O Zombeteiro do Bofete
“o ódio exibe suas presas gotejantes pelas ruas”- Dione Ackerman
Nos anos 80, ele era conhecido como “Zezinho Neguinho”, o “Mão de Concreto”, o “Homem do Bofete”. Circulava pelo centro da capital, Teresina, Piauí, fazendo bicos de servente de pedreiro e bebendo diuturnamente umas e outras das muitas cachaças, brancas e coradas produzidas na terra.
Exercera a profissão de servente de pedreiro, por vinte anos, em uma construtora local. Consistia o seu labor em carregar o balde de concreto, escada acima, nas obras em que trabalhava. Como em uma cantiga de grilo!
O mestre de obras o detestava. Ele se apresentava mal, cheirava sempre a cachaça, era gago, teimoso, embirrento, tapado, enfarento, e atrapalhava a todos, invadindo sempre alguma conversação em curso.
Um chato de galocha em potencial! Como tinha família grande não o despediam, porém obrigavam-no a conduzir a balde de concreto, por todo o tempo, escada acima, com a mão “sempre espalmada”. Como um castigo permanente!
Fechasse ele a mão, recebia como punição o corte dos pontos do dia trabalhado. O seu algoz, o mestre de obras, um pequeno tirano, o massacrou pelos vinte anos em que serviu na empresa.
Num dia de cão, os seus nervos explodiram! incorporou a alma de um bicho vindo das trevas e saiu na mão com o tirano. Foi um rio de sangue que escorreu para todos os lados! Foi acionada a polícia para contê-lo na sua ira demoníaca.
Durante o confronto com os militares enfrentou na mão o efetivo de três viaturas policiais. Foi despedido da empresa, processado e condenado.
Iniciou-se assim a sua Via Crucis, fazendo bicos, fazendo mais filhos, bebendo demasiadamente, arranjando confusão. Volta e meia à família o tirava da carregarem do primeiro distrito, no centro.
O mundo gira e a Lusitana roda, a violência vira o mundo de cabeça para baixo! Neguinho Zezinho virou bicho urbano.
A malandragem viu nele um potencial, passaram a contratá-lo para resolver contendas de rua. A conclusão do empreendimento consistia em se aplicar uma tapa no rosto da vítima, a famosa “Tapa da Mão de Concreto”. Embriagavam-no antes, e o estimulavam descrevendo a futura
vítima, como sendo portadora de supostos desvios amorais.
Na hora da via de fato, o corpo da vítima voava pelo impacto da “Mão de Concreto”, o que era potencializado pela incorporação do ente das trevas e a platéia que pagara, e a tudo assistia, chamava o ato de “Bofete do Neguinho do Cajueiro”. Um verdadeiro DDI nas orelhas. Um grande estalo! Um show!
O tempo o transformou num anormal, num masoquista! Quando alcoolizado no bar do Alfredo na Rua São João, centro estando embriagado incorporava um ente zombeteiro e, munido de um apito plástico, imitava o sinal de pedido de parada, característico dos guardas de transito, em seguida pulava a frente dos coletivos urbanos, que desciam a rua rumo ao centro.
Na frenagem súbita da condução, os passageiros caíam, sofriam escoriações, e o veículo que não conseguia parar, na primeira frenagem, o atingia, batendo no seu corpo musculoso e elástico como se batera num pneu de caminhão.
Quase sempre sofria pequenos danos apenas. Logo se recuperava e em seguida voltava a praticar a mesma ação em vias públicas.
Estabelecia assim, uma seqüência suicida! Atingido era levado ao Pronto Socorro do HGV e ao retornar, já recuperado, voltava a pular à frente de outros coletivos, quando se embriagava novamente e se comportava como um cabrito aos pulos.
Sempre que o encontrava, notava que os seus olhos passaram a ter uma expressão vazia, sem rumo. Os parceiros de rua e bebida, sempre que ele “trincava” davam-lhe um banho de talco, ficando ele assim, nestas ocasiões com a aparência de um zumbi.
Só apareciam as bolotas dos olhos!
Formava-se nestas circunstâncias, a personalidade de “Zezinho Neguinho”, o cavalo do Zombeteiro, a “Mão de Concreto”, o “Homem do Bofete’, o executor da mão de ferro, o astro do bofete”! Um show!
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