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Crônicas
E Ainda é Agosto
“É 29 de agosto. Em 48 horas, sua vida mudará para sempre.” Mais uma vez estava eu vidrada diante da tela. O dia era 29 de agosto, ontem, como foi no ano passado e no ano antes dele. A melodia inebriante preenchia os vazios que o ar-condicionado a 21ºC fazia flutuar no quarto hermético do Cachambi: O som avança em pequ
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Crônicas
Bolero de Tecalitlán
Bolero de Tecalitlán, ao pé do ouvido em pleno 2026, soa como uma serenata de amor cantada à janela de uma casa que já não existe. Ou existe? existe: passou apenas a caber na tela de um smartphone. Informes contemporâneos. A linguagem sempre como logradouro de encontros. Disseram-nos que: • …a globalização tornar
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Crônicas
Mortos, vivos, morcegos e frutas | pausa (in)disponível
Uma mesa impossível: um tampo que não é firme (minha cama); três cadeiras – eu, que me sento com as pernas esticadas e sobrepostas. Uma única taça de vidro (a que comprei no mercado, porque na minha casa de areia temporal em quase formato pirâmide não tinha nenhuma) com o vinho (o que dividi há duas semanas, hoje esvaz
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Crônicas
Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira?
Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira? Há passos no eco, pisos empoeirados da semana passada, taciturnos. Há o Cachambi, que dorme, às três e dezessete da manhã, já dezoito. Há o streaming para quem, como eu, de tão cansada, não dorme. Há um filme pandêmico, dor humana, tristeza, p
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Crônicas
Se eu me perder
O silêncio cresceu com a sombra mais densa. Então, os fones acenderam as lâmpadas incandescentes da plataforma, que pousava, num instante eterno, sobre a água. Era um simples trajeto de retorno à casa: sobre rodas que não tinha controle, observava o horizonte em que nada tinha fim, tampouco início. De repente, uma cent
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Crônicas
Diário contemporâneo in 3 languages
– A toast to every single person in this crazy world, Olivia! – A toast to you, Bia! This is really big and kind! Assim inauguro uma noite de quinta-feira, com unbicchierino di vino rosso – ed un altro, chiuso e raffredattoin sè nel frigo, rosa – e minha ligação diária para Olivi
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Contos Breves
Margarida à janela
A vida adulta não nos prepara para o entusiasmo. Em essência, a adultez deveria nos expandir; acrescentar novos cômodos à casa que temos por dentro para que aprendêssemos idiomas inéditos do corpo e da alma, em vez de interromper indefinidamente as nossas formas de sentir. Margarida, que tem nome de flor, sempre foi na
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Poesias de 1 a 99
Poema #04: Toma uma xícara de café comigo?
Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!Para que a pressa?se preciso, eu, mais que vitaminas,do alimento para o viço que… reflete-me,[interna] e inteiramente?Que eu possa deleitar-me com o calor azulda caligrafia inexistente no papel que cheira a delírio Eis-me inteira,num instante errante,naufragada no suor den
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Crônicas
“digitando… ”
| Um traço vertical. Pisca, pensativo, opressivo; poético. Acho que assim, quase girando o travessão introdutório, na busca pela correspondência de (um) outro, nos injetamos, como tentativa científica, numa releitura d’um passado literário: Trocamos cartas, quase como que acendendo um cigarro à mesa de um café de ilumi
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Crônicas
Colóquio – simples e grandioso demais – de um café da manhã domingueiro
— Eu queria tomar um café com alguém que parecia um livro interessante, mas dormi antes de chegar ao primeiro capítulo — disse Clara, mexendo o café fumegante, como que procurando um tête-à-tête com a leitura da borra, submersa, no fundo da xícara. Joaquim não ergueu os olhos do caderno. — Isso soa como frase de alguém
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Crônicas
Voos mais altos que nós mesmos
O piso são nuvens; entre o céu e a terra, tal qual um dito rodapé, eis o cinturão cintilante que traz a cor das bagagens, no compartimento acima da cabeça e no nível do pé: laranja e amarela. Sigo fotografando estrelas sobre o oceano, a 12km de altitude, alaranjando a escuridão que me faz perceber Avior brilhando perto
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Poesias de 1 a 99
Poema #03: Isso basta
A cama desarrumada.O livro (quase) aberto.Páginas escurecidas. A caneta largada no meio. No relógio um horário impróprio; “já é dia?”Sob os travesseiros, um único pijama não se sabe porquê; não se sabe para quem.Clareou.As plantas espreguiçam-se:um girassol retorce lentamentepétalas, amarelas, miolo, marromem direção à
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Crônicas
Overkill em copacabana
Sol, pé na areia, água de coco, um domingo ensolarado. Entre o barulho do quebra-mar e a água que cai cantando, à la carioques, do chuveiro de um quiosque na Orla, Ludmila me cutuca do alto da caixa de som: “a vida é louca, mano, a vida é louca. Me perdi pelo caminho…” É fácil perder seu controle diante do mar de Copac
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Crônicas
Inopinadamente, flores
— para minha mãe, Lucia. Terra fria e emudecida. Inopinadamente, fibras rompem o ventre silencioso, como unhas recém-nascidas. Entre o solo e a grama, um ponto vibrante. De um botão, eclode uma cor; formas e aromas a batizam ‘flor’. Surgem os rótulos, retalhos únicos entre tantos iguais, infinitas espécies
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Crônicas
No raso, a/mar não ensina — derruba
Aquosa, a superfície reflexiva. – custa a – Imprópria ao banho… Mergulhar machuca [jamais acolhe]; rasga, sangra, desfaz a um e à outra sem que se fundam; era ela o acaso. – …entender que aquela é – (A/) Ela – narrativa, aqui; não fofoca – que, sem distorcer o sentido da prosa, faleciam palavras para exprimir o que sen
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Crônicas
Fluxo e pulso das horas
“A gente jamais esquece o primeiro relógio.”¹ “ […] As últimas datas, descobertas, invenções,sociedades, autores antigos e novos,Meu jantar, roupas, amigos, olhares, cumprimentos, dívidas,A indiferença real ou fantasiosa de um homemou mulher que eu amo,A doença de alguém de minha gente ou de mimmesmo, ou ato doentio, o
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Crônicas
Duas sessões: um respiro, apesar de # e @
Quanto mais Inteligência Artificial, maior a cobrança por performance, por entrega, por prazos que já deixaram de ser humanos. O mundo segue tendo seus ciclos — noite e dia, dias que viram semanas, semanas que viram meses — e, num piscar de olhos, os anos passam. A urgência urge. Respirar é um ato de vida: ar que entra
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Crônicas
Venerandas folhas amarelas que não são do outono
E teve vontade de tocar piano, só para se sentar por ali e acordar uma melodia quase alegre, aguardando o parceiro que a acompanharia, a quatro mãos. Entretanto, não havia um; se houvesse, não saberia tocá-lo. Estava sozinha entre páginas fustigadas e quase oleosas, alguma poeira, nada além. Era só àquela hora da madru
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Crônicas
Reintegração das águas em si: páscoa
— Onde estamos?— Não muito longe do seu destino.— Parece faltar muito… Essa viagem é infinita,mamãe…— Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.— Você é muito filosófica, mãe.— Eu não inventei isso. Foi o Einstein. Albert Einstein.— Ele é b
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Crônicas
curvas, exclamações tesas e duplos olhos castanhos
Pela primeira vez percebo as curvas orgânicas da fechadura que sustenta a chave da porta mais usada do meu armário, enquanto uma música conhecida reverbera pela caixa de som. A cortina de linho, fina, balança em câmera lenta, descortinando aos vizinhos — imersos em suas rotinas — a intimidade do meu corpo quase nu sobr
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Crônicas
Esquisito Íntimo – parte II: origem x vertigem
Eu também tinha visto aqueles lábios torcidos em uma expressão de humor irônico. Parecia quase desnecessário, mas a presença do “quase” – termozinho safado! – faz toda a diferença. Traja o tipo de humor que eu gosto, do tipo que não se importa em zombar de si mesmo, verdadeira leveza e certifica
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Crônicas
Saída de emergência
Trepida. Me vem, primeiro pelo barulho externo que pelo chacoalhar do corpo. Depois, o conforto de um ambiente climatizado. Estou em trânsito, como gosto, dormindo a caminho de um novo horizonte [muito embora, seja o mesmo de um momento anterior, que não é esse]. Minha quilometragem fortalece os sorrisos que virão. Que
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Crônicas
Esquisito íntimo
Esquisito: Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels preto e branco dançantes. Uma quase hipnose. Quand
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Crônicas
Pé ante [o sisal e a sombra do outro] pé
Um vulto de cerca um metro e vinte e cinco se esquiva por trás da cadeira de balanço. Gabriel move um pé depois do outro, tentando elevar seu peso acima dos ombros. Primeiro, o indicador do pé esquerdo toca o assoalho de madeira, um marrom rosado escurecido pelos anos. Pisa com cautela para evitar o rangido. Quase não
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Crônicas
Boiar nas águas, atravessar os morros: menos Catherine, mais Rita – mais minha
Quantas vidas vivemos em uma vida – você, eu? Eu, por exemplo, não sou mais a mesma do casamento. Nem poderia ser. Seria falta de educação comigo mesma. Tampouco sou a mesma que realizou, ainda nova, seu sono de morar no exterior. Ou a que ambicionava um prêmio de arquitetura, recebido na categoria sustentável an
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Crônicas
A cuíca, a ruivez e o smartwatch – sexta-feira 13 como comissão de frente
Comprou um relógio para controlar seus batimentos cardíacos. Descobriu que, ao ter o combo de medições de oxigenação, estresse, sono e ciclo menstrual, tornava seu pulso um criador de conteúdo. Dados. Gráficos. Percentuais.O coração, finalmente, auditável. As notificações de redes sociais, e-mails ou o contar do tempo
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Crônicas
Nas alturas, um café com o Redentor
Próximo ao céu, onde nenhum obstáculo além de uma escada de marinheiro me separa do Cristo Redentor, a certeza de que nada é estável me invade. A mutabilidade da paisagem, colorida a cada noite por nuances de distintos pigmentos primitivos — esparsas, turvas, momentâneas — fere um órgão qualquer, apertado entre oxigêni
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Crônicas
Alô, alô, seu Chacrinha – aquele abraço!
Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a t
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Crônicas
Solas
Me apaixonei, ou pelo menos acho que me apaixonei; fui a uma festa e perdi a cabeça. Comprei um cavalo que não preciso de jeito nenhum. Regras. Não ofereça preço por algo que você não precisa. Ao chegar a um baile, convide alguém para dançar imediatamente e dance uma valsa ou uma polca com essa pessoa. Pense em maneira
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Crônicas
vida [e mundo] como um sopro
Intranscritível o sussurro aerado dos tempos à beira de uma lagoa. Folhas balançam, cabelos se descabelam, passarinhos tentam passarinhar, todo um compasso descompassado e, por isso mesmo, incrivelmente belo. Há algo de poético em se perceber só existindo, às 16h16 de uma tarde com sol entre nuvens, pessoas – pou
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