Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.
  • Contos Breves

    Margarida à janela

    A vida adulta não nos prepara para o entusiasmo. Em essência, a adultez deveria nos expandir; acrescentar novos cômodos à casa que temos por dentro para que aprendêssemos idiomas inéditos do corpo e da alma, em vez de interromper indefinidamente as nossas formas de sentir. Margarida, que tem nome de flor, sempre foi na

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  • Poesias de 1 a 99

    Poema #04: Toma uma xícara de café comigo?

    Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!Para que a pressa?se preciso, eu, mais que vitaminas,do alimento para o viço que… reflete-me,[interna] e inteiramente?Que eu possa deleitar-me com o calor azulda caligrafia inexistente no papel que cheira a delírio Eis-me inteira,num instante errante,naufragada no suor den

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  • Crônicas

    “digitando… ”

    | Um traço vertical. Pisca, pensativo, opressivo; poético. Acho que assim, quase girando o travessão introdutório, na busca pela correspondência de (um) outro, nos injetamos, como tentativa científica, numa releitura d’um passado literário: Trocamos cartas, quase como que acendendo um cigarro à mesa de um café de ilumi

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  • Crônicas

    Colóquio – simples e grandioso demais – de um café da manhã domingueiro

    — Eu queria tomar um café com alguém que parecia um livro interessante, mas dormi antes de chegar ao primeiro capítulo — disse Clara, mexendo o café fumegante, como que procurando um tête-à-tête com a leitura da borra, submersa, no fundo da xícara. Joaquim não ergueu os olhos do caderno. — Isso soa como frase de alguém

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  • Crônicas

    Voos mais altos que nós mesmos

    O piso são nuvens; entre o céu e a terra, tal qual um dito rodapé, eis o cinturão cintilante que traz a cor das bagagens, no compartimento acima da cabeça e no nível do pé: laranja e amarela. Sigo fotografando estrelas sobre o oceano, a 12km de altitude, alaranjando a escuridão que me faz perceber Avior brilhando perto

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  • Poesias de 1 a 99

    Poema #03: Isso basta

    A cama desarrumada.O livro (quase) aberto.Páginas escurecidas. A caneta largada no meio. No relógio um horário impróprio; “já é dia?”Sob os travesseiros, um único pijama não se sabe porquê; não se sabe para quem.Clareou.As plantas espreguiçam-se:um girassol retorce lentamentepétalas, amarelas, miolo, marromem direção à

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  • Crônicas

    Overkill em copacabana

    Sol, pé na areia, água de coco, um domingo ensolarado. Entre o barulho do quebra-mar e a água que cai cantando, à la carioques, do chuveiro de um quiosque na Orla, Ludmila me cutuca do alto da caixa de som: “a vida é louca, mano, a vida é louca. Me perdi pelo caminho…” É fácil perder seu controle diante do mar de Copac

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  • Crônicas

    Inopinadamente, flores

    — para minha mãe, Lucia. Terra fria e emudecida. Inopinadamente, fibras rompem o ventre silencioso, como unhas recém-nascidas. Entre o solo e a grama, um ponto vibrante. De um botão, eclode uma cor; formas e aromas a batizam ‘flor’. Surgem os rótulos, retalhos únicos entre tantos iguais, infinitas espécies

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  • Crônicas

    No raso, a/mar não ensina — derruba

    Aquosa, a superfície reflexiva. – custa a – Imprópria ao banho… Mergulhar machuca [jamais acolhe]; rasga, sangra, desfaz a um e à outra sem que se fundam; era ela o acaso. – …entender que aquela é – (A/) Ela – narrativa, aqui; não fofoca – que, sem distorcer o sentido da prosa, faleciam palavras para exprimir o que sen

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  • Crônicas

    Fluxo e pulso das horas

    “A gente jamais esquece o primeiro relógio.”¹ “ […] As últimas datas, descobertas, invenções,sociedades, autores antigos e novos,Meu jantar, roupas, amigos, olhares, cumprimentos, dívidas,A indiferença real ou fantasiosa de um homemou mulher que eu amo,A doença de alguém de minha gente ou de mimmesmo, ou ato doentio, o

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  • Crônicas

    Duas sessões: um respiro, apesar de # e @

    Quanto mais Inteligência Artificial, maior a cobrança por performance, por entrega, por prazos que já deixaram de ser humanos. O mundo segue tendo seus ciclos — noite e dia, dias que viram semanas, semanas que viram meses — e, num piscar de olhos, os anos passam. A urgência urge. Respirar é um ato de vida: ar que entra

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  • Crônicas

    Venerandas folhas amarelas que não são do outono

    E teve vontade de tocar piano, só para se sentar por ali e acordar uma melodia quase alegre, aguardando o parceiro que a acompanharia, a quatro mãos. Entretanto, não havia um; se houvesse, não saberia tocá-lo. Estava sozinha entre páginas fustigadas e quase oleosas, alguma poeira, nada além. Era só àquela hora da madru

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  • Crônicas

    Reintegração das águas em si: páscoa

    — Onde estamos?— Não muito longe do seu destino.— Parece faltar muito… Essa viagem é infinita,mamãe…— Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.— Você é muito filosófica, mãe.— Eu não inventei isso. Foi o Einstein. Albert Einstein.— Ele é b

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  • Crônicas

    curvas, exclamações tesas e duplos olhos castanhos

    Pela primeira vez percebo as curvas orgânicas da fechadura que sustenta a chave da porta mais usada do meu armário, enquanto uma música conhecida reverbera pela caixa de som. A cortina de linho, fina, balança em câmera lenta, descortinando aos vizinhos — imersos em suas rotinas — a intimidade do meu corpo quase nu sobr

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  • Crônicas

    Esquisito Íntimo – parte II: origem x vertigem

    Eu também tinha visto aqueles lábios torcidos em uma expressão de humor irônico. Parecia quase desnecessário, mas a presença do “quase” – termozinho safado! – faz toda a diferença. Traja o tipo de humor que eu gosto, do tipo que não se importa em zombar de si mesmo, verdadeira leveza e certifica

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  • Crônicas

    Saída de emergência

    Trepida. Me vem, primeiro pelo barulho externo que pelo chacoalhar do corpo. Depois, o conforto de um ambiente climatizado. Estou em trânsito, como gosto, dormindo a caminho de um novo horizonte [muito embora, seja o mesmo de um momento anterior, que não é esse]. Minha quilometragem fortalece os sorrisos que virão. Que

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  • Crônicas

    Esquisito íntimo

    Esquisito: Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels preto e branco dançantes. Uma quase hipnose. Quand

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  • Crônicas

    Pé ante [o sisal e a sombra do outro] pé

    Um vulto de cerca um metro e vinte e cinco se esquiva por trás da cadeira de balanço. Gabriel move um pé depois do outro, tentando elevar seu peso acima dos ombros. Primeiro, o indicador do pé esquerdo toca o assoalho de madeira, um marrom rosado escurecido pelos anos. Pisa com cautela para evitar o rangido. Quase não

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  • Crônicas

    Boiar nas águas, atravessar os morros: menos Catherine, mais Rita – mais minha

    Quantas vidas vivemos em uma vida – você, eu? Eu, por exemplo, não sou mais a mesma do casamento. Nem poderia ser. Seria falta de educação comigo mesma. Tampouco sou a mesma que realizou, ainda nova, seu sono de morar no exterior. Ou a que ambicionava um prêmio de arquitetura, recebido na categoria sustentável an

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  • Crônicas

    A cuíca, a ruivez e o smartwatch – sexta-feira 13 como comissão de frente

    Comprou um relógio para controlar seus batimentos cardíacos. Descobriu que, ao ter o combo de medições de oxigenação, estresse, sono e ciclo menstrual, tornava seu pulso um criador de conteúdo. Dados. Gráficos. Percentuais.O coração, finalmente, auditável. As notificações de redes sociais, e-mails ou o contar do tempo

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  • Crônicas

    Nas alturas, um café com o Redentor

    Próximo ao céu, onde nenhum obstáculo além de uma escada de marinheiro me separa do Cristo Redentor, a certeza de que nada é estável me invade. A mutabilidade da paisagem, colorida a cada noite por nuances de distintos pigmentos primitivos — esparsas, turvas, momentâneas — fere um órgão qualquer, apertado entre oxigêni

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  • Crônicas

    Alô, alô, seu Chacrinha – aquele abraço!

    Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a t

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  • Crônicas

    Solas

    Me apaixonei, ou pelo menos acho que me apaixonei; fui a uma festa e perdi a cabeça. Comprei um cavalo que não preciso de jeito nenhum. Regras. Não ofereça preço por algo que você não precisa. Ao chegar a um baile, convide alguém para dançar imediatamente e dance uma valsa ou uma polca com essa pessoa. Pense em maneira

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  • Crônicas

    vida [e mundo] como um sopro

    Intranscritível o sussurro aerado dos tempos à beira de uma lagoa. Folhas balançam, cabelos se descabelam, passarinhos tentam passarinhar, todo um compasso descompassado e, por isso mesmo, incrivelmente belo. Há algo de poético em se perceber só existindo, às 16h16 de uma tarde com sol entre nuvens, pessoas – pou

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    Looping quotidiano

    O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam: — Data de nascimento?— CPF…?— CEP..?— Telefone, com DDD:— Sabe seu pe

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  • Crônicas

    Palavras nem tão bonitinhas assim

    Toca, por primeira vez em meus ouvidos, uma canção intrigante: I’m All I Got, de um grupo chamado Dead Brothers. O nome não passa incólume. Há algo ali que cheira a flores murchas, deixadas tempo demais num vaso a mercê de sabe-se-lá-o-quê. Palavras que já foram belas, mas agora exalam um odor agridoce, quase fétido. O

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  • Crônicas

    Entre

    A arte salva momentos.A frase foi construída por Matilde Campilho, num vídeo brevíssimo — desses que carregam a tônica do fulgaz que uma gravação de Instagram faz reverberar por nossas pupilas. Prendeu-me num eco posterior ao instante do encontro com a postagem, enquanto eu dedilhava a tela com a ansiedade tão comum —

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  • Crônicas

    Nota de abertura

    (nota de abertura – curta, decisiva) Esta crônica acontece no intervalo.Quinze minutos entre um ato e outro.DIIIM. As cortinas estão abertas, mas ninguém está olhando para o palco. DIIIIIIM. Ando por esse tempo suspenso como quem flana: não chego, não parto — observo. DIIIIIIIIIIIIM. (Silêncio) Sura Berditchevsky parou

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  • Crônicas

    Caos contraproducente

    Cheira à baunilha. Há banana e aveia em formato de osso e olhos ainda vacilantes e resistentes aos raios dominicais. Uma miríade de folhas, bocejos e pelos esparrama-se sobre o sofá-cama amarrotado pelas horas adormecidas. O sábado à noite fora um misto de contagem e revolta; em meio à desordem em percentual crescente

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  • Crônicas

    Ode aos meus 3.7

    Quero-me a mim como nunca antes,como quem encontra uma versão esquecida de si no fundo de uma gaveta emperrada: força um pouco e…– Crrrrr…..[o reconhecimento é recíproco pelo cheiro] Quero-me a mim com a presença de um personagem que não sofre expectativas: meras sinas de ator, sempre certo de poder c

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