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Contos

Os pontuais são uns angustiados

Flavio Guberman
Escrito por: Flavio Guberman
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Imaginemos uma pessoa que está esperando outrem. Um homem qualquer. À medida que o tempo passava, ele via-se mais perdido, mais agoniado e, logicamente, mais inseguro. A pessoa aguardada chegaria? A espera já durava uma eternidade… Hipérboles à parte, de fato, parecia que ali estava há séculos. De pé e com calor, ia passando o peso do corpo de uma perna para outra. A cada certo período em que os ponteiros do relógio avançavam, mudava de posição, escolhia nova pilastra, nova vitrina, enfim, como que envergonhado de ficar ali à toa, ocioso e inerte, um acinte aos que se dirigiam apressados a seus afazeres. Particularmente, ele detestava perder tanto tempo. Por que as pessoas eram assim? Se há um horário preciso, marcado, deve-se respeitá-lo! Os intervalos de troca de lugar iam-se tornando mais curtos. A espera estava no limite do suportável. A primeira fase da “Síndrome da Espera Pela Pessoa em Atraso”, a impaciência, estava chegando ao fim. Iniciava-se a segunda: a irritação.

Efetivamente, aguardar alguém faz que o infeliz pontual sofra agruras indescritíveis, dividida em fases. A primeira é a impaciência, fase em que se olha o relógio a cada trinta segundos na vã esperança de que o ser aguardado chegue mais depressa por causa disso. É uma fase trompe l’oeil, mas que rapidamente passa à segunda, a irritação. Como é possível que alguém tenha tão pouca consideração pelo outro? Como alguém pode, impunemente, roubar de outrem um bem tão precioso e irrecuperável quanto o tempo? E o pior é que esse crime descarado não é punível! Como uma pessoa pode ser tão irresponsável? E todas essas perguntas ficam pululando na cabeça do pobre coitado. E, inexoravelmente, leva-o a uma profunda irritação. Passa-se a pensar em gritar com o atrasado, em dar-lhe uma bronca en bonne forme, enfim, em fazê-lo ouvir umas verdades incontornáveis. Uma miríade de pensamentos tumultua a razão. Se porventura o retardatário cai na besteira de chegar nesse momento, pode-se esperar uma briga, cara feia e crises do mesmo jaez. Se, no entanto, chegar dali mais um pouco, encontrará o desolado em meio à terceira fase, a frustração.

A frustração é a fase mais curta. Há vezes em que ela não dura mais que alguns segundos, breve interlúdio esse que, todavia, podem parecer horas ao que está aguardando. Qualquer seja o tempo que ela dure, o sentimento é o mesmo, vem a ser o dissabor de ver alguma idéia soçobrar, o lamento por algum plano que jazerá irrealizado e a lamúria por toda aquela situação, isto é, aquele tempo irremediavelmente perdido poderia, obviamente, ter sido muito melhor empregado. Há, também, nesse momento, uma ponta de decepção. Passa-se, então, imediatamente à quarta fase, que é a angústia. Essas duas fases são tão próximas e tão imediatas que muitos vêem-nas como uma.  Mas não se engane; são distintas. A angústia inicia-se com a dúvida sobre se a pessoa esperada esqueceu o compromisso. Segue-se a indagação se, quiçá, não tenha havido um erro qualquer de local, data ou horário. Ato contínuo, surgem as conjecturas mais dramáticas: terá acontecido alguma coisa? Um acidente? Enfim, pululam as questões que não terão resposta.

Eis que nosso herói apercebe-se, ainda ao longe, a figura da pessoa esperada. O alívio é imediato e, na maioria dos casos, até se esquecem as reclamações. Anistia-se incontinenti o criminoso que, ao se aproximar, sempre tem uma desculpa ou justificativa, conforme o caso, que sói passar pelo tráfego ou qualquer coisa símile. De toda a forma, em geral, é mentira. Simplesmente não fez caso do relógio. A hora é, para o brasileiro em geral, uma noção abstrata que comporta de sessenta a seiscentos minutos. O carioca, porém, soube aprofundar a noção e piorar o indescritível. Mais uma de nossas incontáveis e imperdoáveis mazelas.

Há os que encaram esse vício com bonomia, o que é um verdadeiro absurdo, porquanto só merece opróbrio. Leniência que, em si, é outro equívoco de monta. Já contabilizaram o quanto o cidadão, a cidade e o país perdem com isso? E mais, e o respeito aos direitos dos demais? Remetem-se às calendas? Todos aqueles comportamentos inescusáveis (como chegar ao teatro ou ao cinema após o início, atrapalhando os bobalhões que ousaram chegar na hora) são máculas morais e falhas que depõem contra toda nossa sociedade. Ora, se há tal laxismo de caráter em tão pequenas coisas, onde estará a firmeza necessária para lidar com outras questões? Triste é a realidade e sombrio o porvir. Oxalá um dia perceba-se que essa tibieza comportamental é apenas um integrante do longo séquito de nossas idiossincrasias tupiniquins. Para corrigirmos nosso país, temos de fazer corretamente, trabalhando sob todos os ângulos.  A riqueza, já diz o velho brocardo, está nos detalhes. O maior óbice? Bem, para continuarmos na linha dos ditados edificantes, o inferno são sempre os outros!

E o nosso herói nisso tudo? Será o eterno angustiado. Pontual em uma terra de impontuais, lacrimosa sina. Eternamente fadado a guardar lugar nas filas para os amigos e relações que, como o sabem rigoroso com os horários e compromissos, nem se incomodam em tentar ser corretos. Vão-se acumulando, dessa forma, angústias e decepções. Não terá chegado a hora do basta? Não terá chegado o momento de se romperem esses grilhões? Quando se abrirão as asas da liberdade? Não terão soado as trombetas da revolta para que se conserte isso, como tudo mais que está podre em nosso país? Pontuais do Brasil, uni-vos! De algum lugar temos de começar a ajeitar nossa terra.

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Sobre o autor

Flavio Guberman

Flavio Guberman

Flavio Guberman, advogado, historiador e professor no MBA em Finanças Empresariais da UFRJ, é apaixonado pela cidade em que escolheu morar, gostando de contar sua História e seus histórias.

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