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Contos Crônicas

Dialogando com Maiakovski

Bia Mies
Escrito por: Bia Mies
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Em uma segunda-feira de clima imprevisível, Isabela sentou-se em duas cadeiras – uma para acomodar parte das canelas e os pés. Trazia um livro novo para casa, mais um dos achados de suas perigrinações a sebos. Toda vez que viaja – e como viaja -, Isabela gosta de perder-se entre os recém conhecidos asfaltos e paralelepípedos e perceber como as pessoas gesticulam – uma sua teoria, que sempre sustenta em rodas de cerveja ou tardes de café, é a de que cidades possuem identidade, e esta se traduz nos gestos de seus cidadãos. Perceber os locais e sentar-se onde der na telha, acender um cigarro, colher uma flor, fazer pequenas anotações em um pedaço qualquer de papel que esteja solícito em sua bolsa, improvisar um petit picnic com qualquer alimento que pareça típico e procurar um sebo. A mágica que os sebos encerram entre teias de aranha e poeira é um mistério que pretende nunca desvendar: eis que se percebe a trocar olhares com cores e sessões de literatura; insunua-se para títulos inusitados e capas sem ilustrações; cede sempre ao impulso de devorar uma nova brochura, de se jogar na cama por um dia inteiro na companhia de um autor desconhecido, por mais casual que a leitura venha a se mostrar. E eis que esbarra com o de capa amarela e surrada, repleto de cicatrizes e inscrições à nanquim. Por mais que veja como verdadeiro crime tatuar sua caligrafia em peles que passariam pelo mundo com uma vida útil muito superior a sua idade atual acrescida da do leitor que nos lê, Isabela tem uma queda pelos ousados, maculados, malandros e buliçosos volumes cheios de escritas à tinta ou grafite.

Este, em especial, fala sobre Maiakovski. A voz do artista russo polivalente sempre reverberara entre seus poemas favoritos, talvez pela sua temática do amor, ou, quem sabe, pela constância de Lila Brik na essência de tudo o que escreve. De cor, Isabela sabe, comumente é assim:

Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração levamos o corpo,
sobre o corpo a camisa,
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica
pelo sistema Müller.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce,
floresce,
e depois desfolha

Toda leitura lhe abre um cantinho novo na cabeça, uma porta, gaveta ou até mesmo um reflexo mais atencioso no espelho chamado autoconhecimento. É como uma conversa proveitosa com alguém que dispõe um pouco do seu tempo para ouvir e falar sobre trivialidades. As palavras marcadas e as escritas
– incluindo-se descomposturas e constatações – nas folhas que vai alisando com a ponta dos dedos são um convite a uma chiacchierata. Aprende que a cor vermelha significa passagem, e pensa no sentido do sangue, em ser vida e menstruação (ao estabelecer tal paridade, prontamente lhe vem à memória a cena de agradecimento de melhor documentário curta-metragem do Oscar 2019, Absorvendo o Tabu: “não acredito que um filme sobre menstruação ganhou o Oscar“). As cortinas do palco, vermelhas, são sempre a transição entre o real e a fantasia, sentencia, em alto e bom som.

_ O teatro não é um espelho fiel, mas uma lente de aumento, dialoga com ela Maiakovski
_ A mesma ideia presente nos dois últimos livros que li, responde, um, estreia já premiada de uma jovem autora neozelandesa, faz um paralelo entre as pessoas, os atores, a vida e o teatro. E fala da época escolar, sobre como a escola é uma verdadeira encenação. E é aqui que o outro livro, de um jovem autor nacional, entra no foco: ele afirma que uma sala de aula contem o resumo do mundo. São bastante atuais, uma pena não serem contemporâneos seus. Poderia dar numa boa mesa redonda…
_Deixe-me lançar-lhe um desafio…

E Maiakovski lhe conta, através das palavras de Fernando Peixoto, sobre a reviravolta que foi colocar Mistério-Bufo em cartaz, que teatro, para ele, sempre fora um acontecimento curcunstancial e cotidiano
e que, por tal consideração escrevera o prólogo à segunda edição aos futuros intérpretes, diretores e
leitores dessa sua obra:

_ (…)modifiquem o conteúdo, façam-no contemporâneo, atual, presente!
_ E então caberia citarmos Barthes e a Morte do Autor? – questiona Isabela
_ pois bem, Isabela, eis meu desafio: estruture Mistério-Bufo para a sua realidade
_ Então tratemos da vida, Maiakovski…

E a menina pos-se a devaneios e filosofias… Logo compreendeu que o primeiro ato da vida é sempre
o novo, após um dilúvio universal de todo o resto; o segundo, análogo à ideia da arca, é a educação que recebemos, a todo momento, de todos os tipos de instituições. O terceiro e o quarto tratam do ideal do amor, do inferno que é descobrir-se de coração partido e do divino que é, em seguida, descobrir-se amado. Porém, como depois da bonança sempre vem a tempestade, fixa-se mais ou menos o conceito do eterno retorno: o quinto ato da vida se passa nos destroços do coração, da alma, das finanças, da saúde: é o dar a volta por cima.

_Para os otimistas e pessimistas da tua versão, um Lunatcharski ainda serviria sob medida: “o riso é próprio da vitória. Quando o homem está fraco diante do inimigo, ele não ri, odeia”
_ Sim, faz sentido! E o
sexto e último ato da vida é o sonho que se sonhou a vida inteira e se alcançou, por fim. Assim, a vida, tal qual a peça, termina modificada e atualizada
_ O mundo mudou de base: onde está nós não somos nada, sejamos tudo (…) nós não éramos nada, agora somos tudo

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Sobre o autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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