Poesias

Poesias de Linaldo Guedes

Linaldo Guedes
Escrito por Linaldo Guedes
Por Linaldo Guedes*

Para Lenilda (minha doce e pequena irmã)

foi minha irmã
minha doce e pequena irmã
com os olhos da ressaca que não bebeu
que acusou: você tem dupla personalidade!

olhei de um lado e de outro
mas não acusei o golpe

como fazer entendê-la
que estive em vários lugares ao mesmo tempo
dancei castanhola na espanha e recitei
sonetos de camões em lisboa sem sair de cajazeiras

mas também escutei pancada por pancada
a sucessividade dos segundos sem graça
feito um augusto sem anjos mórbidos,
não saí do boteco, tomando minha cachaça

como ela vai ver o ir e vir de minhas retinas
olhando ao longe e ao perto para o colo das meninas
querendo repousar minha quimera em mais de um
pensando apenas em deixar de ser um zumbi comum

como explicar, à minha doce e inocente irmã,
que as flores do mal povoam meu jardim
que bebo absinto, trago erva e não trago nada no peito
além da vontade de estar além de mim

como escrever poemas, minha pequena irmã,
quando não estou amando loucamente
por isso tenho que sempre ter um amor guardado no peito
e outro repousando no espinho do meu leito

como lhe sugerir que as fábulas mortas
são apenas leituras la fontaines
que a vida se abre na janela do seu quarto
enquanto outra nasce em uma mesa qualquer de parto

como sonhar junto com minha doce e profana irmã
deitado, ao lado de freud, num mentecapto divã
quando sou paz, sou calmaria e tempestade
quando sou loucura e a agonizante busca da felicidade

não, minha irmã
não, minha doce e pequena irmã
não, minha doce, pequena e inocente irmã
não, minha doce, pequena, inocente e profana irmã

não tenho dupla personalidade
e nem tenho heterônimos, apesar do amor a pessoa

tenho apenas a certeza de que não posso ser ilha
enquanto os barcos acenam ao longe todos os dias
cheio de corsários e damas de seios redondos
fazendo o convite para o mar que se divide
entre o atlântico e minha pacífica monotonia.

Lili
há irmãs, e irmã

num tom opaco de uma manhã qualquer
é seu sorriso que há de brilhar

não há como explicar os dias da vida,
nem os anos, nem os meses
em que fomos siameses:

zorro e tonto, em cavalgadas imaginárias;
xuxa e angélica, em carrosséis invisíveis;
personagens anônimos, em novelas de ficção;
palmeiras e são paulo em duelos de botão

há irmãs, e a irmã

esta que nunca desafia o sal da vida
mesmo que o sol insista em se esconder por trás da creche.

O primeiro dia do resto da minha vida
foi, lembro agora, no primeiro dos dias em que tornei-me seu refém

a praça de guerra era em pleno trânsito
você dissolveu meu harém, depois
virou esposa, concubina, parente, criada:

enquanto os carros soltavam fumaça preta e eu tragava meu vício branco

foi depois daquele dia que não quis mais praticar rituais haraquiris

já era, então, um guerreiro com a sabre na mão
lâmina afiada no olho para ofertar uma oração:
tornando-me seu, somente seu, sem resgate a pagar:

e os carros continuavam atropelando o destino de quem se imaginou um dia nobre

naquele primeiro dia em que tornei-me seu refém, eu lembro agora

fiz-me cativo para o todo e o sempre
porque o sempre não comporta a alforria que você me ofertou um dia
e o todo é tudo que se escreve dentro de seu olhar, minha ama e senhora:

ah, que bom que os carros nunca estacionam monotonias naquela rua!

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Luz del fuego
à luz da lamparina
os livros tinham mais letras
– leitura removendo vírgulas
remoendo pedras
: carro de boi em silêncio noturno

(menina de anáguas e apelos
resto de réstias na parede)

à luz da lamparina
o sítio era sempre maior
quanto maior fossem as páginas de sonho
– sem marca-livros na memória
– com incêndios fátuos no vão das coxas.

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Os ferreiros
um bate lá
outro bate cá
um bateaqui
outro bateacolá

por instantes desafinam
a monotonia da caatinga.

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Pote de ouro
(no fim do arco-íris
o olhar do vaqueiro
em preto e branco).

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Primeira infância
os meninos do sertão
já nascem sorrindo para a rua

às vezes nus
outras, não

fazem dos paralelepípedos
residências oficiais de verão
(já que o inverno é exceção na alma)

os meninos do sertão nascem livres para sonhar

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Beira de estrada
são tantas casas anônimas
são tantas casas acanhadas
erguidas na beira da estrada

(o alpendre
a rede
o cachorro
o sítio da vó)

são tantas casas
e a memória enferrujando a alma.

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Entre o rio e o mar
tem semanas que acordo janeiro
versos feitos cabral
seco ácido sertão
lâmina e pedra na poesia
galo escondendo a manhã
dias em que custam suores
recordar outros valores
lembrar dos asfaltos de jambeiros
andar pelas ruas, jaguaribe
: há que sempre mirar adiante
nadar nada no capibaribe
colhendo feijão e poemas
lá na cozinha da casa grande tão pequena

tem semanas que me fixo em junhos
versos vêm de vinícius
solto louco sezão
sonetos infiéis em minha castidade
elegias e sempre um grande amor
dias que valem suores
vale o hoje, o agora, vale o já
cajazeiras é só uma página e saudades
outras ruas outros olhos outros verdes
madalenas e seus códigos secretos
mergulha a poesia em tambaú
– plantar sonhos e fantasias
no quarto, onde deve ficar minha pequena

tem semanas e dias dezembros
onde espero, só nos livros:
é natal, temos que recomeçar.

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Parabolicaleitura
as casas sustentam antenas
eu vi
fossem antenas poundianas
eu não via

EU LIA:
(as antenas globalizam novas raças).

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Memória erótica
teu corpo
já foi relva

(lembra da enchente em nossa alma
e do banho nas biqueiras da 21 de Abril?)

teu corpo
hoje é seiva

(lembra o gozo que veio para inundar a fonte
e semear a aridez do nosso solo esquecido!).

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Adolescência
quando já havia percorrido trezentas léguas

lembrou-se dos subterrâneos da alma

feridos pelos galhos de juremas

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Invídia
Noirs dans la neige et dans la brume,
Au grand soupirail qui s’allume,
Leur culs em rond
(Arthur Rimbaud)

“Sente-se bem que para eles ali na feira os balões de cor são a única mercadoria útil e verdadeira indispensável”
(Manuel Bandeira)

nunca conseguira entender a ausência de pão
(enquanto lombrigas roncavam
pratos vazios no chão)

mas nunca conseguira entender mesmo era a ausência daquele caminhão
que seu primo
cobria de tanto mimo

um caminhão vermelho com a sirene dos bombeiros
movido à pilha em movimentos pela sala bem decorada
vai e vem brilhando nos olhos daquelas alegres manhãs
e o menino conformado com o ronco ausente de seus carrinhos de rolimã.

Sossego
como azeite para o palestino:
correria solta de menino
pés no chão barro batido

por trás da casa, o açude
banhando mãe, banhando filho, banhando primos
tudo nu, sem malícia nem milícia

na casa grande, a avó
com panelas chiando fogo
e janelas abertas para o silêncio

na cadeira de balanço, o avô
sentado por baixo do grosso chapéu
o jeito todo seu de ralhar até com o céu
(- eita, moleque, cabelo grande é coisa de mulher!)

na distração dos adultos
meninos correndo feito loucos e sertão
abrindo cancelas
fechando o curral para barulhos e bois

no sítio, ninguém sabia que existiam guerras do outro lado do azul.

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Matraga
matraca silenciosa
liturgia de augusto
remoendo
moendo
doendo
moenda
– bagaço de homem no altar dos sertões

de repente, a hora chega
pai, filho e espírito santo
agora só quero rezar

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Condimento
saber de teus cheiros
é saber da cheia
que resseca o sertão

com a pele do olfato
transbordando águas
entre coxas, buracos e palato:

cheiro verde nas narinas
erva do mato, minha daninha.

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(a) caba (que é) marcado
sou um homem marcado
marcado para doer
gado preso no curral
quando não, abatido
comendo baudelaire
na erva daninha de meu capim.

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Milagre
menino deita na rede:
– bença pai!
– bença mãe!

lá do outro quarto vinha a resposta:
– deus te abençoe, filho!
– deus te dê saúde, filho!

e as malditas sombras na parede
e a insônia chata de cada noite
e as dores por ter jogado bola
e a preguiça de ir para a escola

sumiam!

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Mário de Andrade visita o Sertão
parabólicas
antecipam a primavera
que não veio
folhas secas vestem
as ruas
com a realidade do solo

bêbados violam as esquinas
com a viola
que entristece as meninas
– serenata sem a harmonia
bucólica da noite

(alguém lê mário de andrade
ninguém conhece mário de andrade)

o homem traga o cigarro
o homem traga o insulto ao burguês
o homem permanece sentado
sem insultar o burguês

(o copo na mão, o livro no chão
o violão na outra, mário de andrade no chão)

um garoto
pedala sua bicicleta rumo ao futuro
o garoto vai ser emboscado
e não encontrará mário de andrade

um jegue elétrico
anuncia as promoções
da livraria leia
(onde ninguém lê mário de andrade)

uma mulher reza o terço
tece a proteção de todos os santos
terrestres
– suas orações naufragam
na poluição do açude grande
(espelho do tietê?)

um militar marcha
ocioso
há reflexos de cãimbras
em seus passos
há ânsia de poesia
em seus traços
(mas ele não lê mário de andrade)

uma mulher colhe acerolas
cura suas gripes
– letargia que invade
seu inconsciente literário
(mas ela não sabe quem foi mário de andrade)

as meninas exercitam a libido
as meninas dançam na fogueira
(“é noite de são joão vai amanhecer o dia!”)
enquanto o vento
suga as trezentas cinzas
as trezentas-e-cinquenta cinzas
da poesia de mário de andrade.

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Existencialismo
o ser e o nada

o ser é nada

o ser nada
e
mergulha
feliz
nas águas
do boqueirão.

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2 velhos
sentados
na calçada

jogam conversa fora

é fim de tarde!

e às vezes
só querem jogar olhares fora

(o silêncio fala
sobre a vida que já veio).

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Sobre o autor

Linaldo Guedes

Linaldo Guedes

Jornalista, poeta, graduado em Letras e mestrando em Ciências da Religião, na UFPB.

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