Poesias de 1 a 99

É um espaço destinado para poemas de novos e autores consagrados.

  • De súbito a chuva cessou.Ponho-me a escrever sobre ti,criatura sem carneque me visita. Não sei de onde vens,mas sempre chegasnas horas mais extenuantesde minha fuga. Fecho portas e janelaspara não te permitirlivre acesso sobre mim,que de cansado me basto. Mas tu me vens sem ser chamadae mesmo sem chegar em forma clara,sei que és minha consciência,e te incorporo. O Acaso das Manhãs

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  • Tenho dito mentirassem tomar consciênciade sua contextura falsa. Não tenho desmentido o que digopois tenho a concepção de que mintosobretudo para mim mesmo. Sendo assim as minhas mentirasnão podem acarretarna perda de qualquer afeição. E já que é precisamente sobre a falsidadeque se alicerça o convívio entre os homens,as palavras de mentira ou verdade que eu dissernada significam de permanente num relacionamento. Mas não posso deixar de convirque assim faz

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  • No barco nuo pescador sonhaum sonho azul. No barco velhoo pescador rinum sonho azul. Com a água calmao pescador viajano sonho azul. Ninguém atrapalha,nada interrompeo sonho azul. O impulso amorosoé forte e clarocomo o sonho azul. No barco nuo pescador encontrao sonho azul.

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  • O poemanecessita de um outropoemaassim como o poetanecessitade uma con/vivência poética.Os versosnão nascem do nadaassim, exclusivamente,inspiração.A noiteprecede o sopro líricoe ambos se integramao poema acabado.O poeta,este ser solitário,desce das montanhasde seus sonhospara recolher os fragmentosda realidade dos homens,e com eles constrói no poemauma unidade hipotética.O Acaso das Manhãs

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  • O fraco risco frágile trêmulo uma vozuma voz apenasruído longínquo e espessouma vozum frasco, riscomurmúrio e sonhovoo largo e concreto da voznum desencontro imponderávela pedra a areia o riscoinevitávelvoz das brumasvoz das sombrasvoz apenasde tudo o que se podiatudo o que se queriatudo que se sonhavae nada se viavoz apenasvoz de melancoliamar marulhar marulhobrumaa escuna no escuroo som da vozna vozfozinominável voztrêmula, espessa, rarainevitável desenc

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  • Não digo que estouno fundo do poçoporque este não é mensurávele sempre se pode cair mais ainda.Mas estou numa queda livree vertiginosa.A roupa do passado não me serve,o presente é rotoe estou sem vestes para o futuro.E numa queda os laços vão-se rompendo,se dissolvendo,desagregando-se.Nenhum laço segura um homemque cai por muito tempo.A dignidade é uma palavra para pessoas de pé.Na horizontal os conceitos são outros. A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

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  • “… e a monotonia da vida será para mimcomo a recordação dos amoresque me não foram advindos,ou dos triunfos que não haveriamde ser meus”Fernando Pessoa O pouco que sei,sei de o não saber,mas só o de sentire nunca poder alcançar. Tudo passou por mimcomo as águas de enchente,mas vi tudo fluir e o vaziode nada reter nas mãos. Se escrevo é só uma fórmulade sonhar possibilidadesenormes, como se fossempassos de uma criança deitada. O Jardim Simultâneo

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  • O presente vivido é quase o infinito…o presente amado a eternidade incompleta.Ridícula a angústia, o cansaço tolhido,começo de caminho, meia-volta discreta… Ansiedade é pequena eternidade no presente,pedras e esforço inútil, chamado repetitivo.Tormento, fingimento, ser em estar ausente.Velho e novo, refundidos, abertos num livro… Os grãos de areia podem ser incontáveis,mas o mar recolhe um a um, a toda hora.O resto são espumas, simples brincadeira… Do temp

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  • só Deus & o Diabosabemo quanto eu caminheiaté chegaraquinesse fim de mundo.hojejogueimeus velhos & gastospassosno altodos fios elétricos. acendi uma luz no fim do beco.

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  • “se soletra L-U-A” sabe,há um momentoem que a luafica escura. é quando,a escuridão maiorvinda dos montescobre a Rua Fácil. e tudo,vira um só quadronegro, uma lousafria que antecedea morte. Da Essencialidade da Água

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  • Lento, tudo está lento…Vejo meus passos firmes, passos soltosE já não sei mais o que solto, pelo que passoSe quando firmo, não me atento. Doce, tudo está salvo.Tampouco o hoje é, sorte.Se é veneno um tanto, e quanto ao não que houve?E quando o há? Sabemos? Se o quanto ouço, ou vejoFizer mera semelhança ao sentido…Se por falar em sentir, se exaltar-lhe o tatoFor, ainda assim, coisa-fato… não me remeto ao senso de ser simples isto. Existo. Voo.Plaino sobre a

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  • O pequeno menino olha demoradamente o céu.O voo de um pássaro branco…excitado,leve, branco, branco e leve: um estalo.Alvas penas de um delírio todo seu. Corpo sem brilho é beijo de encontro à terra,um desespero brusco de última chance.Molhado pelo sangue o passeio se encerra…dentre tantos pássaros, quem quer, que cante. Asas se abrem e contorcem no mesmo instante.Tudo é ferida, escuridão, lágrimas e repeteo menino a dor do pássaro agonizante… Chora compuls

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  • A ilha com seu silênciome comunica a mortedos seres espectraisque nela vivem ou já viveram. A ilha cercada por manguesé um poço de lama e óleo. Os pescadores da ilhame comunicam o fimdos pescadores da ilha. Os pescadores da ilhame apresentam a pesca de um dia,nada. A ilha com sua morteme comunica o silênciodos seres superioresque a mataram e matam. A ilha abandonada pelos banhistasé um deserto de espuma e água. Os frequentadores da ilhame comunicam o desas

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  • só deus sabequantos e quantos aviões(entre sóisnuvensestrelas& luas)meus olhosdecolaram voos pra só assimdo outro lado do continentete aterrissare ser passageiro de tipor eternos instantes

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  • Mil noites de sonoe o abismo intactoA beleza da árvoree do peixeA máscara da maldadefiltrada pelo telefoneO sorriso do triunfo provisórioA dor latente e as pancadas na paredeA pedra que dissolve o leite. A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

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  • A chuva no asfaltoleva papéis/cigarrose o vômito de ontem.Amanhã novos resíduosvirão para preenchero vazio do meio-fio.Areia (À Fragmentação da Pedra)

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  • Falemos da esperança.Sim, da velha andançaDa chuvosa lembrançaOnde te sondavas. Vamos, falemos em novidade.Digamos que vai tudo indo, sim.Lá fora, diga que, ao todo, te aquietasFora tempo de espera. E te lembravas. Este, foi-se?Não soubera.Tentaste um rumo, fostes sem manualSem estradas, fostes sem-terra. Pois que era um domingo.E que já não lhe haveria numa segundaPara mais saudade.Talvez na quarta. Ai, quem me dera! Esqueça, pois que já vens tarde.Tens u

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  • Havia uma aranha lá foraque tecia sua redea despeito da chuvae do desânimo dos homens. Era uma aranhaque tecia a sua rede fora do mundo,e eu miseravelmente preso a eleperdia-me em conjeturas sobre o amore sobre um livro que acabara de ler. O Acaso das Manhãs

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  • Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!Para que a pressa?se preciso, eu, mais que vitaminas,do alimento para o viço que… reflete-me,[interna] e inteiramente?Que eu possa deleitar-me com o calor azulda caligrafia inexistente no papel que cheira a delírio Eis-me inteira,num instante errante,naufragada no suor denão pertencer.Cá estou. Inexpressiva no sorriso mais verdadeiro. Bate-me o peito em um não positivo. Eis me aqui. Intacta. Tempo, tempo…por q

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  • tivemos um olhar-eclipseapósanoseanos foi tão lindoque até os deusespararam pra ver e foi assim        mais    umavez até o sol dos seus castanhos partirpara um cantoe restarsomenteessa luaminguanteno céuda solidão

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  • Sequência finalnuma casa de 24 m²com vista de frentepara um beco lateral.O piso era grossoantes de eu assimilá-lo,mas como a vidapermaneceu emdesalinho eu adormecideitado de lado e tombadoem lençóis queimadosno espaço entre as camas.Com uma aliança invisívelna mão direita e um cheiroforte de esgoto vindo do banheiro.E pensar que havia promessasveladas feitas a mim mesmono escuro de uma vida desfalcada.Pinturas metálicas malfeitasno fundo de um espelho manc

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  •  ( A Cecília) Antes que chegue o dia da mudez,Cantemos!Cantemos elegiasCantemos heavyCantemos baladasCantemos !Que em nós haja uma eterna cançãoIndescritivelmente bela,Inevitavelmente originalPor sermos, cada um de nós, a própria melodia, a harmonia curativa No desconcerto do mundo.

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  • Este que vos premeditaDevia dizer-lhes algoMas o profundo que é o serenoMais errôneo que o acaso tornou-se Então dizes ao papel:Das tuas palavras fizestesDe pouco caso;Que se bastasse um punhado‘Inda que só coubesse o que lhe atava. Sonoridade tal das águas já lhes assoavamOs cascos empoeirados da vigíliaE tu sonhastes teu atraso… O não que dizes é certeiroRessoa pra longe, bem longe se estende.Caronas apanhas; onde te encontras?Ao retorno te encostasDe on

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  • Abandono totalnuma casa de 29 m²com vista de fundopara um bambuzal.O piso era claroantes de eu pisá-lo,mas depois a vidaconverteu-se emdesordem e acordeideitado de costasnum corredordo lado de fora,com a chave na mãoesquerda coberta desangue e a fúria cegade quem não se lembrade nada. Uma Escada que Deságua no Silêncio

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  • Estou parado há duas horas.Já fui de um lado a outroFui de esquina a esquinaPercorri cada quadrado de chão. É que me cansaram as pernasEntão deixei-me aqui.Por um lado parece-me um tanto sagrado,De outro, nefasto e ridículo. É que andei tanto que já não tenho por onde ir.Cumprimenta-me o passo do outroQue por um lado atravessa a ruaDo outro, acena e desviaOu o de mais longe, que caminhaE eu, que já não soube de onde vinhaSó, via. O movimento do mundo me de

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  • Suspenso na tardecomo uma lâmpada queimadanum porão deserto,figura o lado esquerdode um parêntesis aberto. Seu estado resultado itinerário de sombrasem que um homem se perdena solidão de seus próprios passos,esquecidos sequer sem deixar uma marca. Sua abertura demonstraa imperiosidade do erroque determina sempreque as flores se abram para cumprirseu papel de beleza e de decomposição. O parêntesis aberto no escuronão é senão a necessidadede se sair do estág

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  • O outono deixa cair seu manto branco sobre as montanhasNada mais é nítido, nada mais é real.Tudo vira sonho .Há magia sob o tecido d’água que misteriosamente pede aconchego.Todos são um. Confundidos, ofuscados. O outono salpica a noite com estrelas tantasO olhar se perde, tudo parece sonho.Há magia sob o céu bordado, que misteriosamente provoca suspiros.Todos são encantados. Confundidos, ofuscados O outono desenha montanhas azul-marinho guardando a cidadeN

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  • A inquietação daquela noitelevou-me ao extremo de deixar a camaem pleno delírio da febre sem causaque me acometia desde há muito. Nunca em meus transportes noturnos,que eram então muito frequentes,eu havia experimentado essa ânsia de fugaque só se compara à de uma suicida na ponte. Corri como que alucinado fantasmaaté o porão da casa onde a umidadehavia impregnado as paredes de morte,e peguei no baú o espelho quebrado. A chuva era intensa e os relâmpagosco

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  • A cama desarrumada.O livro (quase) aberto.Páginas escurecidas. A caneta largada no meio. No relógio um horário impróprio; “já é dia?”Sob os travesseiros, um único pijama não se sabe porquê; não se sabe para quem.Clareou.As plantas espreguiçam-se:um girassol retorce lentamentepétalas, amarelas, miolo, marromem direção à promessaDe solDe luzDe felicidade com prazo de validadeVencida De repenteDois passos contrabalanceiam o peso de um único corpoUm, dois, trê

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  • em frente à ruaum senhor passacom seu carrinho de docese um radinho tocando:“doce doce doce a vida é um doce doce mel…”os olhos de minha lembrançarolamfeito bolinha de gude encaçapandoo buraco mais fundo chamadotúnel do tempoe percebohá quanto tempojá não saboreio maiso doce

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