porque outro feladaputa talentoso, gigolô e cheio da grana, mas que não valia nada, chamado de Doca Street, achando que não era crime matar uma pantera, matou sua mulher, Ângela Diniz, com quatro tiros no rosto, e se não foi ao cinema, escreveu um livrinho intitulado “mea culpa”, fingindo um arrependimento tardio, e ficou rico.
Ora, se ela queria “largar ele”, ele que procurasse outra, largada ou não, e refizesse a vida. O amor? Putaqueopariu pra ele! Ele não é de uma só pessoa, mas vulgar, de todos que acreditam nele, Bastava lhe fazer um pequeno carinho, o convidar para passear e, no dia dos namorados, mandar-lhe-ia (gostei da mesóclise!) flores. Matar por ele? Só um feladaputa que não conhece a volubilidade desse sentimento pode agir assim.
“Ela queria me deixar a todo custo!”.
Disse o feladaputa na vã tentativa de justificar um valor que nunca possuiu. Qual o custo para evitar que o amor seja motivo de um crime bárbaro – todo ele, indistintamente, é bárbaro – como o seu? Eu bem que poderia estar falando, como sempre – e a Juliana Paes, se ela me desse, sempre comeria -, sobre as minhas coisas & loisas sem nenhuma importância. Mas, embalado no acaso, abri o jornal e o sangue jorrou no meu rosto. Fazer o quê? Limpar e fazer de conta que este escriba nada tem a ver com isso? Tem. E por isso mesmo passou os seus quinze minutos de fama - hoje quem me difama, viveu na lama também - escrevendo essas mal-traçadas para vocês.
Pode terminar com um Em Tempo? Tudo bem. Em tempo: o escriba agradece os imeios dos seus dois e únicos leitores, que, todos os dias, visitam a sua - leia-se minha - caixa postal. Muito boa a notícia do nosso poeta e corredor de rua, Francci Lunguinho, editor do nosso cronicascariocas.com, de que as mal-traçadas deste escriba são lidas e preferidas por mais de mil leitores diariamente. Uma confissão: fiquei feliz! |