Crônicas

  • ago- 2026 -
    22 agosto

    Manifesto

    Confesso: eu era indiferente. Simplesmente não os notava. Não detestava, nem amava. Eles eram transparentes para mim. Daqueles de quem se diz: nem cheiram, nem fedem. Foi assim por dois terços dos meus dias. E nem queiram saber quantos foram. Centenas. Não procurei terapia, nem explicações. Até que aconteceu. Assim, sem me preparar, pensar ou conjecturar, um belo dia eu me apaixonei! Paixão de deixar boba. Olhar nos olhos, admirar as nuances, o chamego, o

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  • 22 agosto

    Seria a eternidade um mineral?

    Quem sabe a imortalidade seja um mineral formado por átomos de carbono puro dispostos em uma estrutura cristalina cúbica. Nosso inconsciente não acredita na própria morte pois não possui nenhum registro psíquico ou representação para ela, e se comporta como se fosse imortal. Não queremos papo com a finitude, ponto e basta! É ao testemunhar a morte de alguém querido que somos forçados a confrontar a realidade da perda. Mas nem isto abala a invulnerabilidade

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  • 21 agosto

    Tudo é Rio (menos Niterói e São Gonçalo)

    Quando me mudei para o Rio, achei que bastaria algum tempo para entender a geografia, os costumes e, por osmose, me tornar um carioca da gema. Vã ilusão. Aqui nada é tão simples quanto parece. A lógica que rege os lugares homônimos ou com nomes parecidos parece ter sido concebida por um sambista bêbado, como se a cidade já não fosse complicada o bastante com a sua coleção de túneis, morros, largos, viadutos, encruzilhadas, ruas estreitas e ladeiras. Pega a

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  • 21 agosto

    Vida nova mas o mesmo eu, ou não?

    Vida nova para mim mesmo teve início nesse mês de agosto. Do casulo do home office para o palco do magistério. Direto , sem escalas e muito desejado. O silêncio perdeu seu espaço privilegiado em minha rotina. Antes, era soberano, só cedia seu lugar sagrado para as eventuais intervenções de minhas filhas. Agora precisa se contentar com as horas que sobra, como as horas mortas de Garcia Marques. Ruim? Nem tanto. A tudo, ou quase, se acostuma. Em lugar do sil

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  • 20 agosto

    Nossa nave

    Há pouco mais de quarenta anos, a sonda Voyager 1, já distante mais de 6 bilhões de quilômetros de casa, recebeu uma ordem inusitada: virar-se e, com sua câmera já cansada, fotografar o ponto de onde viera. Carl Sagan chamou a imagem de “Pálido Ponto Azul”. Nessa fotografia, a Terra ocupa menos de um pixel. É um grão de poeira suspenso num raio de luz solar. Dalí Nenhum mapa, nenhuma fronteira, nenhum presidente, nenhuma guerra, nenhum amor ou

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  • 19 agosto

    A Nora, o cachorro da Nora, os namorados da Nora e o adestrador

    A Nora tinha um cachorro. A Nora também tinha um namorado. O cachorro não gostava do namorado da Nora. A Nora contratou um adestrador pra fazer o cachorro acostumar-se com o namorado. Já que ainda não existe adestrador de namorado. Pouco tempo depois, quando o cachorro já estava amiguinho do namorado, o namorado caiu fora. A Nora tinha dotes físicos e intelectuais exuberantes e logo trouxe outro namorado. Pro outro namorado também foi precis

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  • 19 agosto

    Um aniversário diferentemente especial

    Algumas pessoas não costumam dar muita importância a datas comemorativas. Conheço pessoas que parecem fazer questão de esquecer até o dia de seu aniversário. Datas que marcam o dia de uma profissão, de um santo padroeiro, de um clube de futebol, de um município e de uma batalha vencida. São tantas as datas a serem lembradas, que se torna difícil até mesmo ao mais organizado dos mortais saber o que será comemorado nesta ou na próxima semana. Mas, para mim,

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  • 16 agosto

    Mortos, vivos, morcegos e frutas | pausa (in)disponível

    Uma mesa impossível: um tampo que não é firme (minha cama); três cadeiras – eu, que me sento com as pernas esticadas e sobrepostas. Uma única taça de vidro (a que comprei no mercado, porque na minha casa de areia temporal em quase formato pirâmide não tinha nenhuma) com o vinho (o que dividi há duas semanas, hoje esvaziado com outros – é preciso beber do mesmo lugar, a cama). De maneira quase indecente, Hilda Hilst e Victor Heringer se juntam a mim nesse m

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  • 16 agosto

    As tentativas de WALDINEIDE

    A primeira vez que tentou se matar, tinha dezoito anos. Entrou no mar de São Conrado e nadou até cansar e perder as forças. Foi resgatada pelo helicóptero dos bombeiros. Aos salva-vidas, envergonhada, não revelou a tentativa malfadada de suicídio. Ironicamente, ainda agradeceu por ter sido salva. Waldineide amaldiçoava o pai pelo nome recebido. Seu Waldir era porteiro de um prédio na Barra da Tijuca. Ele, a mulher, Neide, e a filha moravam num barraco na R

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  • 16 agosto

    A Vida em Bullet Points

    Dizem que “a fila anda”. Talvez ande nos relacionamentos. Já na minha lista de tarefas, ela parece ter criado raízes. Ela nos persegue pelo celular, mandando alertas sonoros de tudo o que ainda não foi completado. Para quem prefere o caderninho, nem isso resolve: as tarefas não riscadas ficam ali, silenciosas, aguardando o momento de despertar a culpa. Tenho a impressão de que as listas de tarefas se reproduzem durante a madrugada. Vou dormir c

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  • 13 agosto

    Coisas duráveis

    Há uma pergunta que atravessa os séculos sem nunca envelhecer: se tudo passa, o que nos resta pensar, e porque valorizar o que temos e vivemos hoje? Os gregos chamavam esse fluxo ininterrupto de panta rhei (tudo flui) e Heráclito o personificou no rio onde jamais nos banhamos duas vezes na mesma água. A efemeridade não é apenas uma característica acidental da existência, ela é a própria textura. Talvez o primeiro espanto filosófico diante da brevidade das

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  • 12 agosto

    A Vida Privada e o Transporte Público

    Há bastante tempo, penso em falar sobre um hábito que se tem mostrado cada vez mais comum entre nós, brasileiros. Minhas numerosas procrastinações e desistências ocorreram menos por causa da complexidade do costume do que pela virtual controvérsia que ele carrega em si. Haja vista o uso generalizado de tal prática, suponho que poderei ferir certos egos e criar algumas animosidades. Mas assumo que quem vive de dar pitacos pretensamente sociológicos deve enc

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  • 11 agosto

    A quem você deve seu mérito

    No Brasil, o discurso da meritocracia ainda encontra solo fértil. Acredita-se, com quase cega devoção, que o topo da montanha foi conquistado a passos individuais – fruto exclusivo do talento, da disciplina e das noites mal dormidas. O discurso é sedutor, embora ignore uma pergunta que possa soar incômoda: quando você chegou lá, quem segurava a escada? ​Por trás de cada trajetória de sucesso, há uma estrutura invisível operando nos bastidores. Independente

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  • 10 agosto

    Caixinha de música

    — O que você faz aí? — Não está vendo? — Estou, mas por que aí? — Você não sabe? — Não! — O meu criador disse: “Vá e enfeite o mundo!” — Então você é um enfeite. — Sim. — Pra quem? — Pra todo mundo. — Mas não os vejo. — Quem? — Todo mundo. — Porque você me trouxe pra cá. — Então agora você é meu enfeite? — Sim. — Desça daí. — Para quê? — Vou mostrá-la a todo mundo. — Não entendi. Você não me trouxe pra você? — Eu te trouxe para ser. — Ser o quê

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  • 9 agosto

    Em Bocas de MATILDE

    Quando pequena, Matilde surpreendia a todos com sua estranha mania de engolir objetos. Chupetas, partes de brinquedos de borracha, bicos de mamadeira. Na escola impressionava colegas, engolindo canetas e lapiseiras. Era um dom. Todos diziam que no futuro ela trabalharia no circo como engolidora de espadas. A mãe culpava o pai por ter levado a menina no circo. Agora, essa novidade, engolidora de espadas… Matilde não vinha de uma família circense e nunca tev

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  • 9 agosto

    Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira?

    Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira? Há passos no eco, pisos empoeirados da semana passada, taciturnos. Há o Cachambi, que dorme, às três e dezessete da manhã, já dezoito. Há o streaming para quem, como eu, de tão cansada, não dorme. Há um filme pandêmico, dor humana, tristeza, perda do olfato. Num streaming — todo o meu amor aos streamings que nos fazem companhia junto a uma Hocus Pocus de 500ml, 8.5% de teor alcoól

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  • 9 agosto

    Essa vai para a coleção

    Meu armário abriga uma coleção curiosa: caixas vazias, sacolas elegantes e potes de vidro sem função definida. Em comum, todos carregam a mesma etiqueta imaginária: “Pode ser útil um dia.” Tenho uma verdadeira compulsão por colecionar inutilidades que considero superimportante guardar. Vai que surge um presente de última hora. Vai que resolvo organizar a papelada. Vai que abro uma loja de embalagens recicladas. Vai que descubro um talento ocult

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  • 8 agosto

    Dia dos Pais

    Um dia em que se homenageiam os meninos que se tornam homens e, um belo dia, se descobrem pais. Descobrem-se pais e não há nenhuma alteração fisiológica! Não sentem o seio intumescer segundos antes de o bebê chorar. Não têm um corpo que lhes avise, de maneira tão evidente, que chegou a hora de alimentar a cria. Não amamentam, não experimentam as mesmas transformações físicas da gestação e do nascimento. As mães contam com uma espécie de alarde da natureza.

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  • 7 agosto

    Um gato chamado Bartolomeu

    Não, eu não vou arrumar um gato. Nem em sonho. Mas uma das minhas filhas sim. Quer dizer, essa é a intenção dela. Essa semana ela me procurou com essa conversa. Veio com aquele papinho sinuoso, típico de adolescente que quer algo. Se seria possível, quando ela se tornasse mais responsável, ter um gato. Ela tem 14 anos e tem um quarto só dela onde deixa uma bagunça razoavelmente organizada. Com as coisas da escola é bem responsável, não deixa nenhuma tarefa

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  • 7 agosto

    Traídos

    Chamava-se Marisa, era casada e não desgostava dessa condição. O que lhe era mais caro na vida, porém, era o seu sentimento de liberdade. Costumava comentar com Nébia, a amiga íntima: “Sempre fiz tudo, ou quase tudo, que quis”. A amiga contestava: “Tudo, não. Ninguém pode fazer tudo. E você é uma mulher casada”. Marisa reconhecia: “Claro, claro, sempre respeitei Eustáquio”. A outra: “E não está fazendo nenhum favor. Eustáquio é um homem corretíssimo. Além

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  • 6 agosto

    Preservação da dignidade

    Em 20 de dezembro de 1943, o bombardeiro americano B-17 “Ye Olde Pub”, severamente danificado, pilotado por Charlie Brown, de apenas 21 anos, retornava de uma missão sobre a cidade de Bremen, na Alemanha. A aeronave tinha dois motores destruídos, sistemas avariados, vários tripulantes feridos e um artilheiro morto. Voando como um “straggler” (retardatário), isolado de sua formação, o bombardeiro era um alvo fácil. Em um determinado

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  • 5 agosto

    As meias rotas do Presidente

    Não raramente, atribuímos a personagens importantes da história oficial qualidades inigualáveis e sobre-humanas. Altas autoridades, políticos de grande projeção, empresários bem-sucedidos, artistas de renome, todos eles adquirem um status que os coloca vários degraus acima da grande massa dos mais vis mortais. A fama, a riqueza e/ou o poder de que desfrutam obrigam-nos a projetar em suas figuras as características necessárias para que a atração e o frenesi

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  • 3 agosto

    Sobre voar

    — Desaprendeu? — desaprendi. — mas você era tão… — Era! Muito tempo atrás. Não sou mais. — Tem certeza? Isso a gente nunca esquece. Basta uma vez pra nunca mais esquecer. — Não foi só uma vez… — Não?! Bem, comigo… Pensei que tivesse sido apenas comigo… — A primeira sim, mas houve outras. Tantas… Tão boas, tão lindas… O que foi? — Nada! Quer dizer… nada! Nada não. — Ficou com ciúmes? — Sim. — Não fique. A primeira nunca esquecemos. — Não?! Então por que des

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  • 2 agosto

    Se eu me perder

    O silêncio cresceu com a sombra mais densa. Então, os fones acenderam as lâmpadas incandescentes da plataforma, que pousava, num instante eterno, sobre a água. Era um simples trajeto de retorno à casa: sobre rodas que não tinha controle, observava o horizonte em que nada tinha fim, tampouco início. De repente, uma centelha flutuou acima, no compasso de seu coração.  Itália. Fevereiro. Março. Aquele abraço… “Um simples caso de sorte genuína

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  • 2 agosto

    SOLIDÃO

    Do nada, ela resolveu se isolar do mundo. Sumir do mapa. Escafeder-se. Largar tudo de vez. Pensou numa viagem solitária de barco pelos oceanos. Mas Yolanda nem sabia nadar. Aposentada pelo INSS, seu último emprego foi como caixa do Banco do Brasil. Lidou com o público e com a absoluta contrariedade de fazer isso. Tinha dias que parecia explodir. Controlou-se à base de comprimidos e orações. Não tinha mais ninguém, nem amigos nem família. Sua única filha, f

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  • 2 agosto

    Amém

    Por debaixo da porta, a convocação. Primeira chamada às 19h. Salão lotado, ordem do dia sobre as cadeiras. Quando viu “3º item — sorteio das vagas”, Severo percebeu que cometera um erro grave: não tinha jantado. Leitura da ata.— Amém.Leitura do orçamento.— Amém.Leitura da troca do capacho.— Amém. … Sorteio das vagas. Aí o inferno começa. — Alguém tem algo a colocar antes do sorteio? A senhora do 1º andar logo se manifesta: — Temos que estabelec

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  • 2 agosto

    POLICARPO

    É Policarpo, seu país não veio, não vingou… A bandeira que tremula na haste não conta mais as glórias do passado (se é que um dia já contou) e tampouco vislumbra as glórias do presente… Sua pátria, escondida entre farrapos, negociações e falsas intenções, desmorona todo dia. Todos os dias! No trabalhador que sua e sangra e não descansa! Na esquina em que se perde uma outra infância! Nas escolas abandonadas e no futuro dos jovens. Na promessa quebrada em qu

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  • 1 agosto

    A loja do Joca

    — Oi! Vó do Digo, Vó do Digo! Eu tenho uma loja. Você quer comprar o que eu vendo? — Mas onde fica essa loja? Eu pergunto, com a maior naturalidade. — Peraí. Vou lá buscar. E saiu saltitando, feliz da vida com a possibilidade de fazer mais uma venda. Essa é a segunda empreitada comercial do Joca. Antes disso, foi caubói. Tinha cavalo, chapéu preto e colete de franjas. Depois virou dono de um caminhão de gado. Também foi tratorista. Mais tarde resolveu aban

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  • jul- 2026 -
    30 julho

    Sem direção

    Os humanos mais valentes creem que a solidão não vá corroer seus desejos, ao vagar pelo mundo sem olhos para fitar, que não é a forma mais sutil de ser gente. Passar minutos apreciando os outros se amontoarem em si, vagando em suas ideias ou cruzando pelas ruas frias e úmidas, pode nos trazer uma sabedoria solitária.  Porém, é uma companhia quase ausente de um par de mãos, que poderiam acalentar um nobre olhar. O oposto a esses instantes se percebe na

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  • 29 julho

    A tirania da coerência

    Desde cedo, acostumamo-nos a avaliar a coerência como uma elogiável característica a ser vista nas atitudes de algumas pessoas. Em sua ausência, as divergências entre o que se diz e o que se faz costumam ser apontadas com a virulência de que apenas os mais empedernidos moralistas dispõem. Mas uma vivência menos tirânica e intransigente pode sugerir que todos nós, sem exceção, refletimos em nossos atos as próprias contradições internas. Diferentemente de má

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