
Minha Carlota Joaquina
Quando eu cruzei a linha dos cinquenta, a estranha do espelho começou a me visitar com frequência. Lembro do nosso primeiro encontro, parecia o desafio dos sete erros: lábios finos, vincos na testa, derretimento das bochechas, bigode chinês, código de barras no pescoço, cabelo branco, manchas na pele. Um olhar rápido foi suficiente para encontrar as diferenças. Mesmo com a convivência forçada, não nos tornamos íntimas, tampouco próximas, mas, por sorte ou azar, fomos tolerantes uma com a outra.
Não abri os braços nem troquei sorrisos, mas aceitei sua chegada, ao invés de botar aquela velha para correr dali. Merecia! A ordinária é insuportável, só sabe reclamar: secura nos olhos, dor no joelho, ganho de peso, preguiça pra tudo, irritação, desânimo. Para piorar, aquele café da tarde com bolo, que eu amo de paixão, ela proíbe, porque causa insônia. Isso me dá uma raiva…
Com a cara dela eu já me acostumei. O difícil é conviver com as mudanças de humor, de interesse, de opinião e até de estilo.
A doida é caseira e fã de novela turca. Acreditam?
Haja paciência.













