Poesias de 1 a 99

É um espaço destinado para poemas de novos e autores consagrados.

  • “quem vive como eu não morre:acaba, murcha, desvegeta-se.”Fernando Pessoa No subterrâneo não adianta sorrirPorque as nossas presas de marfimJamais verão a luz do dia ou o sol. Eu estive nas cavernas por muitos anosE durante todo esse período nunca recebiUma visita que não fosse trazendo a comida. No isolamento não adianta existirPorque os nossos sonhos douradosJamais saberão o que é reciprocidade. Eu estive nas prisões por muito tempoE durante todos esses

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  • Confesso: cavalos me amedrontam.Mas se deles sou chamado o amigo…Hesito antes de estender a mão.Crina, pescoço e olhos à caríciacurvados: só eu e meus animais. Encontram no titubeio do pulsoperigo ao equilíbrio do trote.São dóceis, porém, feitos da mansamalícia das feras e dos poetas.Desiguais entre si e entre nós. Avulso, um toque desencadeiapinote desvairado, que feitodança, descreve no espaço curvasinquietas sobre um eixo precário:veloz revés na r

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  • É o lençol posto na camaé o café posto na mesaé o homem posto na rua o trabalhoo dinheiroo trabalho e trabalhae se cansatodo dia todo diao dia todo é a janta posta na mesaé o corpo posto na cama o sonoa insôniatoda noite toda noitea noite toda é o homem sem demoraé o homem sem memória toda vida a vida toda

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  • há muito não via umtrem.com o peito ofegantee os ombros dormentes,não por carregar latinhas e papelãoo dia todo,mas algo invisívelna corrente de seu pescoçopesava mais que mil cachorros.arfava, junto aos matose entulhos, um bafo quente de boas-vindas.estava a menos de cinquenta passos da linha férrea.olhou pra cima.um céu sem estrelas, sem lua. outra noite sem filme.imagens granuladasinvadiam sua míope memória em noites assim.abriu um Corote,sentou-se na v

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  • há muito que não a vejocalibro a saudade no peitoalfa centauro, sorteio:não sei se te beijoou se bebo.Uma Escada que Deságua no Silêncio

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  • Aqueles que esperamque todos durmampara então se revelaremno escuro do mundoagora despovoadode leis e de homensque foram fatigadospela batalha diáriade se ganhar dinheiroe etcetera e coisa.Aqueles que se recolhemquando todos já acordadosrecomeçam o ciclo da vidasubitamente interrompidopara o ensaio da mortee que assim em movimentonão percebem os sonhosespalhados na noitepor gente incógnitaque digere o mundopara o sustento possívelde uma impossível unidadec

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  • nuvens cor de marnelas posso navegarsem barco nem remosó com as mãos e a coragem quem cai, não se afogaquem se perde, não temeque nas águas desse lugaras ondas embalam sem engolir longe da praia, longe de lámais perto do céu, onde eu quero estarbrisa em que o corpo flutua, sem náusea,entregue, convicto, ao ritmo do ar nuvens cor de maruma só não bastaránum oceano de sentidos,quantos destinos podeum marinheiro encontrar?

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  • o poeta dos acasoso poeta das manhãso poeta das areiaso poeta da fragmentaçãoo poeta das pedraso poeta dos inventárioso poeta das sombraso poeta sentinelao poeta em fugao poeta das ausênciaso poeta das escadasque deságuamdentro de si mesmoo poeta dos silêncioso poeta dos jardinso poeta das simultaneidadesele, às vezes, planta árvores. O Jardim Simultâneo

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  • Língua breve, toda clara, toda escura,Aos poucos caminha, para, continuae entre o areal, a bruma, a leve chuvaa face se mostra, inquieta e muda. Língua instante – objeto nada – rara, poucaPara, continua, para… tonta e loucaEnsaia um grito, uma palavra, outra,A voz se insinua, miúda e rouca. No entanto, nas contradições do descaminho,Faz-se a língua na própria línguaFaz-se o verso em todo o canto. O poeta, imagem irreal, o instinto,Busca a palavra, su

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  • para dias cinzentosé preciso abrir a janela de casapulare sair descalçopelas calçadas encontraralgum mato-vivodo teu passadonas arestas do pasto e as terras vermelhasque agora bordam teus pés(um tanto cansados)um dia também pintou tua face com as mãossemeartuas raízes ao vento e quando partir o soljunto com o sino dos pássarosé hora da retomadafeito meninosujodeixando rastrosde aquarelapor onde passa

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  • Trago comigo meus poemasque ainda não foram escritos,simplesmente porque não se fizerame nem se recolheram à sua impossibilidade.E vou deixando-os, portanto, para o diaseguinte, para a manhã seguinte, paraa vida seguinte que não haverá.Areia (À Fragmentação da Pedra)

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  • um pessegueiro roxobraços em formas de garrasdedos intumescidospernas retesadas. quando estamos dormindotudo parece fácil:pé fora da camae acrobacia de quedas. Da Essencialidade da Água

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  • De súbito a chuva cessou.Ponho-me a escrever sobre ti,criatura sem carneque me visita. Não sei de onde vens,mas sempre chegasnas horas mais extenuantesde minha fuga. Fecho portas e janelaspara não te permitirlivre acesso sobre mim,que de cansado me basto. Mas tu me vens sem ser chamadae mesmo sem chegar em forma clara,sei que és minha consciência,e te incorporo. O Acaso das Manhãs

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  • Tenho dito mentirassem tomar consciênciade sua contextura falsa. Não tenho desmentido o que digopois tenho a concepção de que mintosobretudo para mim mesmo. Sendo assim as minhas mentirasnão podem acarretarna perda de qualquer afeição. E já que é precisamente sobre a falsidadeque se alicerça o convívio entre os homens,as palavras de mentira ou verdade que eu dissernada significam de permanente num relacionamento. Mas não posso deixar de convirque assim faz

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  • No barco nuo pescador sonhaum sonho azul. No barco velhoo pescador rinum sonho azul. Com a água calmao pescador viajano sonho azul. Ninguém atrapalha,nada interrompeo sonho azul. O impulso amorosoé forte e clarocomo o sonho azul. No barco nuo pescador encontrao sonho azul.

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  • O poemanecessita de um outropoemaassim como o poetanecessitade uma con/vivência poética.Os versosnão nascem do nadaassim, exclusivamente,inspiração.A noiteprecede o sopro líricoe ambos se integramao poema acabado.O poeta,este ser solitário,desce das montanhasde seus sonhospara recolher os fragmentosda realidade dos homens,e com eles constrói no poemauma unidade hipotética.O Acaso das Manhãs

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  • O fraco risco frágile trêmulo uma vozuma voz apenasruído longínquo e espessouma vozum frasco, riscomurmúrio e sonhovoo largo e concreto da voznum desencontro imponderávela pedra a areia o riscoinevitávelvoz das brumasvoz das sombrasvoz apenasde tudo o que se podiatudo o que se queriatudo que se sonhavae nada se viavoz apenasvoz de melancoliamar marulhar marulhobrumaa escuna no escuroo som da vozna vozfozinominável voztrêmula, espessa, rarainevitável desenc

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  • Não digo que estouno fundo do poçoporque este não é mensurávele sempre se pode cair mais ainda.Mas estou numa queda livree vertiginosa.A roupa do passado não me serve,o presente é rotoe estou sem vestes para o futuro.E numa queda os laços vão-se rompendo,se dissolvendo,desagregando-se.Nenhum laço segura um homemque cai por muito tempo.A dignidade é uma palavra para pessoas de pé.Na horizontal os conceitos são outros. A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

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  • “… e a monotonia da vida será para mimcomo a recordação dos amoresque me não foram advindos,ou dos triunfos que não haveriamde ser meus”Fernando Pessoa O pouco que sei,sei de o não saber,mas só o de sentire nunca poder alcançar. Tudo passou por mimcomo as águas de enchente,mas vi tudo fluir e o vaziode nada reter nas mãos. Se escrevo é só uma fórmulade sonhar possibilidadesenormes, como se fossempassos de uma criança deitada. O Jardim Simultâneo

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  • O presente vivido é quase o infinito…o presente amado a eternidade incompleta.Ridícula a angústia, o cansaço tolhido,começo de caminho, meia-volta discreta… Ansiedade é pequena eternidade no presente,pedras e esforço inútil, chamado repetitivo.Tormento, fingimento, ser em estar ausente.Velho e novo, refundidos, abertos num livro… Os grãos de areia podem ser incontáveis,mas o mar recolhe um a um, a toda hora.O resto são espumas, simples brincadeira… Do temp

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  • só Deus & o Diabosabemo quanto eu caminheiaté chegaraquinesse fim de mundo.hojejogueimeus velhos & gastospassosno altodos fios elétricos. acendi uma luz no fim do beco.

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  • “se soletra L-U-A” sabe,há um momentoem que a luafica escura. é quando,a escuridão maiorvinda dos montescobre a Rua Fácil. e tudo,vira um só quadronegro, uma lousafria que antecedea morte. Da Essencialidade da Água

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  • Lento, tudo está lento…Vejo meus passos firmes, passos soltosE já não sei mais o que solto, pelo que passoSe quando firmo, não me atento. Doce, tudo está salvo.Tampouco o hoje é, sorte.Se é veneno um tanto, e quanto ao não que houve?E quando o há? Sabemos? Se o quanto ouço, ou vejoFizer mera semelhança ao sentido…Se por falar em sentir, se exaltar-lhe o tatoFor, ainda assim, coisa-fato… não me remeto ao senso de ser simples isto. Existo. Voo.Plaino sobre a

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  • O pequeno menino olha demoradamente o céu.O voo de um pássaro branco…excitado,leve, branco, branco e leve: um estalo.Alvas penas de um delírio todo seu. Corpo sem brilho é beijo de encontro à terra,um desespero brusco de última chance.Molhado pelo sangue o passeio se encerra…dentre tantos pássaros, quem quer, que cante. Asas se abrem e contorcem no mesmo instante.Tudo é ferida, escuridão, lágrimas e repeteo menino a dor do pássaro agonizante… Chora compuls

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  • A ilha com seu silênciome comunica a mortedos seres espectraisque nela vivem ou já viveram. A ilha cercada por manguesé um poço de lama e óleo. Os pescadores da ilhame comunicam o fimdos pescadores da ilha. Os pescadores da ilhame apresentam a pesca de um dia,nada. A ilha com sua morteme comunica o silênciodos seres superioresque a mataram e matam. A ilha abandonada pelos banhistasé um deserto de espuma e água. Os frequentadores da ilhame comunicam o desas

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  • só deus sabequantos e quantos aviões(entre sóisnuvensestrelas& luas)meus olhosdecolaram voos pra só assimdo outro lado do continentete aterrissare ser passageiro de tipor eternos instantes

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  • Mil noites de sonoe o abismo intactoA beleza da árvoree do peixeA máscara da maldadefiltrada pelo telefoneO sorriso do triunfo provisórioA dor latente e as pancadas na paredeA pedra que dissolve o leite. A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

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  • A chuva no asfaltoleva papéis/cigarrose o vômito de ontem.Amanhã novos resíduosvirão para preenchero vazio do meio-fio.Areia (À Fragmentação da Pedra)

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  • Falemos da esperança.Sim, da velha andançaDa chuvosa lembrançaOnde te sondavas. Vamos, falemos em novidade.Digamos que vai tudo indo, sim.Lá fora, diga que, ao todo, te aquietasFora tempo de espera. E te lembravas. Este, foi-se?Não soubera.Tentaste um rumo, fostes sem manualSem estradas, fostes sem-terra. Pois que era um domingo.E que já não lhe haveria numa segundaPara mais saudade.Talvez na quarta. Ai, quem me dera! Esqueça, pois que já vens tarde.Tens u

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  • Havia uma aranha lá foraque tecia sua redea despeito da chuvae do desânimo dos homens. Era uma aranhaque tecia a sua rede fora do mundo,e eu miseravelmente preso a eleperdia-me em conjeturas sobre o amore sobre um livro que acabara de ler. O Acaso das Manhãs

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