Crônicas
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out- 2026 -24 outubro
Ouvir estrelas
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, Perdeste o senso!” Lembrei-me desses versos de Olavo Bilac ao tentar responder a algumas perguntas que eu mesma me fiz. Por que escrever histórias de crianças? Por que voltar a acontecimentos tão simples, guardados há tantos anos na memória? Ao escrever de forma lúdica, trazendo de volta pequenos episódios do meu próprio cotidiano, percebi que não precisava encontrar explicações lógicas. Penso que seja apenas uma maneir
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22 outubro
Travessuras
A primeira travessura ninguém esquece. Quando a gente era criança, vivia com o pé no chão. A rua onde eu moro era sempre cheia. A gente jogava futebol de rua, andava de carrinho de rolimã, brincava de bola de gude, queimada, peteca, vôlei e soltava pipa. O fim da brincadeira era quando a mãe de cada um chegava na porta de casa, olhava para um lado e para o outro e gritava: “Menino, vem logo pra dentro que a janta está esfriando.” Mas o bom mesmo eram as tr
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22 outubro
Instante exato
Todo dia pego meu caderno de rascunhos, uma caneta que não arranha o papel, e deço para escrever no banco da praça. Como faziam os poetas antigos, aqueles que tinham o privilégio do tédio e da contemplação, com bem mais competência que eu. Perco mais tempo para escolher a camisa e a calça para sair, do que para escrever. Porque quando estamos em frente ao espelho, inicia um embate na busca do contentamento. Quando finalmente chego na praça, o sol já está a
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21 outubro
De onde se escapa o amor?
De onde se escapa o amor? Quem não se limita a viver só talvez também não saiba viver com o outro. Quem não encara a própria solidão a sós, não, a só, talvez não suporte a presença de alguém sem transformá-la numa tentativa de preencher aquilo que lhe falta. Dizem que o amor transforma. Mas o que seria essa transformação? Tornar-se dor? Amar também dói, é verdade, mas a dor não pode ser a única testemunha do amor. Quando tudo o que resta é sofrer, pode-se
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21 outubro
Eleições 2026
No dia 04 de outubro de 2026, ocorreu o 1° turno das eleições para deputado, senador, governador e Presidente da República, em uma representação da maior festa da democracia. Democracia é uma palavra velha, já desgastada pelo uso, de origem grega, a qual remete a um governo que possui participação popular nas decisões políticas, seja por meio direto ou indireto. Às vésperas do começo das apurações, mesmo sem ser repórter ou jornalista, já me encontrava de
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21 outubro
Conversa de elevador
Em meio à correria de nossas rotinas, costumamos ser presenteados com boas e instigantes conversas. Com o condão de provocarem a reflexão, muitas delas podem até mesmo incitar em nós a revisão de nossas opiniões e de nossos atos. Mas existem também aqueles momentos mais descontraídos, perfeitos para a descontração de um bom chiste ou para a leveza de um bom causo. Afinal, a vida não é feita apenas dos acidentados e pedregosos terrenos da filosofia e da pol
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20 outubro
O amor que Ela nunca quis viver
“Nossa, que cheiro de maconha é esse?”, Mirella quis saber, olhando ao redor. Era denso, encorpado. Alguém queimava forte por ali. “Certamente é aí de cima, tem um cara nesse prédio que pega de jeito”, Marcelo explicou apontando para o alto, para o prédio de apenas três andares que ficava em cima do bar. Mirella não disse nada. Quando o assunto era maconha, não fazia cara de quem gostava nem de quem condenava. “O pessoal do meu trabalho acha que eu sou mac
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20 outubro
Relembrar é resistir!
Estamos passando por dias tensos. Há uma ansiedade pesada no ar e um aperto no peito sobre o que será do nosso país nos próximos dias. O cenário político é incerto, e o mais alarmante é ver como a memória coletiva vacila rápido diante do tempo. Parece que muitos se esqueceram do caos recente – das lições que nos custaram tantas vidas. No documentário Anatomia do Caos (2025), a cineasta Dandara Ferreira resgata os bastidores da CPI da Covid-19 e expõe uma l
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19 outubro
Detalhes
Entra na confeitaria pensando em tomar um espresso para aquecer a tarde chuvosa. Pede um salgado e um refrigerante pequeno. Não sabe por que mudou de ideia. Senta-se de frente para a rua. Gosta de admirar as pessoas que passam e ouvir os pequenos fragmentos do dia a dia de cada uma delas. Na confeitaria, um homem emocionado conta ao balconista histórias de sua juventude ligadas ao lugar. Levou sua primeira namorada para comer um doce com morangos. Demora-s
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19 outubro
Nostalgia Jornalesca
Durante a noite, eu havia escutado trovoadas. Imaginei uma grande luta no céu. As nuvens, o sol, a lua e as estrelas numa verdadeira batalha, disputando quem reinaria no novo dia que se aproximava. Um elegante duelo de Titãs. Amanheceu. Para meu espanto, o sol havia perdido. As nuvens, um pouco arroxeadas, mostravam os sinais de que havia sido uma grande luta. Elas estavam carregadas de chuva, haviam dominado o dia e deixado meu amigo sol em total nocaute.
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18 outubro
A palavra medo
Cena de guerra e fuzil e sangue… Onde estão os afagos e os beijos e o abraço? Cena de guerra e mãos para cima e mãos algemadas e confusão. Uma crônica áspera e truncada e difícil, um senão. Os beijos e os afagos e o abraço onde estão? É só poeira e tristeza e desilusão. Estarão juntos o beijo e o tiro, o abraço e o fuzil, os afagos e a agressão? Cena de guerra, uma página na história, botas, farda, faca entre os dentes, caveirão. A violência constant
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18 outubro
As cortinas do meu infinito
Já cantava minha mui querida Rita Lee — Baila comigo — lá no meu esconderijo. O meu. Secretíssimo. Um canto feito de flores antigas, perfumes esquecidos e aquela luz dourada das tardes de outono. Raios que atravessam as frestas das cortinas voadoras e transformam minha janela em portal. Um portal para o infinito. Mas não um infinito qualquer. O meu infinito. Aquele que mora dentro de mim. É ali que reparto com minha criança interior o sabor das balas puxa-
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18 outubro
Os destaques da semana
1. Exercício literário: chamado a partir de post do instagram | … Estive. Dadas as indevidas proporções. Horas antagônicas, gotas de minutos que se desarmavam em câmera lenta. E eu, lá… L.A: Lugar Amargo. Estive, tempo-espaço-ação demasiadamente prolongado; fracionando demais, passei, compareci, permaneci, existi, permaneci, fiquei. Divagando. Desproporcionalmente, estive. 2. Das primeiras vezes Kickboxing. Fiz minha primeira aula, estreando em
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17 outubro
Estou chateada
Logo eu! Tão receptiva, beneplácita, afetiva… Isso não é legal… Atravessei oceanos, vi cometas, vivi em dois séculos, acendi fogo com casca de milho seco, meu fogão é de indução… E muito além dessas coisinhas bobas aprendi a escrever “cobrindo” as letras, o que nos fazia ter letras clone às das professoras. Nada de letras de forma para depois aprender letras cursivas. Datilografei eu mesma os trabalhos escolares, na maquininha Olivetti portátil
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17 outubro
BRAZIL 3027
Em 3027, nosso país afinal encontrará sua vocação mercadológico-espiritual, tornando-nos oficialmente uma nação teocrática. À Constituição de 1988 será incorporada, como apêndice, uma versão da Bíblia Sagrada prefaciada e revisada por Silas Malafaia. Inaugura-se assim o princípio basilar da Nação de Cristo, sob a égide da fé e do livre mercado. O STF perde sua soberania jurisdicional. Suas decisões passarão a ser submetidas à apreciação do Grande Conselho
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16 outubro
A folha e a pedrinha
No caminho encontrei uma folha e uma pedrinha. A folha havia caído suave ao chão, a pedrinha veio presa ao calçado de alguém e se soltou ficando junto a folha. Nenhuma das duas chegou ali por força de algum planejamento. As duas ficaram juntas como parte de tudo que vem carregado pela corrente aleatória dos fatos da vida. Um acaso só. A folha e a pedrinha um dia fizeram parte de algo maior. Uma estava na árvore, outra no rochedo. Cada uma em sua origem era
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15 outubro
Seu nome no mundo
Existem entrelaços perigosos, e é seguro dizer que, depois de 72 horas de confidências indistintas, esse é um deles. Inauguramos uma nova fase: eu te contei um segredo. Um gesto tão pequeno e tão grande. A trilha sonora de fundo combina com a adrenalina que eu sinto, tão diferente de todo o resto, e diz: “você parece tão legal, fique”. E eu já associo essa música a você. Afinal, essa é a história que parece um encanto no meio de tantos desencontros. E, de
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15 outubro
Passou o tempo de roubar amoras
“Passou o tempo de roubar amoras, mangas, goiabas e mexericas no quintal do vizinho”.Elias José, em “Cantigas de adolescer” Nunca fui de subir em árvore. Fui um menino tímido. Era ruim de bola e não subia na laje para soltar pipas. Mas teve um acontecimento que me deixou um gosto de aventura: foi quando, pela primeira vez, eu ouvi “I want to hold your hand”, dos Beatles. Eu não sabia quem eram os Beatles. Não sabia nadin
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14 outubro
As muitas faces de seu Levi
Poucas ou inexistentes são as pessoas que se destacam apenas por suas qualidades. Como seres falíveis que somos, tanto nossos defeitos como nossas aptidões podem bem ser usadas para descrever nossas personalidades àqueles que não nos conhecem. A depender do relator, se um apologista ou um detrator, nossos feitos serão realçados de uma maneira ou de outra, sem que a validade do informe seja, necessariamente, comprometida. São essas coisas que me vêm à cabeç
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14 outubro
Precisei me matar para renascer
Precisei me matar para voltar a ser quem sou. Há uma obscenidade nessa constatação, eu sei. Como se a existência, em algum momento, tivesse exigido de mim a minha própria ausência para que eu pudesse regressar. Não sei exatamente quem morreu. Talvez tenha sido aquele que eu acreditava ser. Talvez tenha sido o outro, esse que me habitava sem pedir licença e que, durante muito tempo, confundi comigo. Há mortes que não deixam cadáveres. Deixam sobreviventes.
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13 outubro
Os sonhos do Lupércio
Um deles era ser entrevistado: como os atores, os cantores, os escritores e os jogadores de futebol. Imaginou e pôs em prática um plano sui generis: ajudou a atravessar uma velhinha e largou ela no meio da avenida. A velhinha fez um baita dum escândalo, chamaram a polícia, e ele, o Lupércio, foi parar na delegacia. Batata! Como ele queria, foi entrevistado pelo delegado. O delegado disse bom dia, como vai? e ele respondeu que tudo bem. — Cafezinho? — Obri
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13 outubro
Saudades dos tucanos
Blackbird singing in the dead of night / Take these broken wings and learn to fly / All your life / You were only waiting for this moment to arise – “Blackbird”, The Beatles Fecho os olhos, e tucanos da minha infância planam em meus pensamentos. Há mais animais que desfilam, como cachorros, micos e papagaios. Os tucanos se destacam, porque eles sumiram. Ao contrário dos outros bichos, que, ocasionalmente, encontro na cidade grande. Vê-los significava féria
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12 outubro
Aos 16!
Enfrenta seus porquês: quer respostas, quer experimentar… Arrisca-se, arroga-se, ensoberbece! Sabe o que ninguém nunca soube. Seu caminho, com certeza, será diferente de todos os outros. Empina o nariz, responde com autoridade, briga com o vento. Sabe, mas não sabe. Pensa que não, mas precisa… O som alto disfarça a ansiedade, os amigos disfarçam a solidão. Envolvida numa interna guerra entre ser e querer, todos os caminhos estão diante de si. T
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11 outubro
Quatro patas — dentro e fora de mim
Chove. Acordo na escuridão com o som de gotas furiosas contra a telha ondulante a minha direita, no vão coberto entre o edifício em que me encontro e o do lado. Ouço o ritmo onírico do meu Zeca roncando. Ele sonha. É lindo. Expressão da mais tenra felicidade em mim, tanto quanto a sensação de ter seu pesinho peludo em meu colo, ou seu pulinho, todo molhado, ao sair do banho e deitar de bruços, confiante, sobre a toalha limpa estendida sobre minhas pernas e
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11 outubro
Árvores Vermelhas (um exercício de escrita)
Árvores vermelhas, de um vermelho vivo, intenso, de doer os olhos de tão forte. Uma alameda de pedras rosadas e gastas, fileiras de árvores (uma à direita, outra à esquerda). Não sei o porquê me veio à mente a palavra morte. Me Assustei de início. Olhei para um lado e algumas pessoas notaram meu sobressalto. Não dei atenção. A cor vermelha das árvores produzia em mim uma sensação estranha, ora uma calmaria desmedida, ora uma intranquilidade…não sei.
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11 outubro
Vamos Barbarizar!
Me virei na cama. Entre o sono e o sonho: Queria só beber. Girei. Bebê que sorria. Contei as letras. Nenhuma sobrava. Nenhuma faltava. Foi então que percebi: naquela noite, eu era um caleidoscópio. Meu poder não era criar palavras, mas embaralhá-las. As letras continuavam todas ali. Só mudavam de lugar. E, com isso, mudava tudo. No mundo dos sonhos, fui contratado como revisor de um jornal. Entrei na redação disposto a revolucionar o ofício. Adeus, manchet
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10 outubro
Outubro
Mês em que faço aniversário… Há o que festejar? Sempre há! E, quanto mais escadas eu subo, mais claramente enxergo o que realmente merece uma festa. Minha família, minha saúde, meus amigos, meus bichinhos de estimação, minhas plantas e as palavras. Ah, as palavras! São um presente precioso e merecem ser lembradas em todas as ocasiões. Quais palavras?, alguém perguntará. As minhas, as suas, as dos outros, as novas, as antigas, as que ainda não foram e
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9 outubro
Ah, o desencanto
Vinicius de Moraes dizia que a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. É, tem lá sua razão. Mas eu vou adiante umas casas no tabuleiro e adapto o que ele disse: a vida é a arte do encanto embora haja tanto desencanto pela vida. Encantar é uma arte. Exige muita atenção, percepção e disposição. Precisa de muitas doses de criatividade e jogo de cintura. Afinal, encantar alguém é envolver a pessoa em uma dança quase ritual de enlevo
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8 outubro
A infância bateu na porta
No domingo de manhã, enquanto eu lia no computador, percebi que a rua onde moro estava mais agitada do que o normal. Parei de escrever e fui ver o que era. Cheguei à rua e fiquei abismado: tanta gente andando de carrinhos de rolimã. A vizinhança toda. A rua, que foi fechada só para isso, ficou cheia de gente com velhos, crianças, marido e mulher, homem quarentão. Todo mundo com seu carrinho. Estava tão bom que resolvi deixar a leitura para outro dia. Quand
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8 outubro
Próprio esquecimento
Comecei a perceber isso no meio de uma terça-feira qualquer. Eu estava no ponto de ônibus quando vi uma senhora, muito idosa, com um carrinho de feira cheio de sacolas, e de repente minha garganta apertou. O sentimento ficou ali por uns segundos, igual um espirro que não veio. Depois passou. Quanto mais vivo, mais me convenço de que sou um mau conhecedor do meu próprio terreno. Meus sentimentos chegam sem bater, falam uma língua que não aprendi direito, e
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